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Poesia de grandes mulheres


Catherine Leroy

“Escolhas”


“se eu não posso fazer

o que eu quero fazer

então o meu trabalho é não

fazer o que eu não quero

fazer


não é a mesma coisa

mas é o melhor que eu posso

fazer


se eu não posso ter

o que eu quero

então meu trabalho é querer

o que eu já tenho

e ficar satisfeita

que pelo menos

há algo a mais para querer


já que eu não posso ir

para onde eu preciso

ir

então eu devo ir

para onde os sinais apontam

mesmo sempre entendendo

que movimentos paralelos

não são laterais


quando eu não posso expressar

o que eu realmente sinto

eu pratico sentir

o que eu consigo expressar

e nada disso é igual

eu sei

mas é por isso que a humanidade

é a única entre os mamíferos

que aprende a chorar”


Nikki Giovanni

poeta, escritora, comentarista, educadora e ativista norte-americana



“A vida na hora”


“A vida na hora.

Cena sem ensaio.

Corpo sem medida.

Cabeça sem reflexão.


Não sei o papel que desempenho.

Só sei que é meu, impermutável.


De que trata a peça

devo adivinhar já em cena.


Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.


Não dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado

eis os efeitos deploráveis desta urgência.


Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não

conheço.

Isso é justo — pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).


É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida

feita em acomodações provisórias. Não.

De pé em meio à cena vejo como é sólida.

Me impressiona a precisão de cada acessório.

O palco giratório já opera há muito tempo.

Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.

Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.


E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”


Wislawa Szymborska

escritora da Polônia, ganhadora do Prémio Nobel de literatura em 1996. Poeta, crítica literária e tradutora, viveu em Cracóvia.

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