2 Contos: “EU VIM DE NAGASAKI E VOU TESTEMUNHAR!” e "Ser grata"
- portalbuglatino
- há 2 dias
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Conto “EU VIM DE NAGASAKI E VOU TESTEMUNHAR!”
Eu estava na plateia para um daqueles testemunhos de vida feito pelos mais velhos. Eu amava ver o que a vida os havia ensinado. Na internet, sempre ouvíamos as mesmas coisas, com palavras, gatilhos mentais, armadilhas, vendas, cursos de como fazer isto ou aquilo. Por isso, ao ver que ainda sobreviviam algumas testemunhas do horror de Hiroshima/Nagasaki, quis vir e assistir mais ainda. Precisava imaginar por um instante o que era escapar do inferno.
Ao contrário da escatologia que vemos na internet, aquele velhinho pequeno, baixinho, falando espanhol fluentemente com uma calma absurda, me abalou. Contou pelo que passou, as dores, a perda de pessoas, o sumiço de sua cidade, sua mãe cobrindo o seu corpo com o próprio corpo, absorvendo ela a dose direta da radioatividade. Só as mães fazem tanto...
E falava com calma. Como um espírito que sabia o que fazer e como fazer. Falou sobre a necessidade absoluta de impedirmos outra guerra atômica, impedirmos todas as bombas atômicas de serem usadas. Não como uma campanha, mas como alguém que sobreviveu. Não como alguém que acaba de falar e pede um PIX. Ele apenas vai de lugar em lugar sempre que é convidado e fala da sua dor e da sua experiencia, esperando que o escutemos. É assim que sua dor é aliviada. Poderia ser através de tiros e bombas, mas... ele apenas fala de sua dor e do que quer evitar.
Me senti grandiosa e ao mesmo tempo pequena. Grandiosa por entender a importância de falar sobre as nossas experiências. Só assim elas passam a existir dentro de nós. Pequena porque existem algumas (experiências) que não alcançamos. Dores que não alcançamos. Sequer imaginamos, realizamos. Elas ficam ali, como cristais da nossa estupidez, brilhando e chamando a nossa atenção para o erro que não podemos mais repetir, reviver...
Olhei despretensiosamente para o celular. Parei ao ver o loiro Trump dormindo como os “velhos corocos gagás” num evento norte-americano. Um evento antivacina, aliás, em meio a uma campanha de ameaças contra o Brasil e o México – terra que acolheu o nosso velho japonês – evento onde apareceu uma menina dançarina que batia na barriga para “acordar” o decrépito Trump que, coincidência ou não, chamava de decrépito ao Biden. Quem acredita em karma?
- Esse é o novo mundo... Então temos um velhinho japonês totalmente são mentalmente, que prega contra as bombas atômicas que o decrépito Trump tem em tanta profusão que pode jogar até para cima, já que todas as pessoas parecem ter medo dele, no mundo. Espere aí, que há alguns que não... o presidente do Brasil, a presidenta do México – terra que acolheu o meu velhinho japonês lindo – da China, do Canadá...
- Que apareçam mais, alô BRICS! Há algo a se impedir por aqui! Ele veio de Nagasaki, sabe do que está falando e vai testemunhar!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto "Ser grata"
Adoro dirigir, adoro essa coisa de ir dirigindo e pensando na vida. Fazia muitas viagens longas para o trabalho. Ligava a rádio e ouvia de tudo: entrevistas, cantores novos, piadas engraçadas dos radialistas, me informava sobre o tempo. Sabia do mundo de carro. Foi também com os carros que aprendi mecânica por necessidade, não por prazer. Na carona com um tio, ia vestida de branco, lavadinha, para uma reunião super importante de trabalho e tivemos um furo num pneu. Meu tio não podia fazer esforços, por isso, eu tratei de mudar o pneu. Ele me dava as instruções e eu ia fazendo e me sujando. Cheguei na reunião num estado estranhamente lamentável, mas as pessoas até acharam piada uma mulher ter feito aquele serviço.
Na época da faculdade, ia todos os fins de semana na carona do carro de um tio. Uma vez levou o carro dele mais velhinho, para não ficar muito tempo parado. O carro avariou no meio de uma ponte e tivemos de sair do carro e empurrar o trajeto todo da ponte, na maior velocidade possível porque de maneira nenhuma o carro podia ficar parado na ponte. Exercício físico puro. Era de noite. Tivemos de ficar no único lugar aberto - uma discoteca - aguardando ajuda. Já não lembro quem veio ajudar, mas sei que voltamos no carro bom, puxando o carro velho com uma corda. Uma aventura.
Também tive umas caronas com um primo, quando ia para o ensino fundamental. Ele esquecia de colocar gasolina com muita frequência e depois tínhamos de ir a pé, de galão na mão, fosse onde fosse o posto de gasolina. Eu amava aquilo porque conversavamos imenso, fazíamos caminhadas longas por lugares lindos e eu achava imensa piada aquelas aventuras.
Uma vez com o meu primeiro carro novo, zero quilómetros, avariou a centralina, do nada, no meio de uma ultrapassagem que estava fazendo. Precisei pedir ao meu pai que viesse me ajudar. Naquela época não existiam ajudas de seguros, nem reboques, nada. Meu pai veio com seu carro e uma corda. Prendemos um carro no outro com uma corda para prender as vacas e lá fomos para casa. Com muita calma e paciência meu pai me explicou que eu teria de engatar o carro na terceira mudança depois dele puxar o carro para ganhar velocidade. Também me avisou e combinamos o que fazer numa parte do percurso em que teríamos de passar numa rua muito estreita. Tudo estava previsto e tudo correu como programado. Foi a primeira de muitas vezes que tive de andar com carro puxado por uma corda ou com o carro engatado em terceira em percursos com trânsito. Tinha visto como era com a avaria do carro do meu tio, mas ir a dirigir era outro nível.
Também tive um carro maravilhoso que quando começou a ficar mais velhinho, foi perdendo o efeito do turbo, perdeu o ar condicionado, o aquecimento - era um frio terrível no inverno. Tínhamos de viajar cobertos cheios de cobertores para resistir ao frio. Com a velhice avançando, começou a romper regularmente o cabo da embreagem/embraiagem - uma chatice que acontecia em situações ou embaraçosas ou perigosas.
Numa viagem de ônibus quando era atleta, nos anos 80, batemos contra uma raposa. Um susto enorme. A raposa cegou com os faróis no máximo e parou na estrada, nem para a frente nem para trás. O motorista tocava a buzina, mudava as luzes de máximo para médio, mas não adiantava. Teve de travar, mas mesmo assim, batemos na bichinha. Até partiu a matrícula do Ônibus. Foi horrível. Outra vez o ônibus estourou um pneu e o motorista conseguiu estabilizar aquele monstro enorme, mas quase provocamos um acidente para nós e para um carro que ia do nosso lado. Um susto horrível.
Todas estas histórias e muitas mais, deixam recordações que viraram histórias curiosas. Percebo como tenho sido abençoada na vida. Em cada uma destas situações podia ter acontecido o pior. Tantas pessoas que conheci que não tiveram tanta sorte. Esta sorte me faz trabalhar, trabalhar muito, tentar passar para outros as aprendizagens que tive a sorte de ter. E ser grata.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Van Gogh
Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.
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