2 Contos: “A “OVADA” JUDICIAL” e “Não adianta...não prestam mesmo!”

Conto “A “OVADA” JUDICIAL”
O vereador resolveu apelar. Conseguiu emplacar na Câmara de uma grande capital, o candidato a presidente mais odiado por todos os que viviam ali. Observou aquelas mentiras sórdidas de sempre: “cidadão, honra ao mérito, serviços prestados” e preparou o diploma, o discurso, a claque para apoiar sua entrada no prédio histórico e o terno – afinal o candidato podia ser “Mauricinho”, malcriado, malversado em todos os temas – era uma maneira do candidato ao governo que perdeu feio se vingar do povo – que não caía mais naquele “papo brabo”.
O povo não engoliu. Os teclados dos celulares pipocavam: “você viu que indecência, esse vereador ousado inventou? Vai dar o título de cidadão honorário pra aquela lacraia!”.
E assim nasceu o abaixo-assinado que – dizem – chegou aos 200 mil assinantes.
- Eu mesma assinei também – disse uma mulher, representando todos.
Alguém teve a ideia de entrar na justiça. Enquanto isso, todos combinavam as represálias com requintes de rebeldia:
- Lembra 2017, quando o João Dória tomou aquela “ovada” na cabeça? Vamos repetir a dose! Mas temos que caprichar porque esse cabra atual precisa receber pelo meio da cara pelo menos uns 3 ovos!
- No mínimo! E olhe que está calor! Ninguém vem de guarda-chuva pra proteger o cabra...
Antes disso tudo poder se concretizar, aquela ação na justiça, que aconteceu no início da história, teve resposta. Teve resultado. Teve sentença. E não é que deu certo? A justiça impediu o fulano de vir aqui receber o tal título de cidadão - pelo menos até o final da disputa eleitoral – disseram as palavras do juiz.
Rapaz, foi uma loucura geral! Nunca vi tantos cards com textos e fotos da notícia! Dedos nervosos, passando a mensagem! “VITÓRIA DO POVO!”.
Pra passar a régua, no instante seguinte veio a combinação do País inteiro: “E panelaço”. O cabra vai falar na TV. Bora deixar ele ouvir o que falam as ruas...
Cada um pegou sua panela velha – “pra não dar moral de estragar as mais novas” – e quando deu a hora e o cabra apareceu na telinha:
- Plem, plem, plem, plem, plem, plem, plem.... No nordeste, nordeste, sudeste, centro-oeste e se apertasse o ouvido ainda dava pra ouvir um plem plem até no sul! E foram estudantes, velhos, aposentados, doentes, médicos, professores, operários. Foi um “pegapacapá”, uma barulheira, em festa de democracia, com gritos, vaias, gargalhadas... era o povo falando, gente!
Mas ainda não tinha chegado o dia de gritar na rua “somos livres. Estamos livres. Escapamos da Loira Gulosa! A tal cafetina americana que quer nos carregar até as calçolas”... Ainda sofremos do mesmo perigo loiro. Mas isso é outra história que ainda não aconteceu e que quando acontecer, eu juro que conto o que vi “com esses olhos que a terra a de comer!”
Quem viver, verá!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Não adianta...não prestam mesmo!”
Ela via bem. Quando ia ao oftalmologista, ele dizia que estava tudo bem. Nada de óculos, nada de lentes. Perfeitos olhos. Durante toda a sua vida era invejada por todos. Como aquilo era possível? Aos 40 os olhos dão uma quebrada, aos 50 a quebrada é maior, aos 60, 70, 80 a coisa desce ladeira abaixo. Para todos. Como para ela não? A povoação um dia se juntou e se revoltou.
- Não pode ser... - Diziam todos, com vozes roucas de raiva e de sensação de injustiça.
- Não pode ser. Como tamanha injustiça quando todos nós vamos sofrendo os males naturais do desgaste, ao longo do tempo, da idade, da vida? Fale, diga alguma coisa... – exclamavam todos, fumegando de raiva.
Ela não entendia aquela raiva toda, mas tinha de dar alguma resposta, antes que lhe fizessem algum mal.
- Gente, calma! Eu compreendo que estejam achando que eu tenho mais sorte, mas não é bem assim. Meus olhos estão bem e eu agradeço por isso. Vossos olhos vão se degradando e eu lamento por isso. Mas eu não contribuo para os estragos nos vossos olhos, nem vocês se prejudicaram para eu ter olhos melhores. Apenas é assim.
- Lá vem ela com suas teorias. – fala o chefe do grupo.
- Não são teorias. É a realidade.
- O que sabe tu de realidade? Não tem filhos, não tem encargos, fugiu dos problemas. Quem você se acha?
- Não acho nada. Apenas vou decidindo o melhor em cada momento, o que é mais adequado para me manter viva. Não tenho obrigações de vos seguir, nem de vos obedecer, principalmente quando percebo que isso me adoeceria. E quando percebo que nada aí tem valor para mim.
- A esperta. Só falta dizer que é Lula.
- Sou pela justiça para todos. Sou pelo bem. Sou do lado de quem defende as minorias, de quem luta contra a fome – mas não com pedidos na Tv e sim com ações práticas. Quem só pensa em si não pertence à minha vida.
- Não tenha tanta certeza.
- Tenho sim. Quem não pensa nos outros e não atua colaborando, sendo justo para todos, não conta comigo mesmo. Cada vez mais. Olhem, vocês até me lembraram de uma frase bizarra que disse uma vez, ao cara mais pateta e mais mau carácter que conheci. Ouçam bem: quem não merece minha companhia, coloco “na beira do prato”. Talvez a visão, os olhos, a degradação do olhar, tem alguma coisa a ver com isso. Quem sabe? E agora me desculpem, mas hoje meu “prato ficou com muita coisa na beira e preciso de descartar”. Passem bem.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Almada Negreiros
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