“O MAL ESTAR DA FALTA DE COMUNICAÇÃO E OS RED PILLS” e "O que fazemos com o que temos" Bug Sociedade
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“O MAL ESTAR DA FALTA DE COMUNICAÇÃO E OS RED PILLS” Bug Sociedade
O último DOC de Louis Theroux atirou no que viu, mas também acertou no que não se supunha – o baixíssimo nível linguístico dessa nova geração Red Pill, que se cerca de comentários grosseiros e afrontosos para abrir um lastro de pessoas medrosas de os enfrentarem; que assedia e coage mulheres a serem o que eles descrevem que querem porque “a falsa noção de superioridade vende” - num contexto onde os homens ainda não perceberam que corromper seu espírito gera uma enorme insegurança existencial, que vai persegui-los onde quer que estejam.
Primeiro que, em algum momento, os pais acreditaram que poderiam dar aos filhos felicidade eterna, ao satisfazerem todos os seus desejos – o que, claro – não deu certo. Ao contrário: ao investirem em dar felicidade, deixaram de educar para resolver problemas – o que criou uma geração difícil, sem iniciativa, pouco comunicativa, que não sabe interpretar coisas, pessoas, fisionomias, situações e textos. Segundo que os meninos – em nome do machismo – precisam aprender a resolver “tudo de qualquer jeito, nem que seja no tapa” – ao invés de serem treinados para negociar as melhores soluções para todos. Por isso deixam muita coisa à descoberto - por estarem mais preocupados em vencer ou perder. Num momento tão complexo como este - do mundo - estar frustrado por não ter oportunidades; muitas vezes passar por dificuldades, sem ver que o X da questão não somos nós, do gênero feminino, mas sim o mundo, a economia, a forma como as fábricas foram mudando de lugar, com a globalização.
Mas não. Tudo isso foi sendo simplificado a apenas “mulheres querem homens vencedores e aqueles que não são fortes, bonitos, malhados e ricos, são desprezados”. Ou seja: mulheres podem ser compradas. Ou seja: Homens precisam prover a casa e ao fazerem isso, alcançam a possibilidade de escolher se querem ou não ser fieis. Ou seja: de uma maneira bem objetal, o homem vende jogos e investimentos por um percentual – não importa qual. Mas, ao se vender, você se perde eticamente porque percebe que vale apenas o dinheiro que foi capaz de ganhar – sem qualidades ou princípios humanos. Ou seja: os homens estão abertos à prostituição do próprio caráter, se puderem impor isso às pessoas – seja através de mensagens agressivas contra todas as campanhas que fazemos falando do machismo, seja através de proibições às mulheres sobre com quem e o que falar diante de situações sociais. Ter o controle da fala requer então seguranças, crimes, preconceito. E de uma maneira inexplicável, já que é inconcebível de se assistir, um homem gritando contra mulheres, judeus, gays numa live – tudo ao mesmo tempo e só pra se auto afirmar.
O mal estar da comunicação começa com o fato absurdo de que dizer que não sabe uma coisa, te inferioriza diante de quem ouve sua pergunta. Desde quando não saber inferioriza alguém? Desde quando ter dinheiro coloca alguém numa posição de maior conhecimento que os outros? Há apenas uma espécie de “suposto saber”: sendo-se rico, a discussão resume-se a “alguém mandando, indicando padrões e os “seguidores, seguindo”, cegos. Como chegamos ao “não pensamento objetivo”, ao não exercício cognitivo, não sei – o fato é que chegamos. A pouca capacidade de frustração dos homens nos leva ao absurdo de se poder levar uma garrafada por não querer “ficar” com um homem; de morrer, de ser dopada, violentada, agredida porque os homens não podem “perder”. É uma espécie de selvageria absurdamente aceita nas redes. Onde estão os pais? Onde estão todos? Em algum lugar onde não querem saber, mesmo tendo meninas como filhas, mesmo sabendo que há coisas que não se pode fingir que não vê. O machismo estrutural – com certeza – é uma dessas coisas, acreditem.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
"O que fazemos com o que temos" Bug Sociedade
Aprendemos muito com as vidas de cada um: com a nossa, a de pessoas próximas, pessoas famosas que admiramos. Nenhuma é fácil, nenhuma é um mar de rosas, nenhuma pode ser copiada. Mas em cada uma percebemos a importância de alguns movimentos, de alguns posicionamentos, comportamentos - as tais decisões que por vezes falo - que transformam o caminho por completo, seja para pior ou para melhor.
Um dos mais respeitados psicólogos do esporte, Bill Beswick, nos coloca perante uma decisão diária muito instigante. Todos os dias quando acordamos, Bill diz que devemos tomar a decisão que muda tudo - "Hoje vou ser vítima ou lutadora?" Interessante não é? Todos temos acontecimentos suficientes para decidirmos nos comportar como vítimas, justificadamente. E muitos o fazemos, em fases ou pela vida toda. Mas, e se, apesar de termos todos os direitos para agirmos como vítimas, decidirmos ser lutadoras? Tudo, tudo, tudo, muda - nós em primeiro lugar. Teremos muitas pessoas - amigos, conhecidos, familiares, colegas de trabalho - estranhando, apontando o caminho habitual como que nos indicando que devemos recuar, gente assistindo aguardando o primeiro embate, etc. Mas, mesmo sabendo que todos o fazem considerando que estão nos ajudando, decidir ser lutadora e permanecer tomando essa decisão, todas as manhãs da nossa vida, serve muitas vezes de incentivo a outros e outras de fazer o mesmo. Como se diz, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Cada um/a segue o seu caminho, de lutador/a e quem sabe outros/as seguem o exemplo. O seu caminho é seu. Escolher o caminho da vítima parece tão normal, justo e dentro das normas, mas nos deixa parados no tempo, com os pés virados para o passado - como uma amiga me falou um dia. Escolher o caminho da lutadora significa olhar em frente, sair da lama, agir, resolver, criar um novo caminho, experimentar, fazer o que se pode com o que se tem, fazer diferente. Ficar para a história.
Quer ser rico/a ou uma celebridade? Ou quer ser a melhor pessoa/atleta/profissional que você pode ser? É uma escolha. Não dá para ser as duas.
Quando luta por algo, encontra sua vontade pensando em ser mais do que os outros? Por exemplo, quer ser o melhor empresário da Bahia porque quer mostrar aos seus inimigos que é melhor do que eles? Não é um bom caminho, esse. Não é saudável, nem para você nem para ninguém. Desenvolver-se com base em sentimentos de inveja, raiva, ira, ganância, etc, não ajuda. Em algum lugar do caminho o "motor" vai avariar porque está gastando o combustível errado. Como se seu "carro" funcionasse a gasóleo e você tivesse colocado gasolina comum. Entende? Escolha ser lutadora, mas escolha também o combustível natural - o desejo de ser melhor, o desejo de ajudar a humanidade, o desejo de ajudar os outros, o desejo de fazer o bem, o desejo de ser você.
Ilia Malinin, tricampeão mundial de patinagem/patinação artística, criou um caminho original, mesmo numa modalidade esportiva repleta de históricos patinadores, porque segue seu caminho, seus motores, seu combustível.
Mimi Caruso, em 2024, era uma menina de 17 anos, nascida no Mali e adotada aos 8 meses por um casal italiano. Sua mãe adotiva é pianista. Nesse ano, Mimi venceu o X-Factor da Itália. Um talento, um dom, uma luz. Nos Jogos Paralímpicos de Inverno, Milão-Cortina, Itália, 2026, cantou o Hino italiano na cerimônia de abertura - e que momento...
O vizinho que tem inúmeros problemas mas que sempre te recebe com um sorriso, que sempre procura a melhor solução para todos, todos temos. Todos conhecemos pessoas que não estariam a fazer o que estão se tivessem escolhido o caminho da vítima. Mas também todos conhecemos muitas mais pessoas que escolhem o caminho da vítima ou da vingança, que descobrem o mal em tudo, que desconfiam de todos, que se movem por brigas, discórdia, processos na justiça.
Como diz Bill Beswick, é uma escolha que se faz diariamente, ao acordar. Com essa escolha vem também a coragem de cruzar a linha confortável da vida, a ousadia de ir ao encontro do desconhecido. A coisa mais fácil da vida é ficar no conforto, mas também é um lugar onde nada se alcança.
Nossos antepassados, nossos ídolos, os históricos do mundo, atravessaram suas linhas, fizeram coisas incríveis em tempos difíceis. Este é o nosso tempo, o momento de o fazermos também.
O que diria Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, de tudo o que tem feito Trump, Bolsonaro, Netanyahu, Putin, Milei? Dos tempos que vivemos?
Por onde andam os Mandela, Gandhi, King, de hoje? Quando decidem em cada uma de suas manhãs, não a vitimização e o mimo, mas enfrentar as adversidades?
Todos somos luz, dom, talento, a todos é dada uma vida para os desenvolver. Mesmo nas adversidades, apesar das adversidades, precisamente por causa das adversidades. Nem que seja por uma fase da sua vida, nem que seja por um ano, nem que seja por um mês, nem que seja por uma semana, nem que seja por um dia, nem que seja por uma hora, nem que seja por um minuto, nem que seja por um segundo. Atravesse a linha do conforto e enfrente a adversidade, em direção ao desconhecido, por razões saudáveis, boas, por si, pelos outros, por todos. Encontramo-nos lá.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Marino Marini
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