2 Contos: “BANHO DE DINHEIRO” e “Titi”
- portalbuglatino
- 13 de jun.
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Conto “BANHO DE DINHEIRO”
Era operária, mas na TV, na internet, os comentaristas apontavam sem parar que havia um tipo de deputado que brigava pelos direitos da maioria – eram bem poucos, esses.
Não entendia, não era capaz de entender. Os homens – principalmente eles – ao invés de pesquisarem detidamente qual deputado apresentou projeto bom ou que apoiava projetos justos para o povão, perdia tempo procurando cabelo em ovo: essa deputada não voto porque é mulher, porque é trans, porque é progressista, porque é pastor.
- Pelo amor de Deus: Vai olhar o que o cara fez! A gente ta pegando uma fortuna pra cada um! Eles têm que trabalhar dia e noite!
Mas nada: um senador foi para os Estados Unidos ferrar com a economia da gente e eu tenho que pagar avião, hotel, comida e roupa pra carcaça do cara! Não quero, ora!
Viu um senador se abanando com um maço de dinheiro, outro em festas onde Jesus passava longe...
- Tudo igual ao Tio Patinhas, gente... tomam banho de ouro, bilhões e bilhões pagos por nós... e um monte de homem besta brigando por causa de nada, ao invés de fiscalizar essa gentinha.
Chegou na casa de seu avô, um cabra forte, lúcido. Pediu a benção. Ele lia jornal – creio que antigo, da semana passada. Ainda lia devagarinho, mas chegava ao fim, o danado!
- Brasília foi invadida por esses piratas... só querem dinheiro, só pensam em dinheiro... chega na eleição, se pedirem pra ficar pelado, não tem 1, nem 2, filha: os pessoal arranca a roupa! Ninguém mais tem vergonha na cara, como eu aprendi na minha casa. Eu tenho é vergonha de ser obrigado a me levantar dessa cadeira pra ir votar nos mesmos porque não aparece o ouro, a novidade, a honestidade!
- É só banho de ouro, avô... é banqueiro pra um lado, senador do outro, deputado do outro, empresário... e a gente sustentando esse pessoal...
- Deixa fia. Eles tomam banho de ouro, mas tem nós, aqui. Tem o povo. É uma beleza ver o Brasil. Uma gente linda, que faz samba, que joga futebol com bola de meia, de jornal, que ainda sonha, fia... nós nunca seremos vencidos nessa vida. E veja: é tanto ouro que eles tropeçam nele e caem – um por um. Olha os banqueiro, olha os políticos! Brasília fica em pé por causa de nós! Nós somos o povo brasileiro. Gente!
Um por um foram caindo os importantes. Um por um. O avô morreu. Mas a neta viu o povo brasileiro tomando conta de seu ouro – seu caráter, sua alegria.
- Nós somos o ouro que os idiotas não veem, porque não têm... precisam se cobrir de dinheiro, roubar porque não são nada, não aprenderam com ninguém, não foi lhes dado princípios. São pobres. De caráter, de espírito, de respeito humano. Um mendigo tem mais a dar. Um morador de rua tem mais a dar. Se alguém tropeça e cai, aqui tem gente que ajuda a levantar, que liga pra SAMU, que ajuda, que grita, que liga. Essa é a nossa riqueza, nosso tesouro, nosso tudo. O resto... cai de podre. Ninguém leva consigo.
- Tome seu banho de ouro até ouvir o “toc, toc” na sua porta. Eu tenho minha paz, aqui dentro. Eu tenho minha paz aqui dentro...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Titi”
Aquela casa vista de longe parecia uma casa encantada. Via pelo mirante da minha casa, seu tamanho, suas janelas abertas, e por vezes tinha a sorte de ver aquela senhora com seus cachorros agarrados às suas saias passeando tranquilamente. Era extraordinário assistir a estes momentos. Aconteceram poucas vezes. Eu não era muito de ficar ali olhando, pois eu estava sempre saltando, correndo ou agitando. Acho que foram as vezes que eu ficava no mirante, aguardando passar aquele menino que eu era apaixonada. Enquanto não chegava o trem com ele, eu olhava tudo em volta e meu olhar se prendia naquele quadro. Ela e seus cachorros. A casa dela não era bem em frente da minha, mas dava para ver. Seus muros eram baixos, assim como os muros dela. Era sorridente, ou calada, ou silenciosa, ou risonha, ou faladora, mas como sua casa, seus muros eram baixos – tinha limites e zonas que não deixava entrar, mas se fossemos educados, gentis e sociáveis, nem muros se viam. A conversa preferida era sobre livros e filmes. Ela nunca percebeu como me passou tanta paixão por essas duas, que se tornaram companhias na minha vida, para sempre. Ainda hoje, quando pego num livro e o leio ao sol de final de tarde, é como se estivesse conversando com ela, com seus cachorros ao seu pé, quase inanimados de felicidade, seres que respiravam e se moviam ao sabor da sua respiração e movimentos. Era soberbo admirá-los. Sincronia do amor, da lealdade, da companhia, da vida. Foi a primeira vez que vi a felicidade em cachorros, a primeira vez que vi o amor de verdade, tranquilo, seguro, inteiro.
Eu sentia vergonha de estar perto dela. Ou era timidez. Não sei. Achava que não seria capaz de ser alguém que ela gostasse de estar e de conversar. Era a “maria rapaz”, a menina sem graça que só gostava de jogar bola ou subir em árvores. E ela era a senhora que vivia numa casa encantada, cheia de cachorros que a amavam, de livros que estavam vivos, de silêncios e espaços vazios amáveis. Eu vivia numa casa cheia de gente, sem espaço para estar só. Ali, quando a acompanhava nas suas caminhadas pelo jardim e pelo pomar, ou mesmo pela casa, existia espaço, espaço, espaço e em todos esses espaços eu sentia a felicidade do vazio, do sossego. Mas afinal não eram os espaços, era ela e seu sorriso, sua paz, sua imaginação, seu olhar de menina.
Eu tinha de ir lá de vez em quando levar umas encomendas. Ia nervosa. Ela me recebia sempre com seu sorriso, sua gentileza e na saída tinha direito a um biscoito ou bolacha ou bombom. Como aquilo me deixava feliz... A conversa era rápida, mas aquele brinde era fabuloso. Vinha para casa olhando a maravilha, apreciando a novidade, comendo aos poucos para durar.
Também a via nas festas que faziam. Eram momentos de festa quando sabia que nossa família tinha sido convidada. Éramos muitos, 7, e os tempos não eram de abundância, por isso, cada convite era sinal de poder beber e comer novidades. Ela tinha imenso trabalho, estava sempre de um lado para o outro, quase não tinha tempo para conversar. No final da noite, via ela sentada sorrindo e conversando, mas com os adultos. Nós também andávamos que nem doidos pelas escadas interiores e exteriores, correndo, saltando, brincando no exterior, no meio dos arbustos, na garagem, eu sei lá! A casa tinha tantos recantos que não tinham fim as ideias de brincadeiras.
Não lembro bem quando foi, mas acho que foi pelos meus 16, 17 anos, que fui passar uma tarde com ela, para conversar. Ela me convidava muitas vezes, como convidava todos, mas eu na minha vergonha ou timidez, nunca ia. Nessa altura decidi aceitar e fui. Lembro que nos sentamos num lugar quentinho, com o sol batendo de frente na nossa cara, seus cachorros, um do lado e outro do outro da sua cadeira, ou na frente dos seus pés. Aprendi ali pela primeira vez o que era estar, ser, respirar, viver – apenas – sem agitação. Ali, sem tempo, sem pressa, sem tarefas para fazer, sem ter de ir para lado nenhum resolver nada. Apenas estar, olhar o sol e sentir seu calor, olhar os cachorros, olhar o céu e pensar que no dia seguinte talvez o tempo estivesse assim também. E depois, uma tentativa de conversa, sem pressa, sem questionários, nem obrigações. Perguntas livres, sem amarras, sem armadilhas, portas abertas para um mundo novo. “O que pensas disto, o que achas daquilo, gostaste desse personagem, foi triste aquilo não foi, eu achei tanta graça naquilo, eu nunca mais esqueci daquela cena, etc.” E ali, vi uma adulta de verdade. Uma pessoa que não se escondia atrás de nada, nem de nome, nem de estatuto, posição, poder, função, de nada. Uma pessoa que buscava espaços e pessoas para poder ser ela mesma e falar sobre o que sossega nossos sentimentos e comportamentos. Meu corpo ia relaxando, meu sorriso ia saindo, meu coração ficava quentinho. Podia ser apenas, podia soltar minhas ideias sem medo de ser criticada ou travada. E ela ia incentivando mais e mais e meus pensamentos iam mais e mais. Saia dali com mais possibilidades de ver a vida, de pensar sobre os assuntos e as pessoas.
Todos os adultos tinham pose, tinham limites, tinham travões, tinham regras. Ela não tinha nada disso. Os momentos com ela eram repletos de regras amáveis, equilibradas, justas, entre dois seres humanos, sem comparações. Parecia tão fácil o que ela fazia, o que ela era. Parecia. Nunca mais conheci uma pessoa assim, nem parecida. Era única, ela, seus livros e seus cachorros. E seu tricô, sua malha.
Escrevia poemas como quem respira.
Tinha uma vida tão simples, tão simplesmente maravilhosa. Um dia gostava de ter uma vida assim.
Nunca lhe disse como ela me fazia feliz, como me ensinou tanto. Na verdade, nunca tive coragem de dizer nada disso. Acho agora, passadas décadas, que nem tinha entendido o tamanho do que ela me deu.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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