2 Contos: “DO XIXI NO SHOPPING À SURUBA DE BILIONÁRIOS” e “Sincronicidade”
- portalbuglatino
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Conto “DO XIXI NO SHOPPING À SURUBA DE BILIONÁRIOS”
Epstein, Vorcaro, bilionários – seres totalmente inseridos no tal sistema que defende como imoral uma mulher trans fazer xixi no shopping: lá estava eu, apertada, diante daquele homem fora de si, dizendo que o meu xixi era a apologia do demônio, enquanto não inferia que o caso Master tem grande chance de gorar com coisas muito – mas muito – piores do que uma percepção atrasada do que significa gênero, simplesmente porque acreditava no tal sistema.
Eu não queria complicação. Queria apenas garantir um espaço onde pudesse entrar e finalmente fazer xixi num lugar limpo. Mas o tal gritava. Produzia aquelas “espumas meio nojentas” nos cantos da boca enquanto falava todo tipo de impropérios. Ninguém no shopping parava, o vai e vem da entrada do banheiro continuou – as pessoas apenas olhavam aquele vexame, pediam licença e entravam. Até que uma senhora já do time dos idosos parou e ouviu os absurdos que o maluco vociferava por um minuto. Aí pediu licença e entrou na conversa:
- Você está indisposto com o xixi da moça porque acha que dentro do nosso banheiro acontece algum clima sexual, é? Vou te decepcionar, filho: é só xixi e boa tarde, viu? Essa coisa de suruba em banheiro é coisa de homem. Eu vejo esses “deputados do Senhor” falando que moças como esta aqui entram para “caçar” dentro do nosso banheiro. Olha pra ela. Não é linda? Você acha que uma mulher dessas, precisa ficar “caçando em banheiro de shopping”? Então, filho, acredite nos anos de experiência que tenho: essa coisa de caçar, é de homem. Opps! Olha, olha! Essa expressão de raiva não te cai nada bem, hein? Em todos as religiões e filosofias as pessoas precisam respeitar os mais velhos.
Meu Deus! Eu já era capaz de pedir um autógrafo pra aquela senhora! Minha vontade de entrar no banheiro até tinha ficado mais suportável!
- Filho, você sabe quem é Vorcaro? Aquele do banco Master! O que está em toda a mídia! Sabe quem é o Epstein? Além de terem enriquecido explorando meios de ficarem com o nosso dinheiro – não importando os meios – eles pegavam homens importantes – todos com esse problema sexual que está atrelado ao machismo, arrumavam mulheres, crianças, garotas de programa, daqui ou internacionais e promoviam orgias sexuais. O Epstein tinha uma rede de tráfico de meninas – sim, crianças – e o Vorcaro contratava europeias e filmava os machistas incautos que iam às suas festas sexuais porque acreditavam que pra serem homens “precisam de orgias”. Os dois – tão biliardários e importantes – filmavam tudo e depois cobravam favores, através de chantagem. Não foram os primeiros, não serão os últimos porque os homens têm essa imaturidade emocional – precisam se mostrar dizendo que fizeram isso e aquilo. São, portanto, fáceis de atrair para todas as armadilhas da vida. Ouça o que eu digo – eu que tenho idade pra ser sua mãe! O xixi dela, não empata sua vida. O Vorcaro pegar bilhões do Brasil, com intermediação de políticos, de banqueiros, empata - e muito – a vida de todos nós. A sua também. Presta atenção: eu vou pegar essa menina pela mão – ela que poderia ser minha neta – e vou entrar com ela no banheiro. Você vai ficar quietinho aí. Quando a gente entrar, você vai correndo procurar informações dos senadores, dos governadores, dos deputados federais que estão envolvidos com esse Vorcaro e com o Banco Master. Antes disso, você vai parar um pouquinho e pensar em Jesus. Vá: feche os olhos e pense Nele. Você acha que uma pessoa como Ele, que defendeu Madalena, que bateu nos fariseus, que curou leprosos – lembre que eles ficavam isolados do mundo e ninguém na sociedade queria saber dos coitadinhos! Você acha que Ele iria defender o xixi dessa menina ou o bacanal do banqueiro? Qual deles te parece mais fariseu? Então deixe de onda e nos dê licença, viu?
Olhei pra ela com tanto amor, que nem sei. Entramos juntas no banheiro: gloriosas! Ela me falou que não estava com vontade de fazer xixi, mas que queria sair comigo. O homem estava por ali. A minha “Deusa dos cabelos prateados” parou na frente dele e disse com autoridade:
- Leu sobre o Vorcaro? Agora sente aí na praça de alimentação e procure no seu celular o que o Sérgio Moro aprontou na Lava Jato. Menino, você precisa ler mais viu?
Aproveitei e já a convidei para um café. Uma pessoa assim precisa de mimos.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Sincronicidade”
Olho muitas vezes a vida e me pergunto como aquilo tudo aconteceu. Não sei se já se fez a mesma pergunta: “Como foi que tudo isto aconteceu?”
Como aquelas duas pessoas, que viviam a 500 metros de distância, casaram por procuração porque o marido estava a 5.700 km de distância? A mulher casou com o sogro, fez a viagem para encontrar o marido e em poucos meses precisaram voltar de novo porque o lugar entrou em guerra. Quando voltaram, já não podiam ir, cada um, para casa de sua família e não tinham casa, para poderem viver a própria vida. Em poucos meses você deixa tudo para ir viver a 5.700 km de distância de sua casa, para voltar, mas não mais para o mesmo lugar, a mesma vida, e sim, para uma vida totalmente diferente, a 500 metros de distância de sua casa. Você agora é casada, não pode ir viver para casa de sua família. Uma época em que o casal deve ficar na casa da família do homem. Um lugar que precisa de gente para ajudar nas tarefas. Vai-se ficando, enquanto se organiza o que se vai fazer. Os dias vão passando, os filhos nascendo, cada vez fica mais difícil sair desse lugar. Cada vez fica mais difícil ter uma vida em que se é mais livre e mais feliz. E, com uma rapidez tão avassaladora, que só a própria vida sabe fazer, os sonhos ficaram por realizar, porque sempre existiu algo para fazer. As tarefas primeiro, os sonhos depois, quem sabe, um dia. A vida não é lugar de sonhos, mas sim de deveres. Até que um dia termina. Como termina para os outros. E o que foi feito, foi feito, o que ficou por fazer, ficou por fazer. Sonhos? Liberdade? Felicidade? Quem tem tempo para isso?
“Como foi que tudo isto aconteceu?”
Um de seus 7 filhos, uma filha, quando tinha uns 15 anos, estava descendo uma rua desse lugar, olhou o céu e pensou algo que nunca tinha pensado: “Onde estará a pessoa que melhor me vai entender? A 500 metros de mim? A 5.700 km de mim?” Estava estudando sobre geografia, sobre história, sobre física, sobre filosofia e se fazia muitas perguntas. Nesse dia, foi essa a pergunta.
Talvez as pessoas que melhor nos entendem, que melhor nos tratam são as que viveram perto da gente, viveram o mesmo que a gente, sabem o que passamos. Talvez as pessoas que melhor nos entendem sejam as que nunca nos viram, ou que viveram coisas totalmente diferentes. Talvez sejam pessoas que viveram muito longe, mas, apesar de longe e diferente, se formaram de um jeito semelhante. Ninguém sabe. Nunca ninguém saberá a resposta.
Essa mesma filha, já adulta, trabalhou durante muitos anos, em lugares muito distantes de sua casa. Conheceu muitas pessoas. Perto de casa e longe. Um dia, cruzou-se com uma pessoa que vinha de uma distância de 1.500 km e ela vinha de 6.000 km. Se encontraram nesse lugar, durante 3 dias. Passaram algumas horas juntas no primeiro dia, mas nos outros dias quase não se viram. Vidas tão diferentes, mas formas de olhar a vida tão semelhantes. Cada uma ficou na sua vida. Por décadas. Até um dia em que finalmente entenderam que deviam escutar a vida e o que ela lhes dizia há mais de 30 anos. Pessoas que pareciam querer viver no lugar onde nasceram, para sempre, com rotinas consideradas pacatas, sem grandes emoções, criticadas com frequência pelos que “viajam muito para ver mundo”, aceitam finalmente a insistência da vida. Não será fácil, as dificuldades surgirão de todos os lados, mas a vida insiste. A vida insiste, a vida insiste, e o que começa a parecer um karma, uma agonia, um castigo, um dia se acalma. Como se tivessem vivido em tempestade por anos e anos e um dia, o clima simplesmente decide retirar a chuva, para sempre, e coloca um sol quente no meio de um céu azul, azul, azul. Parecia que iam perder tudo, tudo o que eram, tudo o que tinham, tudo o que construíram, mas um dia a vida, de novo ela, decidiu que chegava de aprendizagens. Considerou que “passaram na prova”. Considerou que de agora em diante teriam de manter essas aprendizagens para terem direito a liberdade e a felicidade. Não só a sua liberdade e felicidade, mas também a liberdade e felicidade de muitos antepassados que não tiveram essa oportunidade.
“Como foi que tudo isto aconteceu?”
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Lorenzo Ghiberti
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