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Poesia para quem fomos

há 12 minutos
2 min de leitura


“À CRIANÇA QUE FUI”

 

“Nasci dançando la llorona nos braços de minha mãe.

Nasci sendo uma criança muxe’.

Nasci num jardim só de mulheres.

Nasci em setembro.

Nasci três anos antes de que Szymborska ganhasse o Nobel.

Nasci na noite que meu tio suicidou-se.

Nasci nos fios duma rede nua.

Nasci dum ventre que se abriu quatro vezes.

Nasci numa casa sem chão.

Nasci olhando um céu de veludo escuro.

Nasci abraçando uma boneca de pau.

Nasci com uma flor na cabeça.

Nasci com um vestido amarelo.

Nasci com um nome de cinco letras, e por cada letra tive um amante.

Nasci dum pai que odiava muxes.

Nasci duma mãe que nunca conheceu o medo.

Nasci duma avó e seus múltiplos homens.

Nasci pedindo que não me matem.

Nasci cheirando à guie’ xhuuba’ porque os muxes nascem cheirando a flor.

Nasci para dançar de salto alto e com um livro na cabeça.

Nasci pedindo que me lessem o mundo.

Nasci livre. O resto é poesia.”

Elvis Guerra

Muxe

 

 

“RELATO DE UMA MUXE’  E SUA MÃE”

 

“Minha mãe sabe que tenho um namorado

para cada fim de semana.

Sabe que nesta casa

tem reuniões de amantes anônimos

nas noites de sábado,

e que as vezes,

as sessões podem se prolongar

até o domingo de madrugada

numa cama bagunçada e de ponta cabeça.

Para ela Pedro não é Pedro

e sim um moleque que chega às oito

e vai embora às duas;

Irving, o magro moreno,

o mototaxista, filho de Tina Belabihui, 

gato mas sem juízo;

Ángel, o loiro cheio de tatuagens.

bonito,

educado,

que cumprimenta quando chega,

e sorri quando se vai,

que me chama de sogra

e que não fica vermelho se lhe digo genro,

dá para ver que ele gosta de você,

é o menos inútil,

se você morasse com ele... 

eu lhes faço de comer, 

eu lhes ajudo com a roupa...

...Mãe, Ángel tem esposa,

Ángel também é efêmero.

Minha mãe sabe que desde os onze anos

caminho de salto alto,

sabe que entre vingança e esquecimento,

prefiro uma pica salgada,

ela ensinou-me que aos homens

nem todo o amor

nem toda a poupança

e me disse que

para ser livre, tem que ser vadia

Minha mãe é o rosto

que desenho no guardanapo dum boteco,

ela sabe tudo sobre mim,

exceto, que sou ramonera.”

Elvis Guerra

Muxe


Imagem: Van Gogh


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