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“Prova de Vida”


Fui feliz. Sou feliz.

Não sei quanto tempo tenho.

Sempre soube que a morte viria sem avisar. Que não saberia nunca o tempo que teria aqui, mas agora com o COVID e a idade e a maior insegurança do lugar onde vivo, isso se torna algo mais forte em mim. Dentro de mim. E por isso finalmente escrevo este texto. Sempre quis escrever isto mas tinha alguma vergonha e medo, acho. De que me considerassem doida, louca, medrosa, esquisita, sensível, mole, e todas as palavras que as pessoas às vezes falam das outras pessoas: que não são o que se espera, não são “obedientes”, não correspondem às regras sociais vigentes.


Pois esse medo desapareceu. Evaporou. De alguma forma esse espaço foi ocupado por um medo real: o medo de não aproveitar a vida, os momentos, as pessoas que amo, os sonhos que tenho, o quanto quero fazer, o quanto quero ajudar. E por isso, veio uma vontade muito grande de viver os momentos, as coisas simples, os pensamentos e as palavras trocadas com as pessoas que enchem o meu cérebro de emoções boas e a minha boca de sorrisos. E, em vez de acrescentar, desapego-me de coisas, pessoas, necessidades, desejos. Estou já satisfeita com o que a vida me proporcionou. Já posso ir. A partir disso, tudo é ganho, tudo é muito e muito gostoso. Até agora, ter sido poupada pelo COVID e por todos os problemas do mundo, é algo que agradeço intensamente. Ter podido fazer coisas que nunca imaginava e, principalmente, ter concretizado sonhos que pensei se mantivessem apenas como sonhos, foi incrível. Com isso vem a responsabilidade de transmitir, ajudar e apoiar os outros que também podem ir longe, mais longe do que você. Ajudar a voar como outros fizeram comigo.


Agradeço aos que nunca estiveram, aos que se aproveitaram, aos que fugiram, aos que me abandonaram. Aos que nunca fizeram parte, aos que me quiseram abrir portas que eu não quis. Aos que fecharam portas, ruas, avenidas. Obrigada do fundo do coração porque sem vocês eu não teria amadurecido tanto, nem seria nunca quem sou e quero ser. Vocês foram muito importantes.


Aos que dão a vida por mim todos os dias eu não tenho palavras suficientes para vos dizer o quanto vos amo e vos devo pelo que sou. Eu estava destinada a ser uma menina que não sairia da sua aldeia e que não era esperado mais do que uma vida de mãe e mulher, de recato e de casta inferior. Algumas pessoas e meus desejos me permitiram um mundo de possibilidades imaginárias que eu quis alcançar. E que, enquanto viva, continuarei a perseguir. Não existe “NÃO” para o que se deseja, para o que se quer conhecer, experimentar, viver. O “NÃO” é dado pelos humanos que não aceitam que tu sigas o invisível, que tu queiras o inesperado. Precisas seguir para lhes dizer que é possível, que não devem te impedir. Porque quando eles entendem onde tu queres ir, onde estás, o que foste capaz, eles acordam e podem se permitir o mesmo. Afinal têm tanto direito como tu. Mas estavam cegos pelo condicionalismo do que aprenderam, do que viram na sua vida.


Quero que saibam e que sintam, quando eu morrer, que fui feliz. Que estava feliz com o que vivi. Eu acho sempre que poderia fazer mais e melhor, mas isso é meu estímulo constante na vida. Ao mesmo tempo, sou em todos os momentos muito feliz com o que fiz, o que não fiz, o que vivi, aprendi, pensei, descobri na vida e em mim. Não lamentem a minha partida. Me desculpem se esqueci ou não percebi algo. Eu sou assim, estouvada mas também inteira. Sempre quis ser assim, talvez verdadeira.


Muita coisa por fazer e dizer ficará, mas aproveitei tanto. Fiz tanto. Vi tanto. Ultrapassei tanto.


Há muito tempo que quero fazer esta carta. E deixo sempre para o dia seguinte. É a hora, antes que seja tarde, como tudo o que tento viver. Não quero deixar de fazer o que pode ser feito agora. Nunca será uma carta perfeita, completa, nem a que eu sonharia. Mas é a que fiz, a que fui capaz de fazer e a que me deixará muito feliz pelo passo que dei. Para quem vê pode ser um passo de formiga, talvez até patético, mas para mim é um passo de gigante. E me sinto bem comigo por estar a fazer algo que desejei tanto e que sempre achava que não era o momento ideal, fugindo. Fugindo de algo tão simples afinal e tão prazeroso e fácil de fazer.


Não se assustem com este ato. Tudo farei para cá ficar. Tudo. Mesmo sabendo que de vez em quando ficamos confusos com o que fazemos aqui. Mesmo assim farei sempre tudo. Por mim, por vocês, pelo que ainda temos para fazer, para viver, para conhecer.


Quem sabe a vida me permite fazer outra carta destas daqui a uns 30 anos... ia gostar...

Ana Santos, professora, jornalista

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