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Bug Outras Artes

Público·88 membros

Peça de Teatro "Vermelho Melodrama" (Salvador, 2026)



Falar de melodrama, carta subtraída, não entregue, órfãos que escondem seus verdadeiros sentimentos, sublimações, ações inconfessáveis, emoções extravasadas, tudo isso picado e passado num liquidificador de luzes e músicas pode virar um espetáculo? Pode sim. VERMELHO MELODRAMA é exatamente isso – muitas vezes tão absurdo, que se torna incompreensível – mas com cenas que preenchem, remetem, recordam – no meu caso, recordam perdas sociais cada vez mais frequentes. Inclua aí a própria comunicação linguística, que não dá mais conta de expressar grande parte de nossos sentimentos, perdas e medos.

Destaco o trabalho de Vinicius Bustani – desde a voz falada, a articulação, as pausas, até a voz cantada e o sotaque português (o de Portugal) perfeito. Ele consegue criar e desconstruir a peça com muita inteligência. Muitos momentos vocalmente lindos, Diogo pleno, Lia Lordelo é uma voz cristalina e interpretação justa em cada cena.

Isso não quer dizer que a peça não tenha um problema importante de expansão das vozes. Há momentos em que não consegui compreender uma única palavra e o trabalho em busca de desenvolvimento de um núcleo sonoro com os dois lados da plateia é importante e deve ser feito em alguma outra temporada. Afinal, é o que faz do teatro uma arte funcional até hoje. Da mesma forma – e não sei se aconteceu apenas comigo ou com toda a plateia – estávamos mal arrumados na arquibancada e isso gerou um mal estar adicional que muitas vezes roubou minha atenção.

De toda a forma, muitas vezes a busca de respostas diante de casos citados e soltos pelo ar, me deu a exata ideia do que vivemos atualmente nas redes. Estamos ocupando palcos esparsos, o tempo todo brigando pela possibilidade de existirmos e mostrarmos o que sentimos – muitas vezes sozinhos e sem colocar em palavras o nosso amor, a nossa discordância, a nossa busca. Escondemos muito mais que cartas, atualmente. Havia um elenco de 5 pessoas, as 5 solitárias e lutando pelo espaço de serem apenas felizes. Na peça, não deu. E isso cada vez me perturba mais.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

O nome diz tudo e a sinopse também. Uma trama repleta de situações de como o ser humano pode ser terrível, falso, manipulador, vaidoso, arrogante, insuportável, destruidor. Todos a todo o momento precisamos decidir se atravessamos a densidade da maldade ou a leveza da bondade.

Uma família, relações, vínculos, amizades e amores, onde se constroem confianças, amizades, amores e futuros livres e belos....ou, não, ou nada disso, ou exatamente o oposto. Escolhas, escolhas, escolhas.

A trama é interrompida, regularmente, por depoimentos pessoais dos próprios atores, ou por colocação de outros temas da vida, igualmente preocupantes e importantes de serem falados, expostos – quem sabe, melhorados e resolvidos. Percebemos que cada ator vai numa direção diferente, que juntando as 5 visões do mundo, enriquece a peça e nosso alerta.

Bons atores, experientes, mas onde Diogo Lopes Filho, permanece sempre intenso e sensacional e Vinicius Bustani se destaca – observá-lo, é uma aula de como ser ator. Estarei atenta a peças onde este ator estiver envolvido. Nível nacional e internacional.

Existem muitos detalhes originais muito bem conseguidos, como os fios vermelhos dos microfones, a utilização da maçã vermelha, a forma como as cenas se dividem, a marcação do tempo e do ritmo. Apenas a utilização da máscara, em alguns momentos, me retirou a possibilidade de assistir a uma das coisas mais mágicas do teatro – as expressões faciais dos atores. Isso tive pena, apesar da ideia ser interessante.

Permanece no público a necessidade de encontrar alguma forma de rir, de gargalhar, mesmo numa peça trágica, de drama profundo. Permanece um estranhamento em mim ao constatar isso. Parece-me também que isso leva, alguns atores, a trazerem momentos de “clown”, como que para corresponder aos desejos do público – para mim desnecessários e que parecem empobrecer toda a qualidade excepcional da peça. Eu estou na Bahia e isso é muito comum, talvez quem esteja errada sobre isso seja eu, talvez meu lado europeu estranhe. Mas penso existir um limite onde o humor, numa peça de drama, é interessante, ou prejudicial.

Se não viu nesta temporada, esteja atento que vai voltar.

Gratidão ao Teatro Gregório de Mattos, em nome do Bug Latino, pela gentileza dos ingressos.

Ana Santos, professora, jornalista

 

Sinopse: A trama narra a história de três órfãos envolvidos em segredos e amores proibidos. Explora paixões intensas, segredos e política brasileira, inspirada no ""crime do ketchup"" de 2011.

Escrita por Gildon Oliveira

Direção: Jorge Alencar

Elenco: Diogo Lopes Filho, Lia Lordelo, Neto Machado, Véu Pessoa e Vinicius Bustani

Produção: Dimenti Produções

Local: Teatro Gregório de Mattos (Praça Castro Alves, Salvador).

Temporada: 10 de abril a 10 de maio.

Horários: Sextas e sábados às 19h; domingos às 18h.

Considerado o melhor Espetáculo Adulto no Prêmio Braskem de Teatro 2019 (realizado em 2020)


Domingo é dia de sugestão cultural: uma exposição, um bailado, uma ópera, uma peça de teatro, um filme.


Sempre que possível indicamos filme ou documentário que pode ser visto por todos, na internet.


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