2 Contos: “MULHER É ALGO QUE SAI DE DENTRO” e “Confiança”
- portalbuglatino
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Conto “MULHER É ALGO QUE SAI DE DENTRO”
Foram muitas emoções em poucos dias. Perdi alguém que imaginava mais amigo do que era -alguém que, deliberadamente, falseia, meneia a verdade para ganhar um tempo sem fim, algo infinito, dentro da ideia estelionatária de quem se supõe perfeito em sua engenhosidade. Mas meu coração primeiro cai com a perda da pessoa e depois cai ainda mais com a queda da imagem, do respeito. Vão-se os anéis, ficam os dedos...
Aos gritos, vi uma mulher exultante, gritando:
- Humilhante é um homem que raspou o cu na internet, ser eleito deputado federal.
Vi outra deputada trans, exausta, jogada no chão de um dos corredores do Congresso, depois de horas de discussões, com aquela cara de “vencemos”.
Esse grito que sai das entranhas, essa força que apela para uma natureza pura, mas explosivamente selvagem, aquela que lidera as passeatas da tribuna e cai de exaustão, que nome tem? Isso tudo que vimos, esse furacão, pode caber em uma vagina, como uma cadela, uma vaca, uma égua ou falamos de algo muito mais espiritual que a biologia?
Nós somos esse grito desesperado e desvelado, capaz de ações jamais compreensíveis pelos homens, nas horas em que defender com unhas e dentes é algo que nos sai das entranhas e que homens – pobres homens – jamais serão capazes sequer de imaginar.
Mulher não é vagina. Não é ovário. Não é trompa. É disso que eles sentem medo há séculos. E nos queimam vivas, nos calam, escravizam porque querem o nosso poder de estar acima dos medos, mesmo no auge do pânico.
Somos mulheres. Essa honestidade de ser mulher e não apenas ter uma vagina, é esse ser. É tentar perdoar um homem incoerente a uma amizade, por amizade.
A explosão divina que grita, vocifera e coloca sua excelência o deputado Raspa Cu, em seu lugar histriônico, patético, ridículo (ninguém imaginou a cena, antes de votar nesse cara?).
Somos todas mulheres. Porque mulher é uma coisa que sai de dentro.
E nas palavras de Clarice: Se a Idade Média voltar, eu sou do time das Bruxas!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Confiança”
As pessoas são mistérios da vida. Magníficos mistérios ou desastrosos mistérios.
Umas surgem do nada, nos salvam apenas com um passo, um abraço, um sorriso, um agrado. Ou apenas com sua competência, sua função.
Outras, depois de anos ou de décadas, ou depois de morrerem, nos esmagam. Ou esmagam nossa confiança nelas. Ou esmagam quem somos e o quanto acreditamos na humanidade.
As que surgem para nos salvar nem percebem que o fazem, porque apenas sentem que estão fazendo o que deve ser feito. As que deviam fazer o deve ser feito, e não o fazem, talvez nem percebam como são esmagadoras na sua traição, na sua insensatez. Dessas, umas continuam rondando nossas vidas, outras simplesmente morrem e nos deixam a miséria toda espalhada bem na nossa frente.
Meu vizinho era um cara legal. Muito legal. Fizemos um negócio juntos. Ele me comprou minha casa, enquanto eu, com o dinheiro que ele me dava em prestações, comprava a casa do lado. Amigos e vizinhos. Tudo tranquilo, tudo justo, tudo muito honesto. Nos falávamos diariamente. Ele e sua família vinham muito a minha casa. E eu ia à dele também. Jantares de sábado de noite eram frequentes entre as nossas duas famílias. Comida, bebida e cartas. As 3 paixões das nossas famílias. Mais o nosso gosto por música. Tudo parecia perfeito, tudo era perfeito. Ele terminou de me comprar a casa e eu terminei de comprar a outra casa. Vizinhos efetivos.
Nossos trabalhos mudaram e passamos a nos ver menos. Algo normal porque andávamos tão cansados, tão atarefados em sustentar nossas famílias, com nossos filhos crescendo - e com esse crescimento, crescendo as despesas.
Um dia, recebi um telefonema no trabalho. Meu vizinho e amigo tinha tido um acidente de carro. Foi grave o acidente. Faleceu. Nossa! Fiquei em choque! Com filhas adolescentes, um cara ainda jovem, bom homem.
Como a vida nos tira daqui assim sem nem ver que nos impede de terminar o que estamos fazendo? Fiquei muito preocupado com ele e sua família. No final do trabalho, fui direto a sua casa. Queria estar com a sua família, me colocar à disposição.
Não vi luzes, nem barulho. Nada de carros na garagem. Liguei para o celular da mulher. Não atendeu. Deixei mensagens, áudios, tentei fazer ligações. Nada. Nem as filhas atendiam.
Uma vizinha falou que fecharam a casa, fecharam o negócio do marido e foram para o sul do país, para casa dos sogros. Achei estranho. Pelos vistos o funeral seria na terra dos pais dele. Compreensível.
A vida seguiu seu rumo, minhas tarefas continuavam a surgir sem parar. Um dia estava chegando em casa e o carteiro estava tocando no sino da casa do meu vizinho falecido. Eu fui ajudar.
- Oi amigo. Desculpe me intrometer, mas não está mais ninguém nessa casa. O senhor faleceu e a família partiu para o sul do país.
- Tenho aqui bastante correio para eles. O que faço agora?
- Pode deixar comigo. Sou vizinho e também amigo deles. Eu guardo até a família voltar.
- Muito bem então. Aqui está a correspondência.
Peguei num volume grande de envelopes, agradeci e entrei em casa. Coloquei os envelopes numa gaveta na entrada de casa. Quando abri a gaveta, que costumava estar vazia, percebi que já tinha envelopes. Bastantes. Minha mulher e a empregada devem ter feito a mesma coisa que eu. Aceitaram guardar o correio deles. Achei legal.
Entrei em casa e fui tomar meu banho antes de jantar. Banho tomado, roupa lavada, jantando junto com minha família, comendo uma comida feita por minha esposa. Não existe melhor do que isto na vida! A televisão estava ligada no canal de notícias, apesar de não me apetecer ouvir coisas tristes e desgraças. O mundo está tão confuso e cheio de gente que evito escutar notícias ao mesmo tempo que janto. Estava pensando nisto e ouço o nome do meu vizinho nas notícias. Tento ouvir a notícia completa. Ouço que ele morreu e ao morrer se descobriu que ele fazia só coisa errada. Que a família estava fugida da justiça para não pagar as dívidas, nem ser acusada por tudo que de errado ele fez. Parece que estavam investigando sua morte porque existia uma suspeita de que talvez fosse um acidente “construído” para ele se “dar como morto” e poder fugir para outro país e evitar ser preso e ter de pagar por toda a “borradas” que provocou na vida de imensas famílias e empresas. Cometeu crimes contra pessoas e empresas do país inteiro, durante anos, durante décadas. Como eu nunca dei conta? Como eu nunca suspeitei? Seria possível?
Levantei da mesa e fui olhar as correspondências que estavam na gaveta. Para meu espanto, tinha correspondência no meu nome. Com cheques meus assinados com minha assinatura. Como assim se eu não assinei nada daquilo?
Meu coração começou a bater forte, comecei a sentir falta de ar. Desmaiei.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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