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“ASSIM TAMBÉM É POLARIZAÇÃO DEMAIS PRO MEU GOSTO” e “Dar valor ao que tem valor” Bug Sociedade

“ASSIM TAMBÉM É POLARIZAÇÃO DEMAIS PRO MEU GOSTO” Bug Sociedade

                  Na polarização, tudo é motivo de arranca rabo federal, estadual e municipal - uma coisa entre o meio feia e o meio ridícula, se não fosse absurda e bizarra, já que envolve homens (prioritariamente) que ganham uma fortuna para gerirem e escreverem as leis do Brasil – as nossas leis – enquanto fazem coisas “inconfessáveis no escondidinho dos aeroportos chiques” – aqueles das aeronaves “multirricas” que passam “suas bagagens secretas” ao lado do raio X para fugirem da fiscalização alfandegária, por exemplo.

                  O problema de comunicação que vivemos no mundo - particularmente no Brasil – existe e é posto para nos dividir a nós, que pagamos as contas desses funcionários públicos caríssimos e deploráveis. E é tudo manipulado de propósito, não tenham dúvida. Ninguém fala, parece implícito, mas é bom repetir sempre: todos os políticos são nossos empregados – do vereador ao Presidente da República. Então pensem: tem muita coisa que é falada na campanha política que vai ser pura enrolação, mentira, “engana-besta”. A primeira é: sou contra, sou a favor. Isso é opinião e opinião não faz, nem obedece a lei nenhuma. É só uma opinião, um palpite. Nada técnico, nada embasado. Vamos pegar um tema polêmico como o uso maconha. A pessoa pode ser contra ou favor, tanto faz. Para virar uma lei contra ou a favor do uso medicinal da maconha, o deputado tem que parar de enrolar, falando que é contra, que é pecado, que é coisa do diabo e dizer quantos estudos ele leu, que Países estão pesquisando o assunto, como o Brasil pode usar, em quais doenças, quem pode prescrever. Não porque ele é bonzinho, mas porque nós pagamos essa pessoa para fazer exatamente isso. Se for bom para doentes que estão no “guarda-chuva do Brasil”, tem que pautar e votar para incluir no SUS, independentemente da nossa opinião.

                  Isso sempre funcionará assim, mesmo quando o assunto é polêmico. Não esqueçam: Todo mundo tem sua opinião, ok? Então vamos entender porque eu falei de guarda-chuva. Devemos ver cada País funcionando como um guarda-chuva gigante que precisa abrigar todas as pessoas. Todas. Tem que caber 215 milhões de pessoas, no caso do Brasil, ok? Da mais pobre até a mais rica, daquelas que têm fé em Deus, até as que não têm fé em nada. Heteros, mulheres, homens, gays, lésbicas, trans e todas as letrinhas LGBTQIA+; do mais jovem até o mais velho; os doentes e os sãos. Ninguém pode sair desse guarda-chuva porque isso significa abandonar um brasileiro. Bem, isso já muda totalmente a forma como a gente vê a coisa, porque sendo contra ou favor de um tema, nós sabemos que tem outra pessoa que não concorda com a gente. Mas se todas precisam ser protegidas... o presidente, o deputado, o senador, o vereador, o prefeito, o governador têm que pensar no melhor pra gente. E ninguém pode sair do guarda-chuva.

                  - E quem vai gritar no Congresso, dizer que prende e arrebenta, ameaçar?

                  - É funcionário ruim. Você se sentiria como, se o pintor do seu carro ou da sua casa resolvesse berrar na sua cara, ao invés de fazer o serviço que você está pagando pra ele fazer? Como você reagiria? Dizer “eu sou seu fã pra uma pessoa histérica, dando ataque de pelanca”, não é a melhor opção, certo? Você manda o funcionário embora, demite por justa causa e ainda fala mal dele pra todo mundo.

                  A polarização faz você não ver nada do que eu falei. O deputado ou senador vira Youtuber e você um mero e cego seguidor. Você não é seguidor. É chefe. Se comporte como chefe e cobre trabalho - não palpite.

                  Outra coisa: tem pessoas que mudam o significado das palavras porque percebem que a palavra antiga é muito mais forte do que as outras, diferentes e novas, lançando a nova versão milhões de vezes pra nos enganar. A principal delas é a troca da palavra mentira e mentiroso – que todo mundo conhece e usa na vida real – por fake News, pós verdade, narrativa. Você descobre que sua filha abriu sua carteira e tirou 50 reais de lá. Pergunta o motivo e ela diz que não foi ela, foi o cachorro. O que você responde? Mentirosa! - ou “essa narrativa não me convence”? Ou: “Isso só pode ser usado no mundo da pós verdade”? Ou: “Isso que você falou é fake News, tenho certeza”?

Na prática, o que acontece quando essas palavras aparecem? Na nossa percepção, não usando o nome MENTIRA, parece que a coisa não é tão grave assim. Aí você releva o que não pode relevar. Se a gente não mantém esses políticos trabalhando, eles vão pra um paraíso fiscal, por exemplo, trazem um carrinho cheio de bagagem que a gente não sabe o que é e passam com “a muamba” na nossa cara, pelo lado de fora do raio X, quando no aeroporto normal todo mundo passa por dentro. Passam a perna na gente. Nós. Os chefes.

Esqueçam da polarização e foquem nos nossos funcionários. E não esqueçam: pesquisem na hora de votar. Nada de seguir youtuber mentiroso, só porque você gosta dele. exija trabalho, pesquisa e não palpite. Aceitar o que eles fazem, é polarização demais!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Dar valor ao que tem valor” Bug Sociedade

O que tem valor? Como sabemos dar valor a cada coisa ou momento? Pelo que os outros dizem? Pelo valor que os outros dão a essas coisas? Pelo que essas coisas custam a construir, a acontecer, a existir? E não estamos a falar só de dinheiro, mas também de esforço, risco, tempo.

Que valor tem os sapatos velhos de seu avô? Enquanto ele está vivo? E tendo ele partido?

Dou valor ao meu café da manhã, se eu como a mesma coisa há 50 anos? Se nunca tive de sofrer para ter esse café da manhã? Se nunca senti a falta? Que valor tem? É tão habitual que parece nem ter valor?

Sei dar valor a tudo aquilo que obtenho de forma fácil? Ou não penso nisso? Só penso no valor quando não tenho isso ou essa pessoa?

Aquilo que desejo e que basta pedir para ter, aquilo que desejo, compro e obtenho de imediato, aquilo que tenho sem um único esforço, tudo aquilo que é dado, percebo o seu valor?

Aquilo que existe como certo, que existe à custa do esforço de outras pessoas, muitas vezes esforço ao qual não assistimos, não costuma ter valor algum para nós. É apenas algo que faz parte e que julgamos ter razões para ficar muito aborrecidos quando não existe. Por exemplo, temos água em casa, sempre. Um dia, vamos tomar banho e não temos água. Ui que aborrecimento, ui de quem é a culpa, ui quem falhou, ui resolvam rápido esse problema porque não vivo sem o meu banho, ui, ui, ui. Muitas vezes, nem nesse momento entendemos de quantas pessoas depende o esforço e a organização para chegar água na nossa casa, com o conforto que estamos habituados. Água, dinheiro, comida, conforto, roupa, acolhimento, apoio, carinho, etc.

Fala-se muito que as gerações que sofreram, fazem um enorme esforço para dar tudo a seus filhos, tentando que não sofram o mesmo, considerando que o que estão a fazer é o melhor para a vida deles. Mas sem sofrimento e ou sem noção do esforço para obter as coisas, parece que nada tem valor e parece que tudo isso existirá para sempre.

Se tudo aparece sem ser preciso pedir ou comprar, sem ser preciso suar, o raciocínio é: “por que aquilo deixaria de existir ou porque deixaria de ser gratuito ou porque eu tenho de fazer esforço se tudo vem ter comigo?

Ensinar e habituar um ser humano, desde criança, que as coisas são fáceis de obter, que é só pedir, é um tremendo engano e todos pagamos e pagaremos caro. Nada é fácil, nada simples ou importante é fácil, e quando é fácil, não damos valor, muito menos quando não compreendemos o custo e esforço.

Neymar por exemplo. Um talento. Uma das pessoas mais famosas do mundo. Um dos brasileiros mais ricos do mundo. Com 35 anos, tem comportamentos de quem teve poucos “não’s” na sua vida. Até no campo como atleta, como referência para os mais jovens. Deveria, poderia, ser um bom exemplo para os que o admiram e para crianças e jovens que querem ser como ele. Escolhe repetidamente o lugar de vítima. Passa os jogos inteiros pressionando e questionando as decisões de arbitragem, o comportamento dos colegas e dos adversários. Provoca os adversários, quando sofre falta ficamos sempre com a sensação de que seu corpo exagerou o “toque” que sofreu. Muito rebolar no ar e na grama, muito grito, muita queixa, muita necessidade de ter a bola, muita vontade de controlar o jogo. Tudo isto parecem ser características de imaturidade e de muita falta de “não’s” na vida. Recordo que tem 35 anos, um filho, 3 filhas e um patrimônio multimilionário. Nos conceitos sociais de grande parte do planeta podemos dizer que “tem tudo”. Porque não ajuda a humanidade a ser melhor? Que pena não ser um saudável exemplo de comportamento, de controle e de justiça no campo e fora dele. Que pena ter comentários machistas, misóginos. Que pena, que pena! Que valor social têm seus comportamentos? Muito valor, por isso deveria ter muito mais cuidado, deveria saber como pode influenciar e como influencia jovens no Brasil e pelo mundo. É um dom e um talento, mas também uma responsabilidade. Não é só receber. Tem muito a dar também. A vida é uma troca.

Falei de Neymar, mas poderia falar de outras pessoas que sempre viveram fugindo aos problemas. Fugir aos problemas pode parecer inteligência, mas é precisamente o contrário. Uma das definições de inteligência mais simples e mais completa é precisamente a que diz que ser inteligente é ter a capacidade de enfrentar e tentar resolver os problemas, quando eles surgem na sua frente. É essa capacidade de resolver, de enfrentar, de não parar, de não recuar, de não desviar seu caminho. Muitos precisamos parar um pouco para ganhar um certo balanço, outros partem logo para a resolução. Os que me preocupam são os que travam e demoram anos ou até uma vida a destravar, ou os que mudam de caminho sempre que existe um problema e um dia não existirá mais caminho para escolher nem para fugir. Vai estudar literatura porque não gosta de sangue, vai estudar esporte porque não gosta de ler, come carne porque não gosta de peixe, etc, etc, etc. Escolhe algo porque não quer o que não gosta, em vez de escolher o que quer. Pensa que resolve, mudando de caminho, trocando o objetivo.

Se pensarmos na vida como um caminho e os problemas como pancadas de chuva que irão surgir apenas em determinados locais do caminho, fica fácil entender que se pararmos quando chove, nunca sairemos da chuva – porque não saímos do local que chove. Caminhamos, e tudo está correndo bem. Cantamos, rimos e nos sentimos felizes. Entretanto, começa a chover. Ficar sofrendo enquanto a chuva nos encharca a roupa e o corpo, é travar, não ter respostas, opções, escolhas. A chuva não vai parar, ali, naquele lugar do caminho. Se “abrirmos um guarda-chuva”, melhora um pouco, mas apenas resolve parte do problema já que não é suficiente - faltará avançar. Precisamos entender que ficar ali não é uma boa opção, nos faz sofrer, nos adoece, apesar dos guarda-chuvas que possamos abrir, ou que pessoas amigas abram por nós. Precisamos avançar, precisamos acreditar que em breve, mais adiante no caminho, encontraremos o sol. Por isso, quando chove, até podemos parar por um momento e abrir o guarda-chuva, mas logo que seja possível precisamos continuar a caminhar. As chuvas nos fazem parar, mas precisamos seguir. Precisamos acreditar que existe algo melhor, mais na frente do caminho.

O que tem valor? Como sabemos dar valor a cada coisa ou momento?

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Picasso


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