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2 Contos: “O AVENGER DAS DEMOCRACIAS” e “Fios entrelaçados, fios enosados”

há 11 minutos
6 min de leitura

Conto “O AVENGER DAS DEMOCRACIAS”

Quando aquele menino super esperto se ajeitou na sua “mantinha” e se colocou no bico da cegonha, ela lhe disse:

- Você vai descer num lugar chamado Maranhão. Serás sempre muito sagaz, bem humorado e inteligente, mas amarás essa terra que lhe dará acolhida e também à terra onde cabe o Maranhão e que se chama Brasil. O Brasil é uma terra prometida, onde a mistura de raças cria uma forma acolhedora de ser e viver. Serás daquele tipo informalmente inteligente, que “arregaça” com a pessoa com um sorriso maroto no rosto!

O menino levantou os olhos. Pouco ou nada sabia de seu futuro.

Nasceu com todos os atributos e tudo o que lhe foi dito, aconteceu. Cresceu brilhante, mas de alguma forma, as palavras da cegonha lhe marcaram o espírito porque o menino Dino, além de brilhante, era destemido. Defendia, gostava de ver as coisas arrumadas com justiça, não se conformando com a divisão de bens feitas pelos mais ricos. Distribuía seus brinquedos, sua merenda – embora fosse até meio gordinho. Amava os heróis da Marvel, sentia-se um Avenger. Tentou voar, jogou-se de alguns armários, mas nada foi tão brilhante como sua vida acadêmica e pública. Fez prova para a Escola de Direito, depois prova para ser juiz. Olhava as pessoas que precisavam de uma voz. Via-se como essa voz. Largou, portanto, a toga e começou tudo de novo, ao tentar ser eleito. Seus feitos eram quase hercúleos: Professor de Direito, Juiz Federal, Secretário-Geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Deputado Federal, Presidente da Embratur, Governador do Maranhão, Senador da República, Ministro da Justiça e Segurança Pública e finalmente Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Esteve em todos os 3 poderes da República e em todos, esteve fiel também à sua palavra e ao destino que lhe foi “soprado” aos ouvidos, no dia de seu nascimento, pela cegonha.

Na Suprema Corte, defendeu o Brasil com unhas e dentes, num dos momentos mais inglórios de sua história, onde era status “receber e fazer favores”, de alguma forma “sujando” a nossa pobre República, feita de pessoas simples, mas que se enojavam de ver a forma como esses favores passavam diante delas. Jatinhos, convites, motéis, prostitutas, sentenças – tudo o seu povo via. Tanto que foram enganados por falsos Messias. Mas nessa hora o menino Dino era mais herói ainda. Virava um pouco Hulk, um pouco Homem de Ferro, apartava os golpes sujos contra a democracia e fazia o seu melhor, dando de troco uma forma justa de ver o pior, em busca do melhor resultado - não para si, não para seus filhos, mas para o povo brasileiro.

Não sabemos ainda o fim da história, mas no meu sonho, ele seria presidente da República do Brasil, já em 2030, aliando seu bom humor, inteligência e espírito de justiça a outro gênio, também super, com um nome também fácil de se guardar - Haddad. Seu currículo também é de um Avenger brasileiro: Professor Universitário na USP, Subsecretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Assessor Especial do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Secretário-Executivo do Ministério da Educação, Ministro da Educação, Prefeito de São Paulo, Ministro da Fazenda do Brasil.

Se eu fosse capaz de adivinhar e traçar futuros, este seria o melhor futuro, o glorioso futuro, que eu traçaria para Brasil. Aos brasileiros com este olhar, único, corajoso, deixo Coríntios, na voz do apóstolo Paulo: “Ainda que eu fale a linguagem dos homens e dos anjos. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios. Se não tiver amor, nada serei”. Eles amam este ser intenso, vivo, palpitante, chamado Brasil.

Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Fios entrelaçados, fios enosados”

Eu estava caminhando, mas não conseguia caminhar com a velocidade e a facilidade que sabia que podia. Percebi que tinha coisas presas ao meu corpo e à minha mente. Olhava e via uns fios muito finos, quase imperceptíveis, colados em mim e que me puxavam, me pesavam, me davam regras e ordens de movimento. Ordens que eu achava que eram a liberdade. Regras que eu achava que eram meus desejos. Mas eram os fios, entrelaçados. Fios com nomes de guias, conselhos, modelos, referências, exemplos, mestres, líderes, chefes. Uns presos em mim e nas paredes, outros presos em mim e em sacos de areia, outros presos nos meus cabelos e presos nas nuvens. Eram muitos e quanto mais eu olhava mais eu via que eram mesmo muitos. Quando tentava tirar, cortar, arrancar um fio, era difícil, porque pareciam ser como os fios de pesca difíceis de cortar. Além disso, mexer num fio implicava enrodilhar todos os fios num novelo gigantesco e doloroso – os fios, quando se misturavam, causavam aperto nas pernas, nos braços, no peito, nas costas, no pescoço e me poluíam o olhar. E, de cada vez que tentava fazer essa “libertação”, com um dos fios, minha caminhada ficava mais lenta, mais pesada e mais difícil. Alguns fios, quando eram tocados, me davam choques elétricos, outros me queimavam, outros me gritavam, outros me calavam a boca, outros riam, apontavam.

Não existia outro caminho senão o caminho em frente, eu via o que tinha na minha frente e percebia que ali, mais além, era tudo mais fácil, mais ágil, até mais libertador. Percebia o sol brilhando, o vento doce, as paisagens serenas. Mas não conseguia me aproximar, apesar de continuar a caminhar. Como quando nadamos contra a correnteza, eu me sentia no mesmo lugar e, como nos sonhos, quando olhava para trás e voltava a olhar para a frente, o que via na frente já estava mais longe e menos colorido, menos possível, ou até, mudava por completo. E eu tinha de novo de olhar, olhar, olhar, até conseguir perceber bem lá no fundo, bem no meio da chuva torrencial, que era o mesmo futuro, ali, bem mais à frente.

Via outras pessoas nesse futuro, pessoas sem fios, mas com cicatrizes, olhares marcados pela travessia. Falavam diferente, menos, mas mais fundo, demorado, sentido.

Pesquisei na internet, nos livros, nos especialistas e com tudo isso tentei aprender como fazer, como resolver esta caminhada. Aprendi a cortar fios, a desatar os nós, a impedir que fios se embolem.

Mas parece estar fora de mim se conseguirei terminar a caminhada, parece estar fora de mim se terei direito de verdade a chegar a esse lugar.

Não sei se conseguirei cortar todos os fios e um dia caminhar apenas pela velocidade que decidir colocar nas minhas pernas. Não sei se terei pernas quando isso acontecer. Nem se respirarei. Não sei se o que acho que mereço vai acontecer. Tenho medo de desejar muito isso e por causa desse enorme desejo, perder esse direito. Tenho medo de aceitar não desejar e por não desejar, não obter. Tenho medo. Tenho medo do que vou conhecer. Tenho medo de não ser capaz de viver sem os fios que tanto quero cortar.

Ai tanta ideia pré-concebida, tanto lixo nesta mente cheia de fios e fios.

Surge um canivete na minha mão. Comecei a cortar os fios, um a um, com muito cuidado, um de um lado, outro de outro lado – como num barco, para não perder o rumo. Para não perder o equilíbrio, para não cortar demasiado de um lado e de repente me encontrar caminhando para trás. Para não andar à deriva.

Eu teria gostado de retirar cada fio, desde a origem até ao final. Retirar e não deixar vestígios. Mas não é possível. Manter os fios também não é possível. Então vou ficando com um conjunto de fios cortados a meio, deixando um passado, pendurados em direção ao futuro.

Será isto um sonho, um pesadelo, um filme, ou uma história que inventei?

Para que lado é o futuro?

Até quando existe futuro?

Ontem estávamos rindo e hoje não estás aqui.

Ontem tu eras o exemplo e hoje és o problema.

Ontem era uma multidão e hoje é um silêncio.

Ontem vi-te no hospital e hoje eu morri.

Para que serviu tanto fio? Tanta obrigação? Tanto dever?

Quando viver de novo, não quero fios, quero sonhos.

- Ana? Não é possível! Você ainda está na cama com seu pai dentro do carro, pronto para te levar para o Enem? Nunca mais lhe peço esse favor para te levar. Pediu o dia no emprego e você ainda aqui, ressonando? Bora preguiçosa. Que vergonha! Você se preparou? Porque está com cara de que ainda está sonhando... Meu Deus o que vai ser de você....e de nós, pobres pais... Nem pense em reprovar! Não quero ver de novo as caras dos familiares olhando...daquele jeito...

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Pollock


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