Poesia dos duros dias

“Tantas vezes maldizia”
“Este céu e esta terra,
As mãos do moinho com musgo
Agitando-se pesadas!
No anexo está um morto,
Hirto e grisalho, num banco,
Como há três anos atrás.
Os ratos roem os livros,
Para a esquerda verga a chama
Da vela de estearina.
E canta e canta odioso
O guizo de Níjni-Novgorod
Uma singela canção
Da minha aldeia amarga.
E pintadas vivamente
Erguem-se rectas as dálias
Pelo carreiro de prata
Com corações e absinto.
Foi assim: a reclusão
Tornou-se segunda pátria,
Mas da primeira não ouso
Nem nas preces recordar.”
Anna Akhmátova
Julho de 1915
foi uma das mais importantes poetisas acmeístas russas
“O último brinde”
“Bebo à casa arruinada,
às dores de minha vida,
à solidão lado a lado
e à ti também eu bebo –
aos lábios que me mentiram,
ao frio mortal nos olhos,
ao mundo rude e brutal
e a Deus que não nos salvou.”
Anna Akhmátova
foi uma das mais importantes poetisas acmeístas russas
Imagem: Salvador Dali
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