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Poesia das ilusões perdidas

“Magaíça”

 

“A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda

engoliu o mamparra,

entontecido todo pela algazarra

incompreensível dos brancos da estação

e pelo resfolegar trepidante dos comboios,

seu coração apertado na angústia do desconhecido

sua trouxa de farrapos

carregando a ânsia enorme, tecida

dos sonhos insatisfeitos do mamparra.

 

E um dia,

o comboio voltou arfando, arfando…

oh Nhanisse, voltou!

E com ele, magaíça,

de sobretudo, cachecol e meia listrada

é um ser deslocado,

embrulhado em ridículo.

 

Às costas − ah, onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça? −

trazes as malas cheias do falso brilho

dos restos da falsa civilização do compound do Rand.

E na mão,

Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,

à cata das ilusões perdidas,

da mocidade e da saúde que ficaram soterradas,

lá nas minas do Jone…

A mocidade e saúde,

as ilusões perdidas

que brilharão como astros no decote de qualquer lady

nas noites deslumbrantes de qualquer City.”

Noémia de Sousa

poeta, tradutora, jornalista e militante política moçambicana. É considerada a mãe dos poetas moçambicanos.

 

“AS BELAS MENINAS PARDAS”

“As belas meninas pardas

são belas como as demais.

Iguais por serem meninas,

pardas por serem iguais.

 

Olham com olhos no chão.

Falam com falas macias.

Não são alegres nem tristes.

São apenas como são

todos dos dias.

 

E as belas meninas pardas,

estudam muito, muitos anos.

Só estudam muito. Mais nada.

Que o resto, trás desenganos>>>

 

Sabem muito escolarmente.

Sabem pouco humanamente.

 

Nos passeios de domingo,

andam sempre bem trabajadas.

Direitinhas. Aprumdas.

Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada

(Parece mal rir na rua!...)

 

E nunca viram a lua,

debruçada sobre o rio,

às duas da madrugada.

 

Sabem muito escolarmente.

Sabem pouco humanamente.

 

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

 

O mais, são histórias perdidas...

Pois que importam outras vidas?...

outras raças?... , outros mundo?...

que importam outras meninas,

felizes, ou desgraçadas?!...

 

As belas meninas pardas,

dão boas mães de família,

e merecem ser estimadas...”

ALDA LARA

(1930-1962)


Imagem: Salvador Dali


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