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Um Conto e outro Conto


Conto “UMA COMITIVA “CONTAGIANTE””

Era um mundo virulento – havia ainda muitos mortos, embora finalmente vacinas tivessem sido inventadas por uma classe “estranha de comunistas”, que se autodenominava “cientistas” e eram aceitos praticamente no mundo inteiro – menos no País da Alice.


Em “Alice World”, muitas pessoas fingiam não ter medo do vírus mortal e outras tantas não tinham medo mesmo – eram loucas, como o Chapeleiro Maluco e estavam dispostas a transformar síndrome viral, em contágio. Mas no seu país, isso não seria tão visível. Houve então, uma busca por mais glamour, mais charme. Onde iriam? Paris? Buenos Aires? Las Vegas? New York! Uau!


Uma comitiva foi formada de imediato e ela, convidada a dedo por seu líder, convidou mais gente, pediu carona para parentes, amigos e vizinhos – não levou marmita porque é coisa de pobre. Lá chegando, coisas misteriosas aconteceram. Homens hetero normativos “conservadores”, evitavam andar com mulheres. Preferiam andar em matilhas de homem com homem, com homem e com homem. As mulheres que chegaram no mesmo transporte, desapareciam da vista de todos. Teriam sido teletransportadas para outro lugar? A nossa curiosidade no país era extrema: As mulheres comiam? O quê? Onde? Quando? Com quem? Onde elas se escondiam?


Na rua, de repente, um protesto de desconhecidos – normal nas democracias - talvez o próprio povo de Alice World – mas algumas autoridades do país encantado tiveram como efeito adverso a presença de câimbras no dedo do meio - que se quedou em riste, dentro do transporte de pessoas pop (!) - enquanto que outro emissário da diplomacia brincava de revolvinho manual com seus coleguinhas e mostrava os “dedinhos brincantes” para o povo de fora, os manifestantes – que fofo...


O País que os recebeu (maldita reunião mundial, pensavam) era “hollywoodiano” e, naturalmente, adorava fofocas e fofoqueiros. Como a autoridade máxima de Alice World é e sempre teve fortes traços maledicentes, todos acreditaram que a maior barreira seria mesmo a da língua. Mas qual... Desde o início do discurso no evento internacional , se percebia que algo na receptividade do público não corria bem – talvez porque as estranhas palavras, bizarros termos e verdades inatingíveis tenham colocado todo o País como “exótico”, diante dos olhos de todos. Sim, no mundo inteiro! No final de tantas tentativas, apertos de mãos proibidos - lembram que havia um vírus mortal na história? – conversas e refeições sem máscaras, saídas para comer em bandos – sempre de homens porque as mulheres sumiram - criaram a cereja do bolo das esquisitices do país: o emissário da saúde, aquele que conduz a tocha, o farol, a luz da ciência, embolou os parâmetros dos “investigadores” com os de “Alice World” e contagiou, contaminou, expôs autoridades mundiais de verdade com seu exército de Branca Leone – e ficou – está – estará de castigo/quarentena/mico por duas enormes e caríssimas semanas – que o estranho povo vai pagar, assim como paga bifes de R$150,00 cada para o tal chefe – o chamado mito.


Como acaba uma história tão bem humorada? Com 600 mil mortos. Triste realidade que se impõe a todas as histórias que se possam contar para caracterizar Alice World. Com seu bem humorado povo que agora chora, com experiências bizarras em idosos e mortes para coroar as vaidades de todos os envolvidos.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Tiveste de ir embora”

Queria te contar uma coisa que me aconteceu. Era o que sempre fazia. Fazia, já não faço. Tiveste de ir embora.


Adorava ir na sua casa. No instante fazia uns bolinhos de bacalhau de aperitivo para os netos. Colocava toda a gente a rir e a conversar. Uma energia contagiante. Uns olhos vivos, um abraço colante, envolvente, tão verdadeiro. Me sentia tão importante sempre. Perdi esse lugar, essa sorte. Tiveste de ir embora.


Adorava as tardes, sentada ao sol, os cães deitados aos pés a babar e a dormir. Contavas histórias, falávamos de livros, de filmes, da vida. Sentia-me bem, importante, aprendendo, sendo gente. Tinhas sempre uma fatia de bolo, ou biscoitos, ou balas/rebuçados. Meu imaginário crescia sorridente. Tiveste de ir embora.


Ia sempre contigo a Macedo de Cavaleiros, comer bacalhau na Miquelina. Enjoava sempre na viagem. Eram muitas curvas e muito estômago vazio. Visitar sempre a Senhora do Minho, comprar chouriços em S. Lourenço da Montaria. A última vez que compramos a senhora foi buscar os chouriços debaixo da cama dela. Assistir aos campeonatos Europeus ou Mundiais de Atletismo, à Formula 1, aos jogos de Futebol. Sabíamos os nomes de todos e todas atletas. Nos divertíamos muito. Tiveste de ir embora.


Vossa partida ensinou o abismo, a falta de caminho, o vazio dos dias, e a saudade tão dura. Mas vocês sempre falavam que tudo precisa seguir e em mim passeiam momentos, gargalhadas silenciosas combinadas com uma barriguitinha fofa saltitona, os abraços inteiros e sensacionais que mais pareciam amassos, o bigode farfalhudo que escondia o mais belo sorriso charmoso, e a única pessoa que conheci que deixava comidinha para os ratos, enquanto o mundo inteiro lhes deixa ratoeiras e veneno. E tantos mais. Tantos. Tão bons.


A vida, em pleno movimento. Em confuso caminhar. Tão linda, tão alegre. Tão dura, tão sofrida. Vocês em mim. Vocês na vida. No mundo. Sempre. Até já.

Ana Santos, professora, jornalista


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