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“PIRACEMA E PARABELO” do Grupo Corpo (TCA, 2026)


A palavra principal precisa ser explosão. Talvez a segunda seja: Frenesi. Muitas vezes a arte tem o potencial de passar por cima da nossa expectativa, de transcender tudo. Foi o que aconteceu em PIRACEMA E PARABELO do começo ao fim. Em Piracema, tentei imaginar os peixes subindo o rio antes. Era fácil porque já fui até a Belém, a Santarém, a Óbidos e lá, no rio Amazonas, na piracema, o caboclo nem precisa pescar, basta colocar a canoa contra a corrente – os peixes pulam lá dentro – eu vi!

Mas a Piracema que eu vi ontem, tinha uma energia diferente e inacreditável – como se aqueles corpos estivessem mesmo agitando as águas, naquela sincronia que não quer dizer que todos estejam fazendo o mesmo movimento ao mesmo tempo. Quer dizer apenas que o movimento vem de todos os lados – igual – mas em tempos diferentes- o que cria…


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“A Ausência Que Seremos”/ “El olvido que seremos” (Netflix, 2020)


Ver esse filme, no momento político do Brasil atual, foi quase como rememorar o que foi a tortura, os assassinatos, as pressões, os atentados, as execuções nos anos de 1970 - não apenas na Colômbia, mas em todos os países da SulAmérica, incluindo o Brasil.

O que significa ser médico e professor em meio às correntes de medo e de silêncio ao seu redor, universidade? O que é criar filhos, ter uma esposa, uma família e permanecer destemido? Aliás: o que é mesmo ser destemido e falar, conjecturar, discutir, não esmorecer, insistir a cada aula que suas turmas pensem?

Este é o filme. Cenas bem articuladas, ganchos bem feitos, interpretações tão absolutamente orgânicas que esquecemos que é filme – talvez pela “proximidade entre os roteiros das ditaduras da vida real”. Saber que um dos roteiristas do filme é o menino Hector, responde a muitas questões relativas à naturalidade com que…


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Peça de Teatro “Viva! Vida!” (TCA, 2026)


Peça de Teatro “Viva! Vida!” (TCA, 2026)


O Bug Latino agradece a cortesia de ingressos do patrocinador CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil. Gratidão.


Regina Casé faz um solo onde, como uma bruxa pós-moderna, tenta nos tirar do encantamento das nossas rotinas sem passado, sem reconhecimento do tempo – o Iroko – consumindo coisas, emoções, medos, pessoas, crianças, filhos, netos – o Iroko, de novo – vivendo o tempo sem vê-lo, nem o absorver dentro de nós.

Sem nenhuma religião, talvez tenha sido o espetáculo mais religioso que me lembro de ter visto.  De uma forma absolutamente natural, sem nenhuma pretensão de criticar o fato humano que somos, a peça – e Regina é tão natural que nos vemos como parte dos comentários e tudo aquilo nem parece ter sido pensado, proposto, ensaiado, escrito – afinal, nem parece texto, nem parece teatro – é apenas aquele lapso mágico de tempo…

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“Les Enfants vont bien” // “As Crianças Estão Bem” // “Out of Love” (Autoral filmes, 2025)


É um filme árduo. Sem trilha, sem música nenhuma. Quando ela toca aqui e acolá, de um modo bem disperso, você nem percebe direito que aquilo é música.

Um filme com crianças, mas que as crianças não deveriam viver – muito mais até do que ver. Tem famílias – mas totalmente desajustadas e com problemas que ninguém imagina que elas possam ter – eu, pelo menos, nunca havia pensado que um problema com esta dimensão seria possível. Mas é.

E se a sua vida pudesse se desequilibrar totalmente e o estado natural de todos, dentro dela, fosse o de solidão? Crianças e adultos – juntos, mas separados pela capa gélida da solidão? O menino maltrata a tia, a menina se sente enxotada e reage, os dois irmãos apenas dão as mãos eventualmente e as duas irmãs perderam contato emocional há anos. Se a mãe não quer ou não se sente…


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“'Squel, Confissões de uma porta-bandeira” // “Squel: A Carnival Queen” (Autoral Filmes, 2026)


Joãozinho Trinta, o carnavalesco mais genial da história, dizia que um desfile de escolas de samba era como estar e viver num palco de óperas. Ninguém que não tenha em si mesmo a percepção da ruptura absoluta com a realidade que representa o carnaval brasileiro, a pausa para que a mente humana, do tipo carioca, se espraie pelo éter, pelo ar, pela atmosfera e se expanda, se expanda até que o infinito nos conduza até a liberdade criativa absoluta, capaz de convencer uma pessoa pobre de que ela, naquele momento, é uma rainha, uma princesa, uma escrava, uma deusa, uma orixá do panteão de Órun, que divide com as entidades que vem de lá o Ayé, o nosso mundo físico, compreende o tamanho da expansão necessária para voar além do real para defender um panteão, uma bandeira, uma tradição.

Este documentário é sobre a construção dolorida, cansativa, extenuante desse momento.…


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“A Vizinha Perfeita” / “The Perfect Neighbor” (Netflix, 2025)


Perturbador. Nenhuma imagem tratada, nenhum retoque de roteiro. É aquilo mesmo: uma mulher paranoica, que se sente perseguida por nada. Que implica por tudo. Que inferniza, provoca, chama a polícia - e é das câmeras corporais dos policiais que surge a história desse homicídio, onde 4 crianças se tornam órfãs. De repente.

                        A trama é ancorada nas mentiras sucessivas que A VIZINHA PERFEITA usa para justificar gritos, ofensas, ligações para 911, agressões. Você “sente” a emoção escalando, o preconceito usado para ofender, o racismo presente. Você sente a situação fugindo ao controle, a polícia dizendo repetidas vezes que as queixas não vão evoluir para processos, nem prisões. Você vê a expressão dos olhos, o desprezo, a indiferença.

                        Ouvir o som do tiro – PÁ! – É consequência. Mas perceber a trama por trás do tiro faz com que a gente vá subindo ponto a ponto a nossa expectativa…

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“O Desafio de Marguerite” / “Le théorème de Marguerite” (Youtube, 2023)


Um filme como poucos. Um desafio. Afinal, ficamos diante do desafio de nos desafiarmos a nós mesmos, nos confrontarmos com o que acham que somos, enfrentando o que podemos fazer, mesmo quando somos postos de lado.

O ambiente acadêmico tem esses momentos. A crítica cruel, a dureza do olhar, o desejo de atravessar o pensamento genial, copiá-lo, vencê-lo, angariar para si mesmo a fama. Ou não: dividi-lo, compartilhá-lo, amar a companhia, a descoberta.

Quem afinal somos nós? Em O DESAFIO DE MARGUERITE todas as questões estão postas. Ella Rumpf está primorosa, perfeita. Tão soberba que o elenco passa por ela. Não que ele não esteja perfeito, mas porque ela é magnífica.

São tantas as perguntas postas sobre nós que ficamos chacoalhados com o que pode nos estimular mais, como podemos alcançar pessoas que saibam ser parceiras, como nos unir, como produzir saídas, quem podemos ser, ao acreditarmos que podemos ser.…


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“Ponto de Virada: Geração 11 de Setembro” / “Turning Point: Generation 9/11” (Netflix, 2026)


Eu acompanhei o 11 de setembro, passo a passo, desde a ideia de que tinha sido um acidente trágico, até a certeza de que tínhamos acompanhado pela TV, pela primeira vez, um atentado terrorista ao vivo. Dois prédios, quase 240 andares viraram pó, literalmente – "do pó viestes, ao pó retornarás". E depois da Bíblia, a vingança, a caça, a invasão do Afeganistão, a suposta salvação e depois a entrega da população do País a Al Qaeda – de salvadores de um povo, de guerreiros que acabaram com o grupo terrorista que devastou seu país, de defensores, de matadores de Osama Bin Laden, a soldados perdidos, nunca treinados a abandonar um povo que estava sendo trucidado frente aos seus olhos – também ao vivo, em todas as TVs do mundo.

Sim, este é o DOC PONTO DE VIRADA: A GERAÇÃO 11 DE SETEMBRO – com uma cena – a cena,…


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“Uma Mulher Diferente” / “Différente” (Netflix, 2025)


Repito e não me canso: adoro filmes baseados em fatos da vida real. Por muitos motivos. Mas creio que o principal é que olhamos muitas vezes a vida como se fosse um lugar onde coisas inusitadas acontecem com as pessoas que aparecem no Jornal Nacional, sem pensarmos que todos nós podemos ter o nosso dia de reportagem. Sem pensar que podemos nos reconhecer como portadores de algo que nos diferencie. E que isso deveria ser usual, mas não é. A enchente, o tsunami, o vulcão, o terremoto, o autismo, a Chikungunya - tudo acontece na TV.

A história de UMA MULHER DIFERENTE é exatamente essa: a pessoa se esforça para ter uma vida "dita" normal, até que a reportagem que estava montando lhe revela que aquele esforço - tantas vezes insuportável em busca dos vernizes e futilidades da nossa vida eram muito mais que sacrifícios - era autismo.

Ah, sim,…


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