Peça de Teatro "Vermelho Melodrama" (Salvador, 2026)

Falar de melodrama, carta subtraída, não entregue, órfãos que escondem seus verdadeiros sentimentos, sublimações, ações inconfessáveis, emoções extravasadas, tudo isso picado e passado num liquidificador de luzes e músicas pode virar um espetáculo? Pode sim. VERMELHO MELODRAMA é exatamente isso – muitas vezes tão absurdo, que se torna incompreensível – mas com cenas que preenchem, remetem, recordam – no meu caso, recordam perdas sociais cada vez mais frequentes. Inclua aí a própria comunicação linguística, que não dá mais conta de expressar grande parte de nossos sentimentos, perdas e medos.
Destaco o trabalho de Vinicius Bustani – desde a voz falada, a articulação, as pausas, até a voz cantada e o sotaque português (o de Portugal) perfeito. Ele consegue criar e desconstruir a peça com muita inteligência. Muitos momentos vocalmente lindos, Diogo pleno, Lia Lordelo é uma voz cristalina e interpretação justa em cada cena.
Isso não quer dizer que a peça não tenha um problema importante de expansão das vozes. Há momentos em que não consegui compreender uma única palavra e o trabalho em busca de desenvolvimento de um núcleo sonoro com os dois lados da plateia é importante e deve ser feito em alguma outra temporada. Afinal, é o que faz do teatro uma arte funcional até hoje. Da mesma forma – e não sei se aconteceu apenas comigo ou com toda a plateia – estávamos mal arrumados na arquibancada e isso gerou um mal estar adicional que muitas vezes roubou minha atenção.
De toda a forma, muitas vezes a busca de respostas diante de casos citados e soltos pelo ar, me deu a exata ideia do que vivemos atualmente nas redes. Estamos ocupando palcos esparsos, o tempo todo brigando pela possibilidade de existirmos e mostrarmos o que sentimos – muitas vezes sozinhos e sem colocar em palavras o nosso amor, a nossa discordância, a nossa busca. Escondemos muito mais que cartas, atualmente. Havia um elenco de 5 pessoas, as 5 solitárias e lutando pelo espaço de serem apenas felizes. Na peça, não deu. E isso cada vez me perturba mais.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
O nome diz tudo e a sinopse também. Uma trama repleta de situações de como o ser humano pode ser terrível, falso, manipulador, vaidoso, arrogante, insuportável, destruidor. Todos a todo o momento precisamos decidir se atravessamos a densidade da maldade ou a leveza da bondade.
Uma família, relações, vínculos, amizades e amores, onde se constroem confianças, amizades, amores e futuros livres e belos....ou, não, ou nada disso, ou exatamente o oposto. Escolhas, escolhas, escolhas.
A trama é interrompida, regularmente, por depoimentos pessoais dos próprios atores, ou por colocação de outros temas da vida, igualmente preocupantes e importantes de serem falados, expostos – quem sabe, melhorados e resolvidos. Percebemos que cada ator vai numa direção diferente, que juntando as 5 visões do mundo, enriquece a peça e nosso alerta.
Bons atores, experientes, mas onde Diogo Lopes Filho, permanece sempre intenso e sensacional e Vinicius Bustani se destaca – observá-lo, é uma aula de como ser ator. Estarei atenta a peças onde este ator estiver envolvido. Nível nacional e internacional.
Existem muitos detalhes originais muito bem conseguidos, como os fios vermelhos dos microfones, a utilização da maçã vermelha, a forma como as cenas se dividem, a marcação do tempo e do ritmo. Apenas a utilização da máscara, em alguns momentos, me retirou a possibilidade de assistir a uma das coisas mais mágicas do teatro – as expressões faciais dos atores. Isso tive pena, apesar da ideia ser interessante.
Permanece no público a necessidade de encontrar alguma forma de rir, de gargalhar, mesmo numa peça trágica, de drama profundo. Permanece um estranhamento em mim ao constatar isso. Parece-me também que isso leva, alguns atores, a trazerem momentos de “clown”, como que para corresponder aos desejos do público – para mim desnecessários e que parecem empobrecer toda a qualidade excepcional da peça. Eu estou na Bahia e isso é muito comum, talvez quem esteja errada sobre isso seja eu, talvez meu lado europeu estranhe. Mas penso existir um limite onde o humor, numa peça de drama, é interessante, ou prejudicial.
Se não viu nesta temporada, esteja atento que vai voltar.
Gratidão ao Teatro Gregório de Mattos, em nome do Bug Latino, pela gentileza dos ingressos.
Ana Santos, professora, jornalista
Sinopse: A trama narra a história de três órfãos envolvidos em segredos e amores proibidos. Explora paixões intensas, segredos e política brasileira, inspirada no ""crime do ketchup"" de 2011.
Escrita por Gildon Oliveira
Direção: Jorge Alencar
Elenco: Diogo Lopes Filho, Lia Lordelo, Neto Machado, Véu Pessoa e Vinicius Bustani
Produção: Dimenti Produções
Local: Teatro Gregório de Mattos (Praça Castro Alves, Salvador).
Temporada: 10 de abril a 10 de maio.
Horários: Sextas e sábados às 19h; domingos às 18h.
Considerado o melhor Espetáculo Adulto no Prêmio Braskem de Teatro 2019 (realizado em 2020)
Domingo é dia de sugestão cultural: uma exposição, um bailado, uma ópera, uma peça de teatro, um filme.
Sempre que possível indicamos filme ou documentário que pode ser visto por todos, na internet.
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