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“Les Enfants vont bien” // “As Crianças Estão Bem” // “Out of Love” (Autoral filmes, 2025)


É um filme árduo. Sem trilha, sem música nenhuma. Quando ela toca aqui e acolá, de um modo bem disperso, você nem percebe direito que aquilo é música.

Um filme com crianças, mas que as crianças não deveriam viver – muito mais até do que ver. Tem famílias – mas totalmente desajustadas e com problemas que ninguém imagina que elas possam ter – eu, pelo menos, nunca havia pensado que um problema com esta dimensão seria possível. Mas é.

E se a sua vida pudesse se desequilibrar totalmente e o estado natural de todos, dentro dela, fosse o de solidão? Crianças e adultos – juntos, mas separados pela capa gélida da solidão? O menino maltrata a tia, a menina se sente enxotada e reage, os dois irmãos apenas dão as mãos eventualmente e as duas irmãs perderam contato emocional há anos. Se a mãe não quer ou não se sente…


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“'Squel, Confissões de uma porta-bandeira” // “Squel: A Carnival Queen” (Autoral Filmes, 2026)


Joãozinho Trinta, o carnavalesco mais genial da história, dizia que um desfile de escolas de samba era como estar e viver num palco de óperas. Ninguém que não tenha em si mesmo a percepção da ruptura absoluta com a realidade que representa o carnaval brasileiro, a pausa para que a mente humana, do tipo carioca, se espraie pelo éter, pelo ar, pela atmosfera e se expanda, se expanda até que o infinito nos conduza até a liberdade criativa absoluta, capaz de convencer uma pessoa pobre de que ela, naquele momento, é uma rainha, uma princesa, uma escrava, uma deusa, uma orixá do panteão de Órun, que divide com as entidades que vem de lá o Ayé, o nosso mundo físico, compreende o tamanho da expansão necessária para voar além do real para defender um panteão, uma bandeira, uma tradição.

Este documentário é sobre a construção dolorida, cansativa, extenuante desse momento.…


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“A Vizinha Perfeita” / “The Perfect Neighbor” (Netflix, 2025)


Perturbador. Nenhuma imagem tratada, nenhum retoque de roteiro. É aquilo mesmo: uma mulher paranoica, que se sente perseguida por nada. Que implica por tudo. Que inferniza, provoca, chama a polícia - e é das câmeras corporais dos policiais que surge a história desse homicídio, onde 4 crianças se tornam órfãs. De repente.

                        A trama é ancorada nas mentiras sucessivas que A VIZINHA PERFEITA usa para justificar gritos, ofensas, ligações para 911, agressões. Você “sente” a emoção escalando, o preconceito usado para ofender, o racismo presente. Você sente a situação fugindo ao controle, a polícia dizendo repetidas vezes que as queixas não vão evoluir para processos, nem prisões. Você vê a expressão dos olhos, o desprezo, a indiferença.

                        Ouvir o som do tiro – PÁ! – É consequência. Mas perceber a trama por trás do tiro faz com que a gente vá subindo ponto a ponto a nossa expectativa…

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“O Desafio de Marguerite” / “Le théorème de Marguerite” (Youtube, 2023)


Um filme como poucos. Um desafio. Afinal, ficamos diante do desafio de nos desafiarmos a nós mesmos, nos confrontarmos com o que acham que somos, enfrentando o que podemos fazer, mesmo quando somos postos de lado.

O ambiente acadêmico tem esses momentos. A crítica cruel, a dureza do olhar, o desejo de atravessar o pensamento genial, copiá-lo, vencê-lo, angariar para si mesmo a fama. Ou não: dividi-lo, compartilhá-lo, amar a companhia, a descoberta.

Quem afinal somos nós? Em O DESAFIO DE MARGUERITE todas as questões estão postas. Ella Rumpf está primorosa, perfeita. Tão soberba que o elenco passa por ela. Não que ele não esteja perfeito, mas porque ela é magnífica.

São tantas as perguntas postas sobre nós que ficamos chacoalhados com o que pode nos estimular mais, como podemos alcançar pessoas que saibam ser parceiras, como nos unir, como produzir saídas, quem podemos ser, ao acreditarmos que podemos ser.…


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“Ponto de Virada: Geração 11 de Setembro” / “Turning Point: Generation 9/11” (Netflix, 2026)


Eu acompanhei o 11 de setembro, passo a passo, desde a ideia de que tinha sido um acidente trágico, até a certeza de que tínhamos acompanhado pela TV, pela primeira vez, um atentado terrorista ao vivo. Dois prédios, quase 240 andares viraram pó, literalmente – "do pó viestes, ao pó retornarás". E depois da Bíblia, a vingança, a caça, a invasão do Afeganistão, a suposta salvação e depois a entrega da população do País a Al Qaeda – de salvadores de um povo, de guerreiros que acabaram com o grupo terrorista que devastou seu país, de defensores, de matadores de Osama Bin Laden, a soldados perdidos, nunca treinados a abandonar um povo que estava sendo trucidado frente aos seus olhos – também ao vivo, em todas as TVs do mundo.

Sim, este é o DOC PONTO DE VIRADA: A GERAÇÃO 11 DE SETEMBRO – com uma cena – a cena,…


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“Uma Mulher Diferente” / “Différente” (Netflix, 2025)


Repito e não me canso: adoro filmes baseados em fatos da vida real. Por muitos motivos. Mas creio que o principal é que olhamos muitas vezes a vida como se fosse um lugar onde coisas inusitadas acontecem com as pessoas que aparecem no Jornal Nacional, sem pensarmos que todos nós podemos ter o nosso dia de reportagem. Sem pensar que podemos nos reconhecer como portadores de algo que nos diferencie. E que isso deveria ser usual, mas não é. A enchente, o tsunami, o vulcão, o terremoto, o autismo, a Chikungunya - tudo acontece na TV.

A história de UMA MULHER DIFERENTE é exatamente essa: a pessoa se esforça para ter uma vida "dita" normal, até que a reportagem que estava montando lhe revela que aquele esforço - tantas vezes insuportável em busca dos vernizes e futilidades da nossa vida eram muito mais que sacrifícios - era autismo.

Ah, sim,…


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“Os Sabores do Palácio” / “Les saveurs du Palais” / “Haute Cuisine” (Youtube, 2012)


Está lá você na sua vida comum - cozinhando as comidas que gosta num pequeno comércio - quando, de repente, entra uma pessoa do governo e lhe diz que precisa participar de uma reunião com alguns chefes de departamento, políticos porque o Presidente Mitterrand não suporta mais a comida cheia de frescuras do Palácio e você tem a oportunidade de fazer a sua comida para ele e seus convidados. No Palácio Presidencial.

Muda uma vida? Sim, muda uma vida. Mais ainda por ter acontecido na vida real!

OS SABORES DO PALÁCIO te envolvem em venenos, invejas, disputas de poder, suspenses, de uma maneira inacreditável. E lhe apresentam um presidente que jogava fora desses esquemas, que tinha gostos simples e que adorava comer.

A pressão sobre Hortense Laborie - interpretada por Catherine Frost - foi tão grande que ela se demitiu depois de dois anos de desavenças e bem aventuranças, mas…


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Doc “Dra. Jane Goodall: Últimas Palavras” (Netflix, 2025)


Mesmo que você não saiba que sabe, que não relacione o nome à pessoa nesse DOC, se pensar qual  figura humana está totalmente relacionada aos chimpanzés, imaginará o rosto de uma mulher amorosamente dedicada – a Dra Jane Goodall – numa entrevista que foi gravada para só ser veiculada depois de sua morte – livre de quaisquer amarras sociais, portanto.

                  O que você diria, se soubesse com certeza absoluta que o que dissesse só seria ouvido após a sua morte? Que segredos - da sua compreensão da sociedade - revelaria? São 55 minutos onde ela coloca seus olhos sobre o mundo e fala sobre quem é, no passado – e as linhas do tempo se misturam, já que ela assume que realmente o que acredita ter visto em nós, só vai ser revelado no futuro – que para nós, os espectadores, é o presente.

                  Falamos então de filosofia…

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“Amelia Toledo - Lembrar de Não Esquecer” (Autoral Filmes, 2026)


A função de um Doc é informar, ao mesmo tempo em que encanta. Eu não conhecia a obra de Amelia Toledo, mas quando filme chegou ao fim, já me sentia em débito com a cultura e arte por não a conhecer.

Claro que uma pessoa tão diferenciada quanto ela teria que ter problemas com qualquer limite. Principalmente os impostos pela ditadura brasileira, que as pessoas continuam insistindo em chamar de revolução. O que aconteceu transcende qualquer compreensão do significado de revolucionar qualquer coisa, já que as tentou impedir, proibir, censurar, obrigar.

Seu trabalho, sua forma de ver o mundo, a forma como a direção do Doc conseguiu transpor para a lente o seu olhar, criou uma atmosfera muito particular com cores, texturas, materiais – e danças, sorrisos, percepções, reações. Todas elas diferenciadas e com personalidade marcante. Quantas pedras nos passaram pela frente dos olhos, hoje? Quantas vimos? Realmente? Amelia as…


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