“SIRIS NA LATA” e “Tentar derrotar racistas através do futebol” Bug Sociedade
- portalbuglatino
- há 5 dias
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“SIRIS NA LATA” Bug Sociedade
Bem, os argentinos mostraram claramente o quão não sabem perder. Esperado. Um instinto malcriado, mal-educado, provocativo, que se mistura – mal – com o que também é desejo de vencer, mas... é muito mais ofensivo do que estimulante.
E nós? No futebol, os seguidores fazem só isso mesmo – seguem. O marketing criou imagens, figuras que não existem. O cantado e ungido “craque do Brasil”, na vida real não tinha força nem pra correr atras da bola e se vangloriou de um único gol – de pênalti – enquanto tirou dos mais jovens a oportunidade de jogarem pela seleção.
Nas redes, os seguidores também não ajuízam nada, não usam seu juízo crítico funcionalmente. Não seguem provas, não comprovam falas. Acreditam em fake News porque não querem desacreditar dos seus influencers. Preferem ser enganados, preferem jogar, perder tudo, mas continuar acreditando que aquela pessoa que ganha 5, 10% de tudo o que ele perde, é um exemplo a seguir. Preferem a ilusão e a queda, a desilusão.
Sabemos competir? Quando alguém ocupa as redes e diz que a nossa urna deveria ser substituída por voto de papel, sabendo da quantidade enorme de urnas que sumiam no ar, antes; quando influenciadores recebem milhões para dizer que está acontecendo, o que não está acontecendo, segui-los é uma opção? Acreditar que mentira é verdade, é uma opção?
Para os argentinos somos “os monos”. Mas nisso não acreditamos, reagimos. Eles dizem que os espanhóis vieram de navio e os silvícolas – nós, portanto – viemos pela floresta. Eles cantaram isso, na nossa eliminação, na Copa e vivem nos ofendendo em todos os pontos turísticos do Brasil.
Sabemos conviver? Porque as redes sociais colocaram em evidência pessoas refratárias, que veem heróis que não existem, são apenas imagens inventadas pelo marketing. É ilógico, depois de ver a nossa seleção jogar, termos que ver filmetes que falam do hexa, em 2030 – gente, mal e mal conseguimos vencer algumas partidas e continuamos a falar apenas de hexa. Não vale nem ficar em segundo. Ficar em segundo é perder, não vale nada. O técnico é o “mister”, o chefe é senhor, o político é excelência. Não existimos enquanto time, por aqui. Não nos unimos; competimos entre nós. Assim, se multiplicam os “seguidores”, os “puxa-sacos” e os que caem dentro das “rachadinhas” por confundir oportunidade com corrupção.
- O chefe resolveu dar a oportunidade do meu menino estudar e ele vai no gabinete só uma vez por mês pra pegar a “sua ponta”- de salário, claro. A outra ponta – a grande, a de 80% - fica nos “labirintos”. Não é corrupção, é a “oportunidade para o menino estudar”. Viu? Já está perdoado.
Sabemos julgar criticamente? Sabemos perguntar se o menino, com os 80% que se perderam no “labirinto”, poderia estudar numa escola de ensino forte, professores melhores? Não se pergunta, apenas se segue, valorizando o ato de ter sido escolhido. Mas isso é ser escolhido?
Sabemos nos unir? Somos um bom coletivo ou estamos sendo treinados permanentemente para funcionarmos como “siris na lata”- um puxando as pernas dos outros?
Com a eleição chegando, talvez valha a pena pensar nisso...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Tentar derrotar racistas através do futebol” Bug Sociedade
Todos vimos.
Todos vimos como se comportam os jogadores argentinos na seleção.
Os comportamentos racistas, os comportamentos de gangue, os comportamentos agressivos de raiva e vingança, os fingimentos, as trapaças.
Uns, ao verem isso, dizem que não gostam de esporte ou não gostam de futebol. Mas isso não é futebol, nem é esporte.
Outros chamam-lhe de “jogadores com raça” e que é assim que se chega a campeão.
Vemos times como o de Cabo Verde e nossos olhos brilham porque ali tinha vida, tinha coração, tinha aquilo que todos teríamos obrigação de perseguir e lutar. Acontece que não sabemos sair do imaginário – que bom que era se eles vencessem, mas de alguma forma não o podem fazer. Entendem? Nós mesmos cavamos nossas sepulturas, nós mesmo determinamos quem nos vence e quem não nos vence, quem pode quebrar o enguiço e quem não pode. Nós mesmos entregamos e produzimos o resultado que menos desejamos, aceitando o “destino” que ouvimos desde meninos que seria o nosso. Passamos a vida a esbracejar, a espernear, a querer quebrar as paredes e muros que construíram à nossa volta, mas quando o “destino” traçado pelos outros chega, abrimos-lhe a porta sem nem questionar. “Afinal não era para nós, afinal todos os antepassados e presentes tinham e têm razão.“
Escolhemos o caminho mais fácil, onde não é duro, não tem sacrifício, não tem escolhas difíceis, mas registramos na nossa mente que tentamos de tudo mas não foi possível ou tentamos mas já sabíamos que aquilo não era para a gente.
Precisamos melhorar, como pessoas e como sociedade! Desistimos de nós para caber no lugar que os outros nos colocam e como sociedade preferimos entrar nos jogos de regras “podres e pantanosas”.
A seleção espanhola, muito bem preparada, com uma das escolas mais civilizadas de futebol do planeta, precisou tentar mais de 20 vezes para conseguir êxito em uma. Não falo só de futebol, falo da vida. Muitas vezes estamos muito bem preparados, mas quando, diante de nós, está aquilo que mais queremos na vida, e ainda por cima, para conseguir isso, precisamos enfrentar nossos maiores medos, os gigantes e os monstros que o mundo inteiro teme, não o conseguimos nem na primeira, nem na décima, nem na vigésima, e talvez nem o consigamos se vacilarmos.
As barreiras mentais, emocionais, as crenças limitantes, as culpas, os medos da infância, são poluição da braba, dentro de nós.
Dizem que ter a consciência que a vida é assim, permite que nos preparemos sempre bem, sempre o máximo, sabendo que quando chegar o momento, mesmo assim demora, é difícil, duro, e necessita que estejamos por inteiro. E que não desanimemos na primeira vez, nem na décima, nem na vigésima. É que quando tudo nos parece difícil, habitualmente recuamos, cedemos, aceitamos que afinal não somos quem desejamos ser.
Recuar precisamente no momento que precisamos seguir causa tanto dissabor. Precisamos mudar esta curva fatídica! Colocar avisos de perigo. Quebra-molas. Proibição de velocidade. Mas igualmente proibir parar. E mais proibido recuar, ou fazer retorno e voltar.
É aqui que fico incomodada. Se sabemos que só nós é que somos capazes de ir em busca do que desejamos e que essa é a nossa função e de mais ninguém, por que desistimos quando está muito difícil? Por quê? Por quê?
Neurocientistas e psicólogos dizem que quando surge a hora de maior dificuldade, precisamos permanecer, nunca ceder, porque é essa capacidade de permanecer, de insistir mesmo não vendo as soluções, nem vendo portas abertas, nem vendo o mar vermelho se abrindo. O mar não se abre por sermos talentosos, ou líderes, ou respeitados e admirados, o mar se abre porque nós tivemos a coragem de entrar nele, como que o obrigando a abrir, como que empurrando as portas, como que rodando as chaves. É nosso gesto, nosso passo, nossa ação, que provoca a solução. Não é o nosso currículo, nem quem achamos que somos, nem o dinheiro que temos que faz o mundo se abrir. Apesar de parecer que é assim, não é aguardar a solução para depois fazer a ação.
O time de Espanha nos mostrou como é difícil, como é necessário tentar de várias formas, com diferentes talentos, como é preciso ter treinado muito para resistir às provocações, como é preciso deixar o ego e o orgulho de lado e servir o seu país. Isto é servir o seu país. Servir o seu país não é mais ir para a guerra para matar pessoas que nasceram noutros lugares e que pensam diferente. Servir o seu país é se preparar o melhor possível naquilo que você é bom e aguentar e ultrapassar as dificuldades até conseguir obter o prêmio.
As portas não se abrem enquanto nós não formos lá, com nossa mão, rodar a chave.
Não se pode ganhar competições, prêmios, com intimidação, com comentários racistas, com coação, com violência e humilhação. Isso não faz parte das regras.
Vamos começar a cumprir as regras de novo? Por favor? As regras que são equilibradas para todos?
Quem sabe conseguimos com o futebol ajudar a resolver o racismo e tantas outras maldades sem nexo para quem se chama SER HUMANO.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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