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 “COMO ATACAR DEMOCRACIAS?” e “Tchau 60, olá 70!” Bug Sociedade

há 11 minutos
7 min de leitura

“COMO ATACAR DEMOCRACIAS?” Bug Sociedade

É uma receita de bolo tão óbvia que não entendo bem como tem tanta gente que cai nessa esparrela.

1-      Crie confusão. Desde Bolsonaro que não temos mais paz de espírito, repararam? Todos os dias aparecem 3, 4 notícias bomba, brigas, arranca-rabos, denúncias falsas, áudios, vídeos ou alguma coisa vazada. E vira esse leva e traz, esse levante de tudo o que temos de pior, de mesquinho, de fofoqueiro;

2-      Chamem Deus por qualquer coisa ou motivo débil. Falando francamente, Deus precisa ser mesmo Divino porque as pessoas mais religiosas são as que mais enchem a paciência dos Entes Celestes. Blasfemam, rogam pragas, pedem pelo pior e ainda por cima dizendo que é coisa de Deus.

3-      Os religiosos mais mergulhados, misturam religião com política e têm a ousadia de pedir o que nem Deus pediria: votos! Colocam lá os “candidatos a excelência” em pé, no altar, púlpito ou o que o valha e entregam o pedido de voto como os vendilhões que Jesus tocou aos pontapés do templo.

4-      Conseguem comprar autoridades e plantam a desconfiança em todos para depois se dizerem pessoas que circulam fora do sistema. Por favor, com os políticos que nós temos, herdeiros de oligarquias de décadas, se bobear de séculos, com o tal poder passando de pai pra filho, de avô pra neto, empresas de exploração de mão de obra que nunca saem das mãos das mesmas pessoas, políticos com 30 anos de eleições consecutivas, quem acredita que existem muitos outsiders? São poucos, pouquíssimos.

5-      Falam mal de quem não desvia dinheiro. O politico que ganha apenas o salário da Câmara é mal visto socialmente porque está “plantado na nossa cabeça” que os políticos prosperam – mesmo ganhando um salário justo, mas nada fora de padrão. Só não nos dizem como, a que preço eles enriquecem tão rápido. Nesse quesito vale tudo: aceitar viagens de jatinhos particulares, corrupção passiva e ativa, festas, viagens, cartões de crédito, prostituição, mesadas. Vide o Vorcaro e suas festas de arromba. Vide os convidados para estas festas de arromba. Ser convidado deixou de ser ofensa e passou a ser status.

6-      Esconda tudo isso das pessoas. Coloque umas contra as outras, seja por qual motivo for: porque tomam vacina ou porque não tomam, por se verem numa Terra plana ou arredondada; por serem de direita ou esquerda. Tanto faz. Apenas criar animosidade já está ótimo.

7-      Acabam com a noção de vida coletiva, que deveríamos ter na sociedade e trocam nossos conjuntos humanos por luxo, status e solidão, consequências da competitividade cega e da ideia de que podemos viver em nichos minúsculos.

8-      Empobrecem frontalmente a comunicação verbal. Usam cada vez menos possibilidades de aprendizagem linguística – verbal, escrita e/ou lida. Depois desse empobrecimento, plantam inimigos invisíveis, deixam todos com muito medo, inventam que virão castigos, doenças, pânicos porque sem fluência verbal, as pessoas vão ficar sempre desconfiadas porque se sentem desprotegidas e vulneráveis por não compreenderem bem quais são as intenções das pessoas ao seu redor.

9-      Criam um herói falso. Lhe dão um tiro na orelha, uma facada na barriga ou qualquer tumulto e depois digam que foi Deus quem lhes salvou.

A soma da ignorância com o medo cria um tipo de aliança mesquinha e abjeta, mas atrai olhares de pessoas que acham que estão contribuindo para o aparecimento da verdade, mesmo que pareça estranho esperar ETs com o celular na cabeça para obtê-la. Dizer não sei é praticamente uma coisa proibida e então as pessoas vão sendo cada vez mais segregadas e se sentem mais sozinhas e com mais medo.

O problema de segurança perdura porque os carros deles são blindados, mas a gente não tem escudo; os problemas de educação perduram porque as escolas deles não são as públicas; as filas para atendimento médico perduram porque eles pegam o jatinho e se tratam pelo mundo; as taxas de juros são altas porque o lucro vai todo para os banqueiros; o Supremo está pegando fogo porque são eles a última defesa da democracia. Ninguém desconfia de quem está plantando o caos por lá? Por que agora? E por que, existindo tantas “conveniências” para tantos, eles insistam em colocar só uma pessoa na mira? Onde está a investigação do filme? E pra onde foi esse dinheiro? É uma piscina de dinheiro, é a caixa forte do Tio Patinhas feita do nosso dinheiro!

Se a democracia acabar, quem vai devolver o nosso dinheiro? Nunca esqueçam disso: no frigir dos ovos, desviaram o dinheiro dos aposentados de vários estados do Brasil. Tanto barulho, tanta confusão e a gente se distrai de perguntar, de requerer, de exigir onde foi parar o nosso dinheiro. Cadê o dinheiro que foi desviado do Banco de Brasília pra sustentar os luxos do Vorcaro? Cadê o nosso dinheiro?

É para isso, é por isso que as democracias morrem. Com tortura, com prisões, com os soldados dando porrada na rua, ninguém pensa no dinheiro, na bufunfa!

Cadê o nosso dinheiro, gente? E por que que na hora em que falamos do sumiço em si, o nome do Flavio Bolsonaro some, se foi ele quem pediu o dinheiro, quem recebeu o dinheiro, quem disse que deu fim ao negócio? Se tudo foi feito por ele porque ninguém responde onde ele colocou dinheiro do Vorcaro?

Será que vão acabar com a nossa democracia pra ninguém responder a essa pergunta?

Pensem nisso.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

 “Tchau 60, olá 70!” Bug Sociedade

Dizem que um atleta amadurece e se torna um verdadeiro “atleta” depois de uma lesão de longa e difícil recuperação.

Também dizem que crescemos com os anos, que amadurecemos com as situações duras que vamos enfrentando durante a vida.

Mas será que existem categorias de situações duras? Uma espécie de hierarquia, onde se estabelece o nível de amadurecimento que cada um adquire, depois de cada situação? É que eu tenho a sensação de que essa decisão não é sintonizada, entre os nossos sentimentos e a sociedade. Isto é, quando a sociedade – amigos, familiares, colegas de trabalho, vizinhos, estranhos – sabem de algo que aconteceu com você, nas reações destas pessoas, surge a decisão social de aceitar que foi algo muito difícil ou algo comum. E ao mesmo tempo, por dentro de nós, sabemos bem o quanto aquilo foi difícil e não adianta muito explicar como foi difícil porque ainda piora a situação – ficam te olhando e te considerando uma pessoa fraca. A receita parece ser nunca se queixar, mesmo que seja algo terrível, e quem sabe, cresce alguma sintonia entre você e a sociedade, senão vai sofrer sozinho e ainda tem de se esconder bem para não ser apontado, zoado, falado. Ainda tem mais um detalhe que eu considero importante, dali a umas décadas, algumas pessoas começam a soltar aqui e ali comentários, no meio de conversas variadas, como por exemplo: “sim, mas aquilo que te aconteceu foi horrível”, “Olha, passaste um mau bocado naqueles anos”, etc. É de ficar de boca aberta...por algum tempo. No momento da ferida aberta ninguém fica do seu lado e ninguém considera que você tem razão ou que teve de enfrentar algo difícil, mas passadas décadas, frases soberbas explodem das suas bocas. E o que se faz com isso? É hora de algum cuidado porque essas frases, sem você dar conta, podem te levar de novo para o passado e sua areia movediça de dor e desalento. Respire fundo e vá comer alguma coisa, olhar as árvores ou até olhar as redes sociais no celular. Tudo menos colocar o pé nesse lugar de novo. Não vale a pena. Ponto.

A morte de um familiar é algo que todos assumem como difícil, principalmente quando é seu pai, sua mãe, um irmão, um filho, seu companheiro. Mas vejam, mesmo aí é bizarro como por vezes temos pessoas que se dizem próximas que dão os pêsames a um filho e não dão a outro, que não dão os pêsames na morte da mãe, mas dão na morte do pai. Também tens o que nada dizem na morte de nenhum, mas se fizermos o mesmo quando são os familiares deles, isso vira um enorme problema. Muito louco não acham? E não, isto não é filme não. É vida real. Pura e dura.

Então volto ao ponto, o que é amadurecer? É seguir as regras dos outros, criteriosamente? Ou seguir nossos sentimentos criteriosamente? Parecem ser os sentimentos e uma liberdade que precisamos buscar, trabalhar e nunca asfixiar.

Crianças que falam o que sentem, jovens que falam o que pensam, adultos que não se engalfinham nas regras que lhes disseram que os iam levar ao “Olimpo” da sociedade, me parecem seres que são ou serão amadurecidos.

Uns nunca chegaram a ser “verdes”, porque desde que nasceram são maduros e se mantêm assim. Outros, parece que nunca vingam, como os frutos, por falta de nutrientes, estresse hídrico ou problemas de polinização. Ou porque foram colhidos da árvore cedo demais. Ou a árvore não estava bem. Ou sei lá eu...

Aos 60 anos, finalmente percebi que ser resiliente é apenas continuar, não porque somos melhores, mas porque viver é continuar. Mesmo que nada pareça estar na frente nos piores momentos, continuar nos dará visão, como quando atravessamos no meio de um nevoeiro – nada vemos na frente, mas sabemos que em breve o nevoeiro terminará e tudo ficará claro. Resilientes somos todos, desde que continuemos, porque isso é resistir e em breve retornar ao estado original.

Aos 70 anos quero escrever um texto para dizer que já sou capaz de ser mais do que resiliente – quero ser antifrágil. A antifragilidade define-se pela nossa capacidade de ficarmos melhores depois de uma adversidade. Não é mais voltar ao que éramos antes de “quebrar”, mas sim, voltar muito melhor do que éramos.

Já estou nas primeiras aulas para passar na prova. É muita cabeçada, tropeçada, estrada sem saída, mas quando o nevoeiro começa a baixar, lá está o mundo de novo com suas montanhas, árvores, rios e mares, nos olhando.

Nos vemos por lá.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Pollock


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