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2 Contos: “ACONTECEU NO MERCADO, JURO!” e “Menina Braba”


Nebulosa do Anel Sul, IMAGE BY NASA ESA (272113), CSA (272278), STSCI (272279)

Conto “ACONTECEU NO MERCADO, JURO!”

Fila pra pagar, no mercado. Lá estava eu. Na minha frente, aquele que há alguns anos era encontrado facilmente no eixo Rio-Salvador. Simpático, cor de café com leite, conversador nato. Levava as meninas do caixa às gargalhadas com suas histórias:

- Ta vendo esse joelho torto aqui? Fui zagueiro. Eu era caçado. Muito mais que o Zico!

- Aqui no Brasil agora não tem mais craque, garotas. Todo mundo de salto alto. Nenhum amor à camisa, gente! Uma pouca vergonha. No meu tempo aquela amarelinha era uma honra! Agora qualquer um esbarra nela em campanha política. Deveria ser proibido.

- Quer apostar que aqui vai ter um bocado de besta com a canarinho numa eleição de vereador?  Otávio Mangabeira estava certo! Pense num absurdo que a Bahia tem precedente!

As meninas primeiro fingiram neutralidade, mas depois de poucas frases e alguns “chutes a gol” imaginários – aderiram!

- Quando a gente joga com os meninos, eles tiram todos a “canelinha” de vidro... É mais fácil de encontrar mulher raçuda do que homem!

- E homem de agora dá pra alguma coisa, meninas? Ninguém quer sair da casa da mamãe... Querem que mamãe e papai arrumem indicação pra emprego. Não servem nem pra abrir um jornal, uma internet e procurarem sozinhos...

- CPF na nota?

- Serve!

- Quer comprar sacola?

- Mande, filha! Mande que eu mato no peito, pego as sacolas e arrumo em um segundo, no carro!

- Fica lá a cambada rezando e levantando o dedinho pro céu enquanto aqui na Terra, o pessoal “senta a porrada”! Passa a bola, mas a canela fica...

- Vai ser crédito ou débito?

- Se não dá pra ser de graça, então manda de débito mesmo que eu vou aceitar! Tudo de bom pra vocês, meninas!

Que delícia brasileiro assim, pensei... Quando nos afastamos do nosso próprio espírito? Lembrou de graves acidentes passados e da nossa tristeza coletiva. Quando caíram os aviões na época do Fernando Henrique e Lula 1 e eles fizeram rede nacional pra nos dar os pêsames, quando a Boite Kiss pegou fogo e a Dilma chorou junto com todos, quando o time da Chapecoense morreu e até Temer estava arrasado. Mas aí veio a pandemia e nos colocaram abaixo do cocô do cachorro e teve gente que achou bem. Teve gente que ao invés de sofrer enquanto povo, se viu diferente. Se viu seguidor, perseguidor, fã, tiete e desprezou quem estava do seu lado.

- O que deu em nós? Éramos craques em ajudar, em nos condoermos... Agora, quanto mais se reza, mais a assombração corre atrás...

O brasileiro, de saída, arrematou: Eu sou Roberto, o correto!

Uma pirueta, mais um drible, um tchau e lá foi ele.

- Que saudade de nós, Roberto...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Menina Braba”

- Continuas uma pessoa muito difícil...meu Deus...

- Ahahah...porquê? Porque não admito que me tratem de forma inferior?

- Vês? Essa forma desagradável que tens...

- Desagradável ou de quem não deixa que a tratem como alguém que não interessa a opinião que tem?

- Achas-te muito perfeita, sem defeitos né?

- Não, não acho nada disso. Mas não sou invisível, nem alguém que não pensa, que não tem opiniões próprias.

- Claro que achas. Sempre com essas lições de moral, com esse jeito de que sabes mais do que os outros.

- Talvez uma mulher que fala, que não concorda com tudo o que os outros dizem, que não se intimida com os risos, as ironias, as combinações de conversas nas minhas costas para me implodirem.

- Falas, falas, queixas-te de coisas que inventas, ninguém te ouve, não tens jeito para nada, não tens amigos importantes...dá pena ver-te...

- Vês? Continuarei a ser, com muito prazer, essa menina braba, essa pessoa que dá pena, mas nunca boba, nunca manipulada. Continuarei a ser alguém que não quer aparecer como líder, mas alguém que faz coisas boas para si e para os outros. Quem não me ouve não entende a mesma linguagem – está tudo bem. Não ter jeito para nada, penso que também é errado porque qualquer pessoa tem jeito para qualquer coisa, desde que queira, estude e pratique. Eu tenho jeito para fazer cada vez mais coisas, não parei em uma única habilidade – a dos meus diplomas – e vou tentando aprender, tentando praticar, dominar outras habilidades. Não preciso de ser a melhor do mundo no que faço. Basta que o que faço faça bem a mim e às pessoas que precisam, que querem. Não ter amigos importantes, desses importantes que falas, não quero nenhum. Desses amigos que apenas desejas ser amigo para obter vantagens, não quero nenhum mesmo. Já sei bem como são esses amigos que se aproximam quando temos dinheiro e fama e que desaparecem quando os problemas chegam na tua vida. Não quero amigos para comer e beber, viajar, tirar fotos para colocar no Instagram. Quero amigos que chorem comigo, que dividam uma tangerina comigo, que se sintam felizes por saber que existo.

- Vês? Viraste uma anti-social. Antigamente ainda te aturávamos nas festas, nos piqueniques, nas reuniões familiares. Mas agora, refilas muito e fazes pouco.

- Sou a mesma. A mesma mulher. Talvez mais mulher agora, mesmo mais velha, com o cabelo desalinhado, presa a menos luxos, com necessidade de menos regalias. Vocês escondem-me coisas, divulgam aquilo que acham que eu ia querer, mas nada me faz falta. Vocês não me fazem falta.

- Claro. Falas essas coisas, mas eu bem sei que sentes falta de nós e do que vivias conosco, do que te proporcionávamos.

- O que me faria falta? As vossas conversas sobre se eu sou mulher gostosa ou não? As vossas conversas sobre qual dos 4 seria o que conseguiria transar comigo? Ou se os 4 o conseguiriam? A vossa frieza quando eu comecei a namorar com mulheres? A vossa cara de paisagem dizendo que para vocês é normal uma mulher namorar outra, mas nas minhas costas, rirem, gozarem, comentarem? O merdinhas do vosso amigo querer namorar com as minhas namoradas? Esse que nem consegue namoradas sem a ajuda dos amigos, desde que nasceu? Ficar sempre num lugar inferior a todos vocês? Ganhar menos? Tudo isso e ainda por cima sentir-me feliz? Dizer aos quatro ventos que sou feliz por ser tratada dessa forma?

- Estás a desconversar demais...

- Não...apenas tenho portas fechadas nos lugares onde vocês entravam, faziam o que queriam e saíam a toda a hora. Eu vos dei meu coração e vocês nem pensaram em mim, nem perceberam a raridade da oferta. Pegaram no meu coração e amassaram, pisaram, sei lá o que fizeram mais. E ainda hoje acham que me fizeram coisas boas e que eu deveria estar agradecida. Tive de me retirar para que vocês não o destruíssem totalmente. Sou essa menina braba. Serei sempre. Agora mais do que nunca. Essa brabeza me salvou de muita encrenca.

- Estás a cansar-me com essa conversa. Vens ou não? O pessoal diz que já está a perder a paciência contigo. Fazes-te de difícil, vais perder tudo o que te podemos proporcionar. Alguns até dizem que qualquer dia não insistem mais. Que vão cansar.

- Nossa, a pessoa fala, mas vocês nem ouvem. Não, não vou. Dá um recado ao pessoal. Diz que não precisam esperar mais, viu? Nem percam a paciência. Nem fiquem cansados. A palhaça não vai mais fazer parte do circo. Arranjem outra palhaça ou outro urso. Eu adoeci para essa função.

- Eu não vou falar nada. Tu que falas. Nem entendo nada do que dizes, sempre te fazendo de importante, de superior. Dizes que não queres, mas vais querer um dia. Depois quando quiseres voltar não te queixes.

- É espantoso

- O quê?

- A surdez de quem não sabe dar valor a uma mulher.

– O quê?

- Sai daqui antes que a braba te mostre o que é brabeza

Ana Santos, professora, jornalista

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