“Minha Querida Senhorita” / “Mi querida señorita” (Netflix, 2026)

Há um tipo de ignorante que olha para si mesmo e vê apenas “pedaços de carne indicativos de sexo” - como se não houvesse uma busca pela conquista da nossa identidade, como se bastasse esfregar uma vagina, um pênis na cara dos que duvidam para tudo se resolver.
Minha Querida Senhorita aborda a intersexualidade com precisão e sensibilidade extremas, expondo como, mesmo sem saber nada acerca de sua história, das cirurgias, dos motivos que a levaram a apenas saber que deveria tomar esse “comprimidinho” de hormônio, não lhe deu – como garantem os ignorantes – a ideia de que era mulher porque tinha uma vagina – que estava no corpo dela, mas jamais lhe poderia explicar quem era. Porque somos muito mais que do carnes torneadas.
Os espanhóis conseguem colocar em palavras, nomear e descrever problemas de uma maneira incrível. O roteiro mostra didaticamente as tentativas da mãe de fugir do assunto, a complexidade do tema, a falta de resposta, o sofrimento extremo, a busca da identidade.
A interpretação de Elisabeth Martinez nos leva a buscar com ela essa identidade que não é e nem jamais será dada por uma vagina entre as pernas – e a atriz esteve perfeita, nos mínimos detalhes da construção da personagem. Aliás, todo elenco é primoroso. Destaco, para além de Paco Leon e Anna Castillo, a Manu Rios – emocionante, direto.
Poderia me deter em cada personagem, mas prefiro indicar o filme. Convide talvez um ignorante – esse que fala em sexo biológico como se isso fizesse algum sentido. Sua família vai agradecer pela luz que Minha Querida Senhorita pode acender em cada emoção. Mas não permitam que o seu preconceito vença, vejam – é um grande filme.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Nossa, que filme!
Fala de tantos enredos complexos e tóxicos dos preconceitos, das ideias pré-concebidas, que aprendemos desde a infância – em casa, na escola, no trabalho, na vida social. E isso causa tantos problemas, mas tantos e provoca tanta dor, tanto trauma, que chega um momento que não se entende porque continuamos a fazer as mesmas coisas, mesmo sabendo dos efeitos terríveis.
Tive vários alunos, em mais de vinte anos de trabalho, que nasceram ou com os dois sexos ou em que nenhum dos sexos era “claro”. Perdoem a explicação empobrecida. Em ambos os casos, os pais, tiveram de decidir, ou quiseram decidir, ou os médicos decidiram, ou sei lá o que os adultos decidiram achando que faziam o melhor. Decisões, situações, que vão atravessar as vidas destas pessoas – que naquele momento eram pequenos bebés, mas que no futuro serão adultos e que esquecemos muito disto. Um detalhe, mas algo que é muito importante – decidimos por outras pessoas aquilo que não sabemos e que essas pessoas terão de lidar e viver. Como disse, tive vários casos, mas todos os casos que em privado era informado aos professores, eram em pessoas em que a alteração as “TRANSformava” em pessoas do gênero masculino. Nunca soube de nenhum caso inverso – em que a decisão era para gênero feminino. Isso me leva a pensar que esses casos eram mais escondidos ainda, mais sofridos ainda. Assistir a este filme me deixa ainda mais essa sensação.
Tentamos fazer o melhor pelos outros, principalmente se foram nossos filhos, mas talvez seja bom entender que estamos a decidir por outro ser humano, que apesar de ser nosso filho, não é “nosso”. Estamos longe de entender isto, penso, e a sensação é que estamos nos afastando ainda mais desse lugar de compreensão. E depois a errada ideia de que a religião e suas regras rígidas, resolve tudo. Por que será que então as pessoas não parecem felizes nesses lugares fechados e cheios de limites e parecem tão felizes em lugares onde podem finalmente ser quem sentem que são? Como bares gay, etc? Porque será que as famílias insistem em convencer os mais novos que elas é que sabem o que é certo e se não forem obedecidas, existirão castigos e punições? E depois, mesmo depois de tanta dor, por vezes quando estão morrendo, decidem finalmente aceitar as diferenças desses jovens filhos/as ou netos/as, mas aí já todos e todas sofreram tanto, perderam tanto tempo para serem felizes, que tudo fica muito embrulhado. Sem nenhuma necessidade.
Muito assunto a resolver.
Um filmão. Para chorar, para pensar, para melhorar.
Excelentes atrizes e atores, excelente roteiro, excelente direção.
Como eu teria gostado de ter um padre assim tão humano, por perto, quando eu era nova.
Não perca, pela sua saúde.
Ana Santos, professora, jornalista
Sinopse: Inspirado pela cantora e fugaz fenômeno da cultura pop Tamara. Acompanha Adela, uma jovem de uma família tradicional e conservadora, cuja vida muda drasticamente ao descobrir que é intersexo. Esse diagnóstico desencadeia uma profunda jornada de autodescoberta, identidade de gênero e ruptura com expectativas, levando-a a encontrar o amor nos lugares mais inesperados.
Direção: Fernando González Molina
Elenco: Elisabeth Martínez, Anna Castillo, Paco León
Trailer:
https://www.youtube.com/watch?v=nK0Q8m1l5jY
Informações:
https://www.imdb.com/pt/title/tt31116965/
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