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2 Contos: “SUPER PODERES” e "O Trovante"


Conto “SUPER PODERES”

Entrou na sala e relanceou os olhos pelo ambiente e as pessoas presentes, percebendo, de repente, que podia ver através delas. Via o que pensavam, suas intenções, omissões, mentiras, hipocrisias.

Piscou, assustada:

- Gente, será que estou surtando?

Ali estava o jornalista, omitindo e usando as informações que tinha a seu bel prazer. Ali, a secretária que estava por um triz de denunciar o empresário corrupto, mas que ainda tinha medo. Passou por ela o homem traído, com aquele olhar esgazeado, entre o homicida e o violento, a influencer rasa, que ganhava 10% do que os que haviam acreditado nela jogaram até perderem tudo – a vergonha, a casa, o corpo, a emoção, a verdade. Se comportavam como se se suportassem – onde viviam os verdadeiramente amigos, quando o ambiente era político? – se perguntava.

Foi recebida com sorrisos – meu Deus, quase todos falsos!

Respirou fundo. Sabia que algum dia perderia o interesse pelos golpes da espécie humana, mas não imaginava que aquilo fosse acontecer tão cedo.

Então, tomou a palavra e falou da perda de ética, do desprezo que via por trás dos olhos das pessoas, da falta de qualidades humanas e da troca que fora feita por interesses, dinheiro, poder, trânsito político.

Falou por minutos eternos. Desopilou seu espírito. Jamais seria subjugada pela carteirada dos outros. Jamais se venderia, jamais confundiria oportunidade com corrupção. Jamais perderia sua capacidade de ter e sentir gratidão.

Se concentrou ao máximo e num dado momento, tudo o que ela via naquelas pessoas, ficou visível para todos. Caos total. As pessoas pareciam se desnortear ao verem o que faziam, o que eram. Passaram pela frente dos olhos delas, caos do meio ambiente, puxadas de tapete, golpes financeiros. A treva estava ali, presente.

Apertou os olhos e não conseguiu evitar seu único sorriso completamente sincero da noite – ver através das almas era totalmente demais.

O momento de visão que levava o interior para o exterior das pessoas durou poucos instantes. Elas piscaram, disfarçaram e retomaram suas mentiras e esquisitices interesseiras como se nada tivessem visto. Como se fugissem do que tinham visto.

Mas ela viu. Ela havia visto por trás das máscaras.

- Algum dia me sobrarão – além das plantas, poucas pessoas... poucas mesmo...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto "O Trovante"

Morreu hoje Luís Represas, o vocalista da banda histórica portuguesa, O Trovante. Quando eu tinha 15 anos, esta banda estourou de sucesso. Tinham tudo: um vocalista lindo, com uma voz soberba, letras sensacionais, melodias inesquecíveis e todos na banda eram talentosos. Tão talentosos que até hoje são dos maiores compositores, instrumentistas e produtores de Portugal.

Nessa fase da minha vida, 15, 16, 17 anos, eu era mais uma das meninas e mulheres portuguesas apaixonadas por Luís Represas. Depois resolvi transferir minha atração e paixão pelo saxofonista. Eu comecei a achar que nunca teria qualquer hipótese em conquistar aquele homem, lindo de morrer, com um sorriso de paralisar, aparentemente gentil, simpático, até um pouco tímido. Como eu competiria com todas as mulheres de Portugal? Impossível! Aí resolvi me dedicar a alguém menos famoso, menos concorrido. Tudo na mesma de qualquer forma - eu na minha vida e eles na deles. Era só uma sensação de que estava de acordo com todas as outras mulheres, que de alguma forma, todas pensávamos de forma semelhante e que todas tínhamos extremo bom gosto. Acho que Portugal feminino era feliz nesses tempos, feliz e unido. silenciosamente unido.

Gostava das letras, muito muito. Me faziam sonhar com vidas que eram impossíveis para mim. Me faziam sonhar com Lisboa, uma cidade que eu já amava sem ainda a conhecer. Naquela época, nas férias escolares, enquanto famílias da cidade e de posses, iam para o Algarve, para a Ericeira, para Tróia, para o Alentejo, saborear os dias, com música, poesia e festas, eu ficava em casa para ajudar meus pais a cuidar da nossa vida. Eu gostava da vida que tinha, amava perdidamente, mas ficava sempre imaginando como seria viver assim como diziam as letras das canções. Hoje sei que ambas as vidas são boas, importantes e que podem ser apreciadas em conjunto, ou cada uma no seu momento, mas naquela época, tudo aquilo que Luís Represas cantava era para mim um mundo de sonho. Tinha também a ideia que me passavam de que juntos eram felizes, que eram amigos, parceiros, companheiros. Tenho essa ideia até hoje e não me apetece ler muito sobre eles para não estragar esta imagem. Quero levar isso comigo quando partir, essa ideia de amizade, de sorrisos, de cantar em conjunto, harmonizando as vidas de todos no país. Bons tempos.

Sabia as letras de cor. Sentia cada palavra, cada rima, cada alegria ou tristeza. Ouvir O Trovante era uma tarefa apenas. Preciosa. Não fazia mais nada, ficava sentada ou deitada, ouvindo aquele som, engolindo aquelas palavras, criando meus mundos imaginários e sendo feliz. Ainda hoje quando os ouço me veem imagens desses tempos, dos lugares onde os escutava, e dos velhos vinil comprados com os dinheiros que recebia dos tios, dos pais e dos padrinhos postiços, no meu aniversário, no Natal e na Páscoa. Dinheiro poupado para ser gasto no mais raro, mais valioso, mais importante. E durante esses tempos, os escolhidos eram O Trovante.

Nossa ditadura terminou oficialmente, em 25 de abril de 1974. Tenho ideia que foi mais ou menos pelo ano de 1981 que se iniciaram pequenos festivais musicais no norte do país. Muito pequenos mesmo. Recordo as Festas de Poesia em Afife, outro em Viana do Castelo, outro em Vilar de Mouros, e outro ainda em Vila Praia de Âncora. Tudo locais pequenos, intensos, perto de minha casa mas não o suficiente perto para ir a pé. Lembro que foi uma época de pedidos profundos aos mais velhos para nos levarem, ou irem conosco ou até nos deixarem ir de carona - algo perfeitamente normal nessa época. A gente se unia, se organizava em grupo e quando chegávamos, ficávamos de pé, o mais perto que fosse possível, cantando ao mesmo tempo que ele, e que todos os outros cantores que participavam nesses festivais. Uma das atuais melhores cantoras de jazz do mundo, Maria João, começou a cantar em público nessa época e lembro que ela ficava envergonhada - algo que agora parece inventado. Num desses festivais, quando estávamos saindo, passamos pelo local onde se vendia bebidas e eu nunca mais esqueci da minha felicidade quando percebi que Luís Represas estava junto de todas as pessoas, falando com um amigo, naturalmente sendo alguém como todos nós.


Uma vez uns alunos meus passaram pela cantina da escola e viram que eu estava comendo. Mais tarde, na aula, disseram: "ficamos espantados por ver a professora na cantina, comendo. Nunca imaginamos que comia. Parecia que a senhora não fazia nada disso." É um pouco do que eu senti naquele dia. Para mim Luís Represas era um trovador, alguém acima de nós na vida, não o via propriamente como humano, sabendo claro que era humano e muito. Mas ele pertencia ao lugar da vida, de Portugal, de mim, onde tudo era belo, encantado, encantador e perfeito.

E agora?

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


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