“Sinfonia de Guerra” e “Antes velha do que vazia” Bug Sociedade
- portalbuglatino
- 25 de ago.
- 4 min de leitura

“Sinfonia de Guerra” Bug Sociedade
Há uma coisa meio patética nas guerras. Todos viviam em um lugar e, de repente, porque alguém vai viver em outro que, naquele momento, é um inimigo, vira inimigo. Não dá nenhum tiro, mas é inimigo. A sua antes dita admiração por aquele outro país, simplesmente vira defeito.
Na África isso virou um morticínio, na Iugoslávia, genocídio, na Palestina, uma covardia. Mortes por covardia são bem difíceis de aguentar. Principalmente porque a imprensa nos joga de um lado para o outro, mente, enquanto continuamos a assistir, anestesiados e enojados a massacres. Rússia e Ucrânia não parecem mais se importar com a morte das pessoas. Aliás: quem se importa com as pessoas, afinal? Põe-se a culpa na direita e na esquerda, mas afinal a culpa é nossa, que sabemos como funciona a vida, mas continuamos a desprezar a quem, no futuro, poderá ser a única mão que pode se levantar e nos consolar.
Aqui no Brasil, eu já vi pessoas subindo no caminhão do lixo e invadindo o caminhão de ossos, durante a pandemia; todos já se esqueceram. Até a justiça. Temos que ser inimigos para esquecer todos os que morreram aqui – muito mais do que os 700 mil contados. Ninguém foi processado. Ninguém foi preso. Nova eleição e não se fala desse assunto. A imprensa empurra Lulinha – quem é esse e como pode ser mais importante do que debatermos o nosso futuro? É uma guerra entre estúpidos. E no ponto de ônibus, lá estão os apresentadores do Jornal Nacional nos dando adeus. Adeus! Apenas nos deixem perceber onde está a verdadeira guerra, quem está nos ferindo de verdade, quem são nossos verdadeiros inimigos. Calem-se. Assim como os pastores e padres. Templos não são lugares para inventar novos profetas –
principalmente quando os mitos advêm da política.
Oremos por nós todos. Oremos para que nãos sejamos invadidos, roubados, vilipendiados, escorraçados, recolonizados.
Amém.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Antes velha do que vazia” Bug Sociedade
Já não é qualquer notícia que nos prende, que nos faz parar, seja lá o que estivermos a fazer, para lermos o título e exclamarmos: “Não é possível! Já viste isto?” Então, pela manhã, quando olhamos o Instagram, cada meio de comunicação, cada pessoa que vive de redes sociais, comunicação e marketing, coloca as notícias mais absurdas, graves, perigosas, horrorosas. Sabem que assim todos vão querer olhar. Notícias boas, nem pensar. Quem as quer ler? Notícias sobre boas pessoas? Mais aborrecido ainda! As notícias horrorosas é que dão visualizações, dinheiro, são boas para levar para as conversas entre colegas, no trabalho. Ou então, sobre futebol, o seu clube, sua seleção. Mas aí a briga inicia rápido. E se o chefe não é do seu clube não é mesmo boa ideia puxar esse assunto.
Pior do que tudo isso é puxar o assunto política. É rentável nas redes, nas TVs, nos jornais, principalmente quando são fake News. Mas no trabalho, na família, nos amigos, nos vizinhos, cada colega pensa de um jeito, ninguém sabe mais ouvir, desaprendeu de aceitar outras opiniões. Melhor ficar calado e se ficar muito silêncio, puxa-se a conversa sobre o clima ou aquela desgraça, num país bem longe, rezando para que nenhum dos colegas de trabalho estrangeiros, seja desse país ou tenha familiares ali.
Não se troca, nada. Fala-se de nada ou de desgraça alheia. Somos plantas secas ao sol. Não nos regamos, não nos preocupamos em melhorar nosso jeito, em fazer coisas que nos melhorem por dentro. Melhorar por dentro só mesmo dentes, aqueles que se compram por atacado – tipo a mandíbula inteira. Estamos tão estranhos tomando decisões tão estranhas.
Não lemos notícias longas, textos longos, nem ouvimos áudios longos. Queremos resumos, ou pelo título já entendemos o que se trata. É que não temos tempo! Não temos tempo para quê? Para ter tempo para não fazer nada...
Os rios têm cada vez mais sal. Os dados IA serão armazenados no espaço. Aconteceu a segunda olimpíada de robôs na China e os resultados melhoram exponencialmente. E de cada vez que os robôs melhoram, humanos perdem trabalhos. Dizem que tudo melhora, tudo fica mais rápido, mas para onde vão estas pessoas e como sobrevivem? Sempre que levo o saco do lixo encontro um novo mendigo. Como lhes dizer quanto lamento já que não chega sorrir e conversar ou até ajudar um pouco, mas ao mesmo tempo quanto é o meu medo de ir parar ao mesmo lugar e por isso me afasto?
Tenho saudades de um mundo antigo em que eu entendia as regras. Agora tenho a sensação que as regras mudaram muito e rápido sem nos prever, que a educação é algo secundário, que as pessoas já não olham de verdade, nem falam o que pensam. Dizem que estamos tentando melhorar, mas tenho tantas vezes a sensação que não.
O cinema me refresca a alma, quando encontro um filme sobre vidas que encontraram uma saída “do seu jeito” de ser feliz. Ou um poema ou um livro que me emociona. Ou uma canção. Ou uma música. Ou escrever. Ou, do jeito japonês, quando limpo a casa, cozinho, reorganizo algo, e até, quando encontro coragem para fazer pequenas reformas que julgava não ser capaz de fazer, mas que afinal sou. Me agarro a coisas que faço com as mãos e que me fazem sentir útil.
Porque nada disto à nossa volta parece útil para a vida real de cada um. Útil é um amigo que guarda uma entrega quando não estamos, recuperar a prateleira que ganhou bicho em vez de ouvir alguém te oferecer uma prateleira nova a bom preço. Estou velha, velha, velha. Nos costumes, nos pensares, nos viveres. Gosto de estar velha e assim quero permanecer.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Van Gogh
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