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“Minha Querida Senhorita” / “Mi querida señorita” (Netflix, 2026)


Há um tipo de ignorante que olha para si mesmo e vê apenas “pedaços de carne indicativos de sexo” - como se não houvesse uma busca pela conquista da nossa identidade, como se bastasse esfregar uma vagina, um pênis na cara dos que duvidam para tudo se resolver.

Minha Querida Senhorita aborda a intersexualidade com precisão e sensibilidade extremas, expondo como, mesmo sem saber nada acerca de sua história, das cirurgias, dos motivos que a levaram a apenas saber que deveria tomar esse “comprimidinho” de hormônio, não lhe deu – como garantem os ignorantes – a ideia de que era mulher porque tinha uma vagina – que estava no corpo dela, mas jamais lhe poderia explicar quem era. Porque somos muito mais que do carnes torneadas.

Os espanhóis conseguem colocar em palavras, nomear e descrever problemas de uma maneira incrível. O roteiro mostra didaticamente as tentativas da mãe de fugir…

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“Olhe o Mar” / “Regarde” (Autoral Filmes, 2025)


Se existem poemas que podem ser apresentados sob forma de filme, certamente – certamente – Olhe o Mar é um deles. Sim, aborda o tema da perda de visão de um menino muito mais do que suave e delicioso; não, a abordagem não é pesada, cheia de médicos, internações e perdas. Apenas a perda entra na vida deles, assim como entra na vida de todos – ela invade, muda o destino e temos que lidar com ela da melhor maneira. E quem dera que todas as esquisitices dos pais fossem assim.

O trabalho ao redor da construção do roteiro do filme é incrível. Toda a cadeia de acontecimentos é perfeita e você já está envolvido pelo filme no minuto em que põe os olhos nele. Isso nos leva ao magistral trabalho dos atores, construindo um drama potente com “baldes e baldes” de comédia. Dificílimo.

Mas segure a ideia preconcebida de…


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“Quartos Vazios” / “All the Empty Rooms” (Netflix, 2025)


É um DOC de curta metragem. Portanto, você tem a dimensão do que ele tem a dizer em apenas 30 minutos. Tantos meninos ali com vida há 1 minuto atrás e, de repente... apenas não estão mais porque alguém atirou, porque o sistema comprometeu, porque a sociedade está cada vez mais egoísta, porque há psicopatas, porque quem atira foi manipulado, anestesiado em suas emoções... Quem sabe o que transforma uma pessoa comum, num atirador, afinal?

                               O fato é que dar esperança diante de pura desgraça cansou o repórter Steve Hartman. Ele se uniu então ao fotógrafo Lou Bopp e voltou à casa – especificamente aos quartos – dos meninos mortos. Não para criar mais um roteiro de falsa esperança e nenhuma atitude política na prática – mas para fazer e entregar um álbum fotográfico com pequenas memórias, detalhes, personalidades, lembranças. Álbuns que traduziram o que ele sentiu, pensou, abandonou…


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Doc “Tambor Sem Fronteiras” (@finishprodutora e @autoral_filmes, 2026)


Muito interessante e curioso assistir a um documentário como TAMBOR SEM FRONTEIRAS e ver a evolução do ritmo dos tambores, algo como um primo do nosso batuque nativo do samba, em outras regiões – principalmente para o sul. Primeiro, por rever as planícies super características dos Pampas Gaúchos, naquelas tomadas regidas por tambores e estradas, quando do deslocamento da equipe de filmagem de Bagé para o Uruguai. É uma sensação de imensidão. Depois, o reconhecimento de países fronteiriços com as mesmas dificuldades, dimensões e pobreza para inferir, realizar mentalmente, que o todo da América do Sul precisa se ver como um continente, um coletivo de pessoas. E depois por reconhecer o que a batida dos tambores gera por dentro em nós e a influência africana que habita o nosso sangue. Em qualquer parte onde ouvimos aquela batida semelhante – ainda que com toques diferentes – a sensação e pertencimento vem.…


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Peça de Teatro "Vermelho Melodrama" (Salvador, 2026)


Falar de melodrama, carta subtraída, não entregue, órfãos que escondem seus verdadeiros sentimentos, sublimações, ações inconfessáveis, emoções extravasadas, tudo isso picado e passado num liquidificador de luzes e músicas pode virar um espetáculo? Pode sim. VERMELHO MELODRAMA é exatamente isso – muitas vezes tão absurdo, que se torna incompreensível – mas com cenas que preenchem, remetem, recordam – no meu caso, recordam perdas sociais cada vez mais frequentes. Inclua aí a própria comunicação linguística, que não dá mais conta de expressar grande parte de nossos sentimentos, perdas e medos.

Destaco o trabalho de Vinicius Bustani – desde a voz falada, a articulação, as pausas, até a voz cantada e o sotaque português (o de Portugal) perfeito. Ele consegue criar e desconstruir a peça com muita inteligência. Muitos momentos vocalmente lindos, Diogo pleno, Lia Lordelo é uma voz cristalina e interpretação justa em cada cena.

Isso não quer dizer que a…


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“53 Sundays” / “53 domingos” (Netflix, 2026)

Quem gosta de filmes de ação de verbal? São mais difíceis de fazer – muito mais difíceis – embora que, sem a ação física evidente, a palavra seja a rainha do roteiro. Em 53 DOMINGOS, o elenco inteiro domina as palavras, o ritmo da comédia, a velocidade das frases, as interjeições, a prosódia, dando vida a uma história irônica e hilariante que, não à toa, nos coloca a todos dentro da história.

                   O filme recebeu as 5 premiações principais do Goya: melhor filme, direção, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e roteiro. Falar de interpretação e direção após isso, é praticamente desnecessário. O filme foi rodado quase que integralmente na ambiência de um apartamento, com 4 pessoas circulando em ambientes pequenos e diante de diálogos que transbordam ironia e cinismo. Prosódia. Tons de voz, olhares, detalhes verbais contornam cada palavra, de cada ator. Portanto, é impossível não cair em êxtase!


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“Reine Sobre Mim”/ “Reign Over Me” (Netflix, 2007)


De novo daquela série especial “antigo, mas imperdível”, REINE SOBRE MIM mostra o motivo pelo qual tanta gente viu graça em Adam Sandler: que ator... Como ele passou tanto tempo gastando seu talento naquelas comédias bobas americanas? Estar como protagonista de um drama que contorna tudo o que aconteceu em termos de sofrimento pessoal no 11 de setembro, sendo americano, sem descambar para nenhum outro lugar que não sejam emoções genuínas é muito difícil. E com um elenco estelar e roteiro milimétrico, Mike Binder fez isso.

                  A cada novo momento, o nonsense inicial para aquela “aparição incompreensível se deslocando de patinetes por Nova Iorque” vai fazendo seus contornos de sofrimento intendo, de fuga da realidade da dor. Ao mesmo tempo, Don Cheadle desenha uma personagem cada vez mais “padrão atual” – pouca comunicação, em meio às confusões de uma vida profissional onde se passa 8 horas olhando para dentro…


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Doc “Com Causa”( @autoral_filmes, 2025)


É bom podermos nos ver, cada um carregando sua gota de dedicação ao mundo. Belizário Franca e Pedro Nóbrega revivem dentro de nós algo bastante concreto como esperanças – de que o pantanal não pereça, de que as baleias nos salvem, que todas as crianças tenham direito de caminhar, sonhar e de pensar, que as tartaruguinhas que vemos na Linha Verde, aqui na Bahia, contem nossas histórias de sucesso a favor do meio ambiente e que ele – Krenak – seja o nosso educador, no Brasil.

                  O filme não é muito longo, mas traz pessoas muito marcantes, de discursos poderosos – a começar por Krenak. Mas muitos são tótens de estímulo, como Edu Lyra, Juliana Camargo, Muzoon Almellehan e Paul Watson. Ter o olhar de um animal como uma baleia pousado no seu e saber que ela, ferida, escolhe lhe poupar a vida porque percebe sua intenção de ajudá-la,…

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“Caso 137”/ “Dossier 137” (Autoral Filmes, 2025)


Que filme! Você é exposto ao pouco que virou o exercício de autoridade nas forças policiais, com “controladorias controladas” pelo corporativismo. Cada espectador reconhece que todos querem cartas marcadas, embora “queiram denunciar freneticamente” quando não se sentem partes daquele bolo.

                  Roteiro engenhoso, que parte dos protestos dos “coletes amarelos” franceses, que todo mundo viu na TV, com as respostas que ninguém no mundo precisou de TV pra aprender. A policia faz o que quer e depois diz que a culpa é de quem teve que encarar o tiro, a porrada e a bomba. Você fica enojado durante a exibição? Sim. Na vida real você se sente assim? Se não, talvez você faça parte de alguma panelinha de poder.

                  Direção incrível de Dominik Moll, que nos arremessa para questionamentos como o preço do poder ou a diferença entre energia e violência, num roteiro irritantemente perfeito de Gilles Marchand e…


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