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Poesia da Despedida


Como nos despedimos dos lugares?

Das pessoas?

Do que não queríamos perder?

Como seguimos em frente?

O que é seguir em frente?

O que somos e onde está o que somos?


1. Poesia indicada pelo Bug Latino


“Pegue apenas o que é mais importante”


“Pegue apenas o que é mais importante. Pegue as cartas.

Pegue apenas o que puder carregar.

Pegue os ícones e os bordados, pegue a prata,

pegue o crucifixo de madeira e as réplicas douradas.


Pegue um pouco de pão, os legumes do jardim, e depois vá embora.

Nunca mais voltaremos.

Nunca mais veremos nossa cidade.

Pegue as cartas, todas elas, até a última notícia ruim.


Nunca mais veremos nossa loja de esquina.

Nunca mais beberemos daquele poço seco.

Nunca mais veremos rostos familiares.

Somos refugiados. Vamos correr a noite toda.


Passaremos por campos de girassóis.

Vamos fugir dos cachorros, descansar com as vacas.

Vamos pegar água com nossas próprias mãos,

sentar esperando em campos, irritando os dragões da guerra.


Você não vai voltar e amigos nunca mais voltarão.

Não haverá cozinhas esfumaçadas, nem empregos habituais,

não haverá luzes sonhadoras em cidades sonolentas,

nem vales verdes, nem desertos suburbanos.


O sol será uma mancha na janela de um trem barato,

passando correndo por poços de cólera cobertos de cal.

Haverá sangue em seus calcanhares,

guardas cansados em terras fronteiriças cobertas de neve,


um carteiro com sacos vazios abatidos,

um padre com um sorriso infeliz pendurado sob suas costelas,

o silêncio de um cemitério, o barulho de um posto de comando,

e listas não editadas dos mortos,


tanto tempo que não haverá tempo

para checá-los pelo seu próprio nome.”


Serhiy Viktorovych Zhadan

Poeta, romancista, ensaísta e tradutor ucraniano


2. Poesia indicada por Maria Lúcia Levert


“Como é por dentro outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo

Com que não há comunicação possível,

Com que não há verdadeiro entendimento.


Nada sabemos da alma

Senão da nossa;

As dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,

Com a suposição

De qualquer semelhança no fundo.”


Fernando Pessoa

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