“TODA DENGUE É COLETIVA” e“Esporte?” Bug Sociedade
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“TODA DENGUE É COLETIVA” Bug Sociedade
Peguei dengue pela falta de cuidado do prédio vizinho. Não poda suas árvores. Não cuida de seu esgoto, que está à céu aberto. Atrai ratos. Atrai mosquitos. Foge das nossas reclamações. Dá desculpas ridículas para a sua falta de higiene, enquanto investe em sua piscina. Triplex bacana.
A quem pertencem as partes coletivas do que nasce privado? A Prefeitura de Salvador não sabe responder a isso – creio que não sabe responder a nada que não tenha álcool e festa. O fato é que, ainda antes de pegar dengue, reclamei em todos os órgãos existentes na Prefeitura e não há onde reclamar da falta de sensibilidade do que é privado. Em sendo num terreno que tem dono, parece que se nasce com toda a capacidade de viver em coletivo e cuidar do que é seu, perante sua vizinhança. A pessoa tem um terreno, é sua dona e isso lhe dá atenção e responsabilidade para com os outros. Automaticamente. Portanto, do ponto de vista da Prefeitura, não há onde reclamar porque se o terreno é privado, o seu dono sabe o que fazer – e faz!
Sendo ridículo e absurdo, ao pegarmos uma doença grave como dengue, nos sentimos pagantes de um IPTU inútil para problemas coletivos que só são cuidados quando são públicos porque para a Prefeitura, os problemas privados apenas não existem, já que não podem ser reclamados.
Vamos votar em outubro – infelizmente não para prefeito, para que eu tivesse o prazer de não votar nele – mas vamos votar. Os candidatos baianos nos satisfazem? Eu penso na pujança de Simone Tebet, de Erika Hilton, de Duda Salabert – por que aqui tem tanto homem? Será que só eu dou falta de grandes mulheres que não fazem acordos?
Claro que num estado machista como a Bahia se espera ainda ver o atraso de homens que acham que a propriedade, só por ser privada, não precisa de fiscalização. Mas não podermos desafiá-los com os gritos de uma Erika Hilton baiana? Sem a voz e o discurso de três mulheres como estas que eu separei? Daqueles que fazem os homens tremerem e pararem – pelo menos momentaneamente – de fazerem esses joguinhos e combinações não aceitáveis e abomináveis? Quando vamos parar de conviver com o “aqui é assim” ou “você não está se comunicando comigo”?
Dengue mata. E é coletiva. A minha, veio do terreno do vizinho, um triplex maravilhoso. Meu vizinho adolescente pegou a do tipo hemorrágico, provavelmente do mesmo lugar. Quase morreu. E o vizinho, “coitado, não conseguiu ainda terminar sua piscina”...
Vergonha é individual. Uma pena. Deveria ser coletiva. Da prefeitura até cada um dos condôminos do triplex.
Que vergonha...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Esporte?” Bug Sociedade
A copa do mundo está quase iniciando. Tem muita gente empolgada. Os botecos estão todos “afinando” suas TV’s, seus menus com nome de time ou de algo ligado a futebol. A publicidade tem sempre algo que tem a ver com futebol, mesmo que não tenha nada a ver – entendem? Coloca-se futebol até em venda de parafusos. Vai ter muita gente fazendo de conta que trabalha, fazendo de conta que estuda. Tudo isto me dá a sensação de que as pessoas não têm mais estímulos próprios para viver, pessoais, coisas que querem fazer e ou construir e por isso acordam e vivem animadas. É o futebol que as anima, são os festivais que as animam. Estranho e esquisito, mas que virou normal. Mas não é só isso. Infelizmente. Agora qualquer pessoa está olhando seu celular – isso já sabemos – mas a maior parte delas está jogando. Podia estar lendo um artigo, um jornal, um livro, escutando um documentário, um especialista de algum assunto importante, estudando, conversando com amigos. Não, está jogando, nas BET’s ou outra coisa dessas que diz que dá muito dinheiro e a pessoa desesperada ou anestesiada acredita. Talvez nesta copa tudo isto piore, porque agora se aposta quantos gols se marca, quem vai ter cartão, quem vai ser expulso, etc. Não é mais o olhar para o esporte, analisar jogadas, perceber a diferença de jogos, de táticas. Isso não interessa mais. Assim como também vemos uma nova forma de escolher jogadores para a seleção. Uns pelo que jogam e outros pelo dinheiro que movimentam. E esses, não interessa se estão lesionados, o que interessa mesmo é quantas marcas carregam e quanto todos vão encher os bolsos. Ganhar a copa? Isso era bom, mas o dinheiro primeiro. Já tínhamos visto algumas coisas, mas estávamos sem entender. A escolha do cara que marca o pênalti era antigamente pela sua qualidade e capacidade de lidar com a pressão, mais sua capacidade técnica e tática. Depois fomos vendo um jogador que agarrava na bola, querendo ser ele a marcar o pênalti. No Barcelona chegou a querer marcar, quando era o Messi sempre o escolhido. Talvez tenha saído de lá e ido para o PSG, para ter a “bola”. E tinha. Mas tinha ele a bola e o clube não conseguia nada do que desejava. Agora, que ele não está mais lá, vejam o PSG e como o sucesso explode por todos os lados. Aí o jogador escolhe um clube brasileiro, para fazer o que quer. Não só tem a bola, como os patrocinadores, como o dinheiro todo do clube vai para ele, como marca tudo – pênalti, livre, o que ele quiser. Quer ser ele a decidir quem leva cartão, quer mandar nos árbitros, dá bofetadas em quem não obedece, etc. Se lesiona sempre que dá jeito, ou se lesiona facilmente porque nunca se cuidou e agora, nesta idade o corpo fala e fala alto. Mas eis que mesmo sendo como é, estando lesionado, e o país tendo milhões e milhões de jogadores melhores do que ele, fisicamente, de caráter, é ele o escolhido. E é ele que está na seleção, lesionado. Esperemos que fique lesionado até ao fim porque se for para entrar e se atirar para o chão a berrar outra vez, quando percebe que não o deixam ter a bola e ou que vai perder, já não temos paciência. O Brasil é muito melhor do que tudo isso.
Queremos esporte. O Brasil é um dos melhores do mundo no esporte.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Praxíteles
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