2 Contos: “SUSPEITO DE MILICIANO É DESMASCARADO PELO POVO, NA TV” e “L de Democracia”

Conto “SUSPEITO DE MILICIANO É DESMASCARADO PELO POVO, NA TV”
A sirene era a marca do programa. A vinheta. O apresentador tentava mostrar a verdade da vida. Mas hoje foi demais. Ele começa:
- Em análise, o futuro do povo brasileiro.
- De um lado, lutando contra Big Techs, Governo americano, judiciário eleitoral brasileiro, juízes do Supremo (meio anestesiados, nas cordas, sem fazerem nada), algoritmo manipulado e ameaças dos seus compatriotas que, via lavagem cerebral, veem-no como inimigo, está o Marechal da Silva – pró democracia;
- De outro, candidato com vida suspeita, rodeado de péssimas companhias (para ser benigno), associado com milicianos, ladrões que desviaram bilhões do povo brasileiro, com irmão e pai condenados pela justiça, que entregou o povo e o país ao governo americano através de discursos vergonhosos, está Mr F;
Mr F invadiu a frente do palco fazendo bullying com os telespectadores. Olhos para da Silva, que lhe sustentou o olhar com firmeza. Mr F deu uns pulinhos, fez umas firulas. Da Silva encarando.
Cara ou coroa: Começa da Silva:
- Opa!
Ouve-se um som que vem se aproximando. O apresentador olha ao redor. O som de vozes aumentando. Mr F começa dando um chilique – ele é chiliquento desde jovem.
- Que balburdia é essa? É invasão! É um atentado!
A voz já se conseguia ouvir:
- Aqui é a voz da democracia! Abre o sigilo! Abre, abre o sigilo! Abre o sigilo!
Na Tv, confusão. Povo nas ruas. Mr F querendo fugir, mas exército de da Silva cerca o prédio.
- Pega ladrão!
Da Silva tinha atraído o povo das ruas, os estudantes, os operários, as mulheres, os LGBTs.
Mr F detinha os ignorantes.
O povo nas ruas denunciava crimes aos gritos: rachadinha! Desvio de dinheiro, sociedades secretas! 51 apartamentos comprados à vista, em dinheiro! Salário incompatível com bens, lucro de loja de chocolate maior do que toda a entrada de dinheiro! Amantes, viagens, aviões, casas, mansões!
Mr F se borrou. Não tinha mais palavras a dizer. Não tinha nem voz pra gritar nada. Para além de ter medo de da Silva, Mr F tinha medo do povo brasileiro, da democracia. O programa discutia temas dos quais ele não conseguia mais fugir. Balbuciava mentiras.
Coachs, pastores, políticos, caíram em ruidosa demandada. Mr F estava aterrorizado com a verdade. Quis fugir no meio do programa. Foi barrado. Não houve confronto com da Silva porque ele foi substituído por um exército – o povo brasileiro!
- Que loucura! Que épico! Que lenda! Que lugar o povo terá na história! O apresentador estava eufórico!
- Que se dane se eu for demitido da emissora! O grito do Povo é irresistível!
Os políticos foram fugindo de fininho da plateia, como ratos, ratinhos, camundonguinhos covardes que eram.
Após o programa, Mr F tentou fugir do País. Foi flagrado na garupa de uma moto e apeado por transeuntes que o pegaram pelas calças e o colocaram no camburão.
- Eu tenho prerrogativas!
E o povo ali...
A Polícia Federal finalmente chegou. Mr F era uma sombra da sua própria empáfia.
O apresentador pôs a matéria ao vivo: SUSPEITO DE MILICIANO É DESMASCARADO PELO POVO, NA TV!
- Corta!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “L de Democracia”
Ela estava boquiaberta! Foi dar uma olhada nas redes sociais e viu Flávio Bolsonaro dando uma conferência de imprensa, com imensa gente em sua volta – os supostos apoiadores e colaboradores. E não é que um deles, um dos que está na frente, é precisamente ACM Neto? Um homem que se candidatou para Governador da Bahia, perdeu, e agora apoia abertamente, abertamente repito, a extrema direita? Lá está aquele homem, aquele senhor, cumprindo suas obrigações – sabemos lá porque razão – mas o que mais se estranha é seu olhar. Parece um olhar de menino que está pagando alguma penitência, a sua cara é de quem sabe que tem de estar ali, mas não quer estar ali. O que faz um homem rico, de uma das famílias mais poderosas da Bahia, que não tem necessidade de se subjugar a nada nem ninguém, estar ali, com aquela cara de sofrimento ou castigo? Lhe fez lembrar quando os seus pais a obrigavam fazer algo que não queria e seu corpo estava no lugar exigido, mas os olhos olhavam para bem longe. Mas ela tinha 6 anos e era quando a mãe a obrigava a vestir roupas que ela detestava. Ali o que seria?
Estava boquiaberta também porque conhecia pessoas bem próximas dele, pessoas que falavam à boca cheia que não eram bolsonaristas, que se colocavam como gente de respeito e honra, lutando pela democracia do Brasil. Afinal, será que elas não sabiam que aquele lado não era democrata? Cada um com mais de 60 anos, ainda não sabia isso? Sério? Ou são só palavras, sem darem nenhuma importância ao que dizem, como dizem, para quem dizem, porque sua vida está resolvida, seu dinheiro na conta e seu emprego estão assegurados? Isso parece coragem, mas não é.
Bom, pensou, já chega de ficar de boca aberta, surpresa com os comportamentos de pessoas que esperava muito mais. Não pode fazer nada. Elas que escolheram ser assim, que são assim, que vão ser assim sempre. Mas ela pode escolher se afastar desse tipo de pessoa, pode escolher votar certo amanhã, dia 25 de outubro de 2026 e ajudar o Brasil a continuar a ser dirigido por pessoas humanas, que pensam nos que precisam de ajuda. Pode escolher ficar do lado dos que tratam bem as pessoas – é impressionante como os bolsonaristas - de extrema direita - são agressivos, mal educados, machistas, homofóbicos, misóginos. E como tem gente que vota em pessoas que só querem liderar para subjugar os outros, para os controlar e manipular. Sua boca já está querendo ficar aberta de espanto de novo, mas ela não deixa, não permite. Precisa ser mais uma mulher, mais uma pessoa, que faz o caminho bom para todos. E com fé e muita colaboração, domingo será um dia histórico para o Brasil e para o mundo, pensa ela. E ela ficará muito mais feliz por ter feito uma pequena parte. E mentalmente e fisicamente fez o L e sempre que encontra um ou uma amiga, faz de novo. Porque nunca pensou que a letra L fosse tão importante na sua vida e na vida do planeta Terra. L, L, L, L, L, L...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Almada Negreiros
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