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POESIA INCONFIDENTE


POESIA INCONFIDENTE


A poesia é assim, cheia de traços cínicos, irritantes.

Onde um negro, num protesto irônico,

aponte a escravidão como bizarra e aberrante.


Onde passem pelo seu cais saudades, idas, vidas.


e ali cheguem amores perdidos como sinal de claridade...


1. Poesia indicada pelo Bug Latino


“SONETO”


“Sou nobre, e de linhagem sublimada,

Descendo, em linha reta, dos Pegados,

Cuja lança feroz desbaratados

Fez tremer os guerreiros da Cruzada!


Minha mãe, que é de proa alcantilada,

Vem da raça dos Reis mais afamados;

– Blasonara entre um bando de pasmados.

Certo povo de casta amorenada.


Eis que brada um peralta retumbante;

– “Teu avô, que de cor era latente,

“Teve um neto mulato e mui pedante!”


Irrita-se o fidalgo qual demente,

Trescala a vil catinga nauseante,

E não pôde negar ser meu parente!”


Luiz da Gama (1830-1882)

Salvador – Bahia

“Jornalista, poeta, advogado e um ativista incansável na luta contra o regime escravocrata.”

Citação retirada de: https://estadodaarte.estadao.com.br/luiz-gama-heroi-liberdade/


In “PRIMEIRAS TROVAS BURLESCAS DE GETULINO”


2. Poesia indicada por Maria Lúcia Levert


“ODE MARÍTIMA” (trecho de)


“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!

E quando o navio larga do cais

E se repara de repente que se abriu um espaço

Entre o cais e o navio,

Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,

Uma névoa de sentimentos de tristeza

Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas

Como a primeira janela onde a madrugada bate,

E me envolve com uma recordação duma outra pessoa

Que fosse misteriosamente minha.


Ah, quem sabe, quem sabe,

Se não parti outrora, antes de mim,

Dum cais; se não deixei, navio ao sol

Oblíquo da madrugada,

Uma outra espécie de porto?

Quem sabe se não deixei, antes de a hora

Do mundo exterior como eu o vejo

Raiar-se para mim,

Um grande cais cheio de pouca gente,

Duma grande cidade meio-desperta,

Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,

Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?


Álvaro de Campos


3. Poesia de Teresa Vilaça


“PRESENÇA”


“Em cada amor perdido

como sinal

luz claridade

tu estavas


Por isso quando te fazes presente

chegas de mais que longe

do desadormecer da terra

sabor das primeiras frutas

frescor dos primeiros ventos

marca dos primeiros passos

calor do primeiro fogo


Não há palavras

nem gestos

apenas um olhar de infinitude

vindo.”


T.Vilaça

Salvador, 02 de outubro de 2020


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