2 Contos: “PEGO NO FLAGRA” e "O verdadeiro homem"
- portalbuglatino
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Conto “PEGO NO FLAGRA”
‘ A mãe olhava o celular sem prestar muita atenção, como todo mundo. Apenas passava as telas, fazia scrolling. Cachorrinhos, cenas engraçadas, bebês fofos. Até que a parte de cima de seu celular começou a sinalizar uma mensagem no WhatsApp – uma, duas, três vezes seguidas. Foi ver.
Era a irmã dela:
- Oi Nega! Que foi, que seu dedo ta assim “tão nervoso”?
- Irmã, eu tenho uma coisa pra te contar, mas é um caso complicado.
- Ih... Não enrola! Fala na cara.
- Na cara, ok. Vai doer hein? Teu filho criou um perfil falso numa rede da machosfera, daquela bem cheia de Red Pills e ta lá barbarizando as meninas.
- Não mesmo, o que é isso? Eu controlo as redes dele! Verifico todo santo dia! O menino não anda solto e nunca andou solto!
- Por isso mesmo que ele criou o perfil falso, mana. Pra você não saber. Companhias da internet, só pode ser...
- Pois eu vou pegar ele na porta da escola e é hoje!
Deu um passo e voltou.
- Não... Eu vou pegar esse moleque é de outro jeito... Nega, qual é mesmo o nome da rede que o sacana entrou?
- Discord.
- Bora que eu vou entrar lá também... Que nome ele usa?
E ela começou a segui-lo. Logo naquele dia ele puxou conversa, mandou nela, assediou, fez bullying. Ela deu bastante corda – só não tirou foto porque ficou com medo do menino reconhecer suas fotos com a idade dele. Ficou com medo da moda, do ano, de que reconhecesse seu interior. Ouviu barbaridades. “Mulher não tem talento pra decidir nada; mulher minha não perde tempo olhando pro lado, senão apanha; eu amo mulher, por isso tenho muitas; homem nasceu para ser provedor e mulher minha só cuida da casa; toda feminista é feia...
Ela, de repente, já com vontade de passar a mão no chinelo e acabar com a palhaçada do moleque, perguntou:
- Mas você tem quantos anos? É que a sua voz não parece com a de um cara que já trabalha...
O menino mentiu e nem gaguejou. Explicou que que atualmente se ganhava muita grana na internet sem ser velho, necessariamente.
- É que minha mãe jamais me deixaria sair com um homem maduro... – ela mentiu.
Marcaram. Na escola dele. Fim da aula de informática.
A mãe avisou a escola. E foi. Na hora exata. O menino estava todo arrumado, passeando ali pela entrada da sala.
A mãe escreveu no celular:
- Kd vc? To te procurando e nada...
Quando o moleque começou a responder, ela interrompeu a sala de aula. Reta e direta:
- Então você foi procurar antro machista pra se criar, não foi? – o moleque levou um susto - Escondido de mim, não foi?
O menino perdeu a cor. Era muito “macho”, online – mas ali, na frente da mãe, diante do flagrante, da cara dos colegas, dos amigos...
- Foi assim que eu te criei, menino? – pegou o adolescente pelo braço – você nunca reparou no esforço que uma mulher faz pra criar seu filho, não?
- Mãe...
- Aqui você não fala mais nada! Quem te disse que mulher não tem iniciativa pra mandar numa empresa? Que vergonha pra família você falando como um machista... pois você vai ver quem manda, meu filho...
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
- Quantas meninas, quantas filhas de outras mães você andou humilhando? E a educação que eu sei que te dei?
Virou para as meninas de sua sala de aula:
- Ele foi grosso com alguém daqui? Ele fez bullying com alguém daqui?
Silêncio. Os olhos dela percorreram os olhos de todas as meninas. Uma delas, baixou a vista, envergonhada. A mãe se aproximou:
- Foi com você que ele se meteu, não foi?
Com um braço abraçou a menina e com o outro puxou o filho.
- Peça desculpas agora! Não há dinheiro nessa vida que desculpe um homem por ser covarde. Amanhã vai bater em mulher? Amanhã vai matar mulher, hein garoto?
A sala inteira aplaudiu, até os meninos. A lição havia sido aprendida. Os Red Pills morreram ali naquela escola e uma cultura antimachista nasceu. Naquele dia. Com aquela mãe...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto "O verdadeiro homem"
Tenho dificuldade em definir este ser humano. Passou uma vida inteira a aprender que um homem deve gostar de mulheres, pode namorar com várias mulheres, mesmo estando casado, mas ao mesmo tempo é muito educado e justo. Tem vários filhos. Parece desejar que pelo menos um deles o acompanhe nas suas paixões - as mesmas do seu pai, do seu avô e outros antepassados homens - caça, pesca, carpintaria, produção vinícola, aves, botânica, etc. Não fica à espera que de nada mas de alguma forma sente-se que é um desejo, ter pelo menos alguém que siga suas paixões. E, talvez tenha partido sem saber que isso aconteceu. Ou sempre soube que isso até já existia porque alguns gestos que teve na vida foram muito surpreendentes. Fique olhando enquanto eu conto um deles.
Não lidava bem com a homossexualidade. Era coisa que nem gostava de falar e quando falava era pejorativamente, como por exemplo quando assistia a filmes ou reportagens sobre o assunto. Tudo aprendido sem a mínima noção de quanto podia magoar alguém com aqueles comentários, difícil de escutar para quem era, precisamente. homossexual. Para piorar, alguém um dia lhe contou que alguém próximo era homossexual, alguém que ele gostava muito, que admirava, com quem se dava bastante bem. Isso provocou um enorme reboliço. Enorme reboliço. Durante muito tempo, nem conseguia olhar nos olhos dessa pessoa. Durante muito tempo existiu um muro difícil e intransponível entre os dois. Se tentarmos imaginar o que iria na sua cabeça talvez a gente vá para coisas do tipo - "será que também sou gay já que gostava tanto de estar com este cara? será que ele afinal só quer transar comigo e me enganou este tempo todo? como eu convivi tantos anos com esta pessoa sem nem imaginar?" Talvez a gente tenha acertado em uma ou duas, quem sabe? Mas podemos imaginar um pouco da luta que existiu durante anos, décadas, na sua mente. Não deve ter sido fácil. Umas vezes parecia piorar, outras parecia melhorar. Era um vai e vem de sensações e lutas interiores. Por vezes quase que dava para sentir tudo aquilo dentro dele a borbulhar. Nuns dias, raros dias, esquecia tudo isso e tratava o amigo como sempre tratou. Passavam dias e tardes juntos falando de tudo e de nada,e o amigo via no seu olhar a calma e serenidade que tinham anteriormente. Nesses momentos parecia feliz, quase como a dizer-se que se tirasse "essa parte" que não entendia bem, mas também não queria entender, estava tudo bem. E por que não podia estar tudo bem? Afinal ele não tinha nada a ver com isso e o amigo era impecável com ele. Esses raros dias foram se tornando mais frequentes, mas não esqueçamos que os "outros dias" vinham quando menos se esperava.
Um homem pode passar a vida sem conseguir dar passos importantes. Mas tem alguns que conseguem dar vários e difíceis. Não difíceis para o mundo, mas muito difíceis para si, para o seu jeito aprendido e "fechado". Pois este homem lá no meio da sua luta interior um dia deu um enorme passo para a humanidade. Não foi um passo na |Lua, mas teve a mesma importância para ele e para o amigo.
Todos os anos, na manhã do dia de Páscoa, os homens da comunidade juntavam-se para falar. Era um dia extremamente importante para a comunidade, onde se tomavam decisões importantes e onde a presença de cada um era aceite por razões familiares, financeiras e ou de enorme respeito e consideração. Muitos homens caminharam uma vida inteira em busca de autorização para fazer parte dessa reunião e nunca a tiveram. Outros, por família e riqueza, conseguiam a autorização automática. Homossexuais assumidos, nunca entraram ali e pelo que todos falavam, nunca entrariam. Bom,na tarde de pesca que faziam todas as sextas feiras santas, o homem, do nada, olhando o céu, disse em voz alta:
- Domingo vou buscar você às 6h. Temos de chegar cedo à reunião porque existem inúmeros assuntos para resolver.
O amigo ouviu aquelas palavras, continuou olhando a cana de pesca, a água, sem saber o que dizer.
- Domingo?
- Sim.
- Este Domingo?
- Sim. Não esqueça. Não nos podemos atrasar.
Não se falou mais nisso e pouco mais se falou naquela tarde.
O amigo foi para casa sem acreditar no que ouviu. De sábado para domingo quase nem dormiu. 5h30 já estava na porta aguardando. Fizeram a caminhada em silêncio. Quando estavam se aproximando o homem falou:
- Fique sempre junto de mim, não converse com ninguém, concentre-se no que vamos fazer, ok? Eu vou lhe dando instruções. Vai tudo correr bem.
Assim foi. Quando chegaram o homem cumprimentou todos de longe, não falou nada do amigo, todos olharam e apesar de seus olhos parecerem ter muita discórdia, nenhum deu um pio. O homem escolheu duas cadeiras, chamou o amigo para sentar junto dele e pediu para iniciarem a reunião. Passado aquele momento inicial, todos se dedicaram aos assuntos e resolveram imensos problemas. O homem pediu em voz baixa a opinião do amigo sobre cada assunto e aceitou várias indicações dele. Todos perceberam e até foram gostando da sua contribuição. A reunião terminou rápido, todos ficaram felizes com o resultado e na despedida fizeram questão de vir cumprimentar com um forte aperto de mão o homem e o amigo do homem.
E assim, a partir desse dia, homem e seu amigo passaram a ir juntos para a reunião anual. Nunca falaram no assunto mas esse gesto selou de novo a sua amizade, disse muito sobre o que sentiam um pelo outro e disse muito sobre a luta interior de um homem em direção à sua dignidade e humanidade.
Ana Santos, professora, jornalista
Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.
Imagem: Olesya and Andriy Voznicki
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