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“CANDIDATO A MALANDRO ASSUME PAPEL DE PAPAGAIO DE PIRATA” e “Para onde estamos nos dirigindo, humanidade?” Bug Sociedade

há 1 dia
6 min de leitura

“CANDIDATO A MALANDRO ASSUME PAPEL DE PAPAGAIO DE PIRATA” Bug Sociedade

Dois candidatos, frente a frente e na nossa frente. Um, mais velho, tinha a postura humana normal. Caminhava, se comportava, falava com nexo, inteligência e postura normais. O outro... até agora me pergunto o que era aquilo. Deveria ser uma pessoa, mas, ao contrário, ficava fazendo caras e bocas atrás do outro candidato a cada palavra dita.

Não era uma candidatura comum, como alguns podem pensar – algo como vereadores, por exemplo – ok, vai - mesmo sendo ridículo, vou encaixar os candidatos a prefeito aqui também – mas não era isso. Estávamos numa campanha para presidente da república. E eu nunca tinha visto nada igual na minha vida de professora de oratória e preparadora de comunicadores profissionais – incluindo políticos.

A equipe do que vou chamar de “Papagaio de Pirata” conhece suficientemente o significado do termo “fazer papel ridículo”? Ou de uma maneira popular – “pagar mico”?

O candidato mais velho falava de seus projetos de governo e era infalível – aparecia aquela “cara de panaca” gesticulando atrás, virando os olhinhos e acenando. Eu suponho, diante do absurdo da situação, que ele queria aparecer enquanto “malandro, esperto” – mas a cena era tão bizarra e insólita que ele apenas saiu da malandragem pra escorregar, rumo à “ridiculice”.

O candidato mais velho fez inúmeras perguntas, para as quais o tal “papagaio” não respondeu a quase nenhuma, pasmem... Estranho porque quem quer ser presidente precisa de uma proposta de trabalho sólida, um plano transformado em discurso – aliás, nem precisa ser candidato a nada importante; até um candidato a síndico tem que apresentar as obras que o prédio onde mora precisa, na reunião do condomínio. Ao invés disso, do óbvio e esperado projeto de governo, quis lacrar, esperava lacrar; mas causou mesmo aquela “vergonha alheia” em quem via as cenas pela TV.

Ele não falou nada sobre Vorcaro e os milhões inexplicados para um filme medíocre, descrito como obra-prima, a questão da sua relação com o roubo do INSS, o seu voto ser o único contra a licença-maternidade, no Rio e daí até as suas relações com o Escritório do Crime e medalhas de honra para seus amigos bandidos, além de emprego em seu gabinete para parentes de assassino; nada falou também sobre o governo Milei como escolha de modelo  a ser seguido, se eleito for, a destruição dos hospitais do Rio de Janeiro feita por seus coligados e o motivo pelo qual defende um policial assassino de uma criança de 5 anos.

Mas o que falou também foi uma confusão de proposições feitas pela metade. De onde vai sair o corte de 200 bilhões, na economia? Como o SUS vai ter seu crescimento e ampliação financiados? Aumentar 500 mil vagas em presídios resolve a questão da segurança pública? E como isso é problema da presidência, se ele mesmo não votou a PEC da segurança pública e atualmente quem trata disso são os estados?  Sobre todos no Brasil termos ouvido ele nos rifar para o Trump, falou que era fake News – incrível porque eu mesma ouvi o discurso dele nos Estados Unidos. Fora isso, mentiu quando falou que tinha ficado a favor do fim da escala 6x1 e que não tinha escritório com o Careca do INSS, mas... sabemos que as coisas não aconteceram assim. Prometeu um tal Ministério da Prosperidade, mas aquilo mais me pareceu uma coisa de coach de internet, do que propriamente uma ideia do poder executivo...

Resumindo: além de pular, fazer gestos, piscar os olhos e gesticular, não vi nada de concreto no que foi falado por ele. Oratória é uma matéria que se insiste em chamar de arte, mas que é feita através de trabalho e treino contínuos. Mídia trainning também não é aprender a mentir, mas sim controlar os nervos para manter a organização de pensamento afiada e responder à altura, aos adversários.

Mas e se o adversário não tem estatura nenhuma?

Minha última questão, está para os moderadores e organização do evento: invalidar mentiras através de buscas na internet é papel do jornalismo, normatizar postura dos candidatos (principalmente os mal educados) é função do moderadores de debate. Dizer apenas quais eram as buscas mais frequentes no Google não responde, não resolve e não determina a organização de nada. Portanto, não entendi os critérios.

Era quase impossível, diante do nonsense reinante, que o telespectador saísse satisfeito. A forma como a coisa evoluiu, muito mais me irritou do que respondeu.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Para onde estamos nos dirigindo, humanidade?” Bug Sociedade

Olho os animais e vejo neles a manutenção de comportamentos que os mantêm vivos, colaboradores, sobreviventes. Dentro das casa, as lagartixas pequeninas e amareladas, religiosamente, e diariamente, pelas 19h, saem do anonimato e vão em busca de comida – mosquitos, moscas, etc. Quando a maré baixa, todos os seres vivos que se alimentam nas praias, junto ao mar e às rochas, lá estão, se alimentando. Não vemos nenhum aumento de agressividade, nenhum aumento de egoísmo, nenhum aumento de inveja. Quem está sozinho faz suas coisas, quem está junto com outros seres, partilha os alimentos. E cada um segue a sua vida. Todos sabem que precisam de se alimentar, todos sabem que não são donos de nada e todos sabem que a partilha e a colaboração, são regras. Apenas isso – regras, para todos. Só assim é possível as condições permanecerem equilibradas para todos.

Eu não sei por que razão nós os seres humanos somos considerados mais inteligentes, mais capazes, melhores do que todos os outros seres. Nós somos maldosos sem causa nem razão e os outros seres não o são. Nós não colaboramos enquanto espécie e desenvolvemos um raciocínio estranho de que somos melhores do que os outros, de que se destruirmos os outros seremos melhores ainda, de que existem uns que não prestam e que nós fazemos sempre parte dos que prestam, de que quanto mais divididos estivermos melhor, de que a nossa família é perfeita, de que quem pensa diferente é alvo a abater, e mil outros raciocínios semelhantes.

Todos os outros seres vivos sabem que a Terra é de todos, mas nós desaprendemos essa regra. Só queremos o bem dos que gostamos, só queremos que ganhem, vençam, se deem bem na vida, os que concordam com a gente. Difamamos com extrema facilidade os que pensam diferente, não pensamos nem agimos enquanto espécie. Pensamos e somos treinados, em casa e na escola e trabalho, a fazer carreira. Ora isso significa pensar só em você e deixar os outros de lado. Como podemos pensar dessa forma quando somos um ser coletivo?

Depois a nobreza. Não sei se já viu um cachorro a pegar com sua boca num pedaço de comida oferecido pela sua dona. A delicadeza com que fazem isso é inigualável. Faz a gente sentir vergonha ao lamber o caroço da manga, ou ao comer o caju fruta.

No domingo, no debate entre os dois candidatos à presidência do Brasil, vimos a delicadeza da nobreza num homem com muita história e vimos também um lambão do lado. Uma criança de mais de 40 anos, sem saber se comportar. Não sabe falar, não sabe argumentar, introduz expressões de bullying a todo o momento, não tem planos nem propostas, não sabe o que fazer com seu corpo. Fica se colocando em posições para aparecer na TV, que chega a lembrar aquelas crianças que querem aparecer seja de que forma for. Só faltou se atirar para o chão. Foi treinado para saber onde colocar as mãos, mas não sabia o que fazer a elas. Um corpo desajeitado, umas mãos inquietas, uma cara de nada seguindo as instruções dadas atrás das câmeras. Parecia ter pilhas ou bateria e um controle remoto que lhe ia dando instruções. Não tinha nexo o seu discurso. Seu adversário perguntava “alhos” e ele respondia “bugalhos”. “Seria cômico de não fosse trágico”. Seria interessante saber quem lhe deu tamanhas instruções, quem o fez fazer aquela figura triste. E seria interessante perceber como alguém que deseja ser o presidente do Brasil aceita fazer aquela figura, aceita instruções de outras pessoas sem nem questionar o ridículo da situação, e considerar que está capaz de liderar um país com este tamanho, esta riqueza e esta complexidade. O presidente é o presidente de todos os brasileiros, de todos os moradores do Brasil e tem o dever de tratar todos bem e por igual. Realmente acham que aquela pessoa é capaz disso?

Olho o Gavião voando e pousando num coqueiro, junto da praia, e não posso deixar de reconhecer como é nobre nos seus gestos, nas suas decisões, na sua postura e no seu porte.

Saltar como uma criança no final de um debate, tentando mostrar algo que lhe disseram que seria bom. Alguém que quer ser presidente de um país de mais de 200 milhões. E um Gavião voando e vivendo como um Deus. Não diz uma palavra, não sabe de leis, e consegue ser mais nobre do que tantos seres humanos.

Para onde estamos nos dirigindo, humanidade?

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Almada Negreiros


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