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“Paulina Chiziane” Bug Sociedade


“NOSSA HERANÇA SECRETA”

No mês da consciência negra, a premiação de Paulina Chiziane, escritora moçambicana, tem que ser comemorada de muitas formas. Porém a forma da qual quero falar, talvez seja um pouco inusual e aqui no Brasil, cada vez mais rara – sua riqueza verbal.


Sou apaixonada pelas palavras. Elas transpõem todas as barreiras e falar bem realmente aponta o melhor do espírito humano. Ver as pessoas no Brasil falarem cada vez mais pobremente, usando de meios absurdos para firmar opinião e que podem ir do “você sabe com quem está falando”? – até um tiro, um tapa, um grito, uma agressão verbal, me deprime, me desespera e é o esteio do nascimento do Bug Latino.


Quando se fala de perdas e qualquer coisa que envolva situações infra estruturais, os ricos parecem sempre estar melhor na dianteira. Têm os melhores planos de saúde, educação, oportunidades, indicações para melhores posições, no futuro. Entram “pela janela” onde as provas para que entrem pela porta são dificílimas. Mas, exatamente porque “mandam muito”, não desenvolvem o hábito de darem explicações, de discutirem e negociarem pequenas margens de melhora, diante de cenários graves. E a cultura africana, com extensa tradição de raízes verbais, faz isso muito bem.


Quando o presente é a voz do futuro, é assim. As histórias proliferam porque as pessoas as contam, em busca de passar adiante o conhecimento. Há a nítida sensação de que, quem fala e transmite o conhecimento tem a riqueza, mas também a responsabilidade de passa-lo adiante.


Ao fazer isso, o maior potencial humano – o desenvolvimento da linguagem – entra em ação, substituindo sensações, percepções de fatos concretos, por símbolos verbais. E tudo pode ser simbolizado.


Paulina Chiziane, escritora moçambicana, quando fala como se deu sua entrada na literatura, tem uma destreza verbal mágica, rica, carismática e colossal. Não tem mansões concretas, mas de sua boca saem histórias maravilhosas que transformam as falas dos “pobres ricos” em barracões verbais.


Uma cultura assim, aqui na Bahia, que tem tanta tradição oral para passar, deveria ter seus “transmissores populares”, contando os princípios que regem as coisas para as crianças – que estão ouvindo cada vez menos porque os adultos, com seus discursos absurdos, confundem ordens e críticas, com comunicação, diálogo e conversa.


Quantas vezes uma criança ouve por dia: “pegue a toalha, arrume sua cama, guarde suas roupas na gaveta ou: você deveria ter estudado, ao invés de ficar o tempo todo na rua; não sei mais o que fazer com você, ou ainda: incrível como não dá pra falar com você, aqui em casa”. Ou ainda os clássicos: “Porque sim, porque eu quero, porque eu mando, porque não”, ao invés de: “O que você falaria a esse deputado, presidente, senador, se estivesse cara a cara com ele? Por que você acha que eu devo te dar tal coisa?”.


Cada vez mais a cultura africana mostra sua riqueza e importância dentro do cenário evolutivo que temos hoje. O nosso sistema linguístico está cada vez mais depauperado e isso é uma coisa visível porque as pessoas, cada vez mais, preenchem espaços de silêncio com palavras vazias. Portanto, no primeiro dia desse mês, no qual se fala de conquistar o que ainda precisa ser negociado porque não existe como direito ainda, uma coisa é certa: a civilidade, postura ética, compreensão e generosidade, dentre inúmeros princípios humanos em extinção, estão presentes na figura de uma mãe de santo ou de um pajé, por exemplo. Porque, apesar da autoridade, o candomblé dá a audição maternal, a capacidade de ouvir, respeitar e acatar ao mais velho porque dele depende a passagem do conhecimento. Assim como os povos e a cultura indígena veem nos mais velhos bibliotecas vivas, a cultura negra percebe ali um dos mais verdadeiros poderes humanos.


Para tanta riqueza, haja opressão histórica.


Nada segura a palavra. Nada a silencia porque quando não pode ser gritada, é sussurrada, escrita secretamente, novamente codificada e recodificada. Em homenagem ao que somos e às histórias que nos trouxeram até aqui, este é o mês onde se homenageia a palavra de quem sabe falar.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Paulina Chiziane” Bug Sociedade


Mês da consciência negra, quando deviam ser todos os meses e todos os dias. Já falamos o mesmo no outubro rosa, que para todos é outubro, mas para muitos é todos os dias, cada segundo. Virou algo sem peso nem conteúdo. Marketing de consumo e isso é apenas e só uma enorme pena.


O Bug se preocupa, o bug quer contribuir, quer ajudar, mas não é fácil. Duas mulheres, uma delas branca e portuguesa, na Bahia, fica mais difícil. Mas mesmo assim a gente tenta, a gente insiste, porque a gente quer mesmo contribuir para um mundo mais equitativo. Não é para ganhar seguidores, nem visualizações. É apenas porque é assim que deve ser. E as pessoas estranham, ficam desconfiadas, se afastam, fecham portas. Devem pensar que temos uma estratégia muito mais rebuscada e de enganar e nos darmos bem. Uma pena. Bastaria ver quem somos, o que falamos e o que deixamos para dedicar nossos dias ao Bug para entender. Não existem esquemas, não existem enganos. Existe apenas a dedicação de duas vidas a tentar contribuir para um mundo melhor. E o que aparentemente faria a gente conseguir sucesso, acesso, apoios, faz o contrário. Mas tranquilo. A gente cá anda com a cabeça entre as orelhas, seguindo, seguindo, seguindo.


Podem até se perguntar porque não gravamos em maior quantidade com pessoas da Bahia. E eu poderia vos mostrar a quantidade de pessoas que simplesmente nem respondem aos nossos convites. De todos os movimentos e de todos os segmentos. Para nossa surpresa e felicidade, os artistas plásticos respondem, aceitam, são gentis, ficam honrados. E personalidades baianas vivendo fora da Bahia, personalidades do Brasil e da Europa, aceitam nossos convites e são extremamente gentis. Vida estranha esta.


Sempre ouvi belas histórias sobre África. Bons amigos que cantavam canções de Cabo Verde, como a tão conhecida “Sodade” cantada pela eterna Cesária Évora. Amigos que sofreram a obrigação de mudança de lugar de vida. Mudança de país, de continente, de cultura – de Moçambique ou Angola, para Portugal. Sofreram muito e sempre mantiveram e mantêm uma ausência. Pude visitar Angola e entender, um pouco melhor, a falta que sentem. África tem um calor, um sol, uma energia, um ritmo únicos. Ficamos diferentes. Por dentro. Nosso olhar, nosso sentir. Uma lentidão que tem consistência, conteúdo. É forte. Atinge a gente no peito, em cheio. Mesmo no meio de uma pobreza assustadora. E isso é também intrigante, juntamente com a surpresa de ver como aquelas crianças, pobres profundamente, são tão ricas por dentro. Num instante se unem para te apresentar uma peça de teatro inventada na hora. Dançam e cantam sem parar, todos sabendo tudo com maestria. Contadores de histórias de babar por mais. Ricos espíritos, ricas almas, nos envergonham quando pedem que partilhemos o que sabemos. Como lhes dizer que viramos adultos secos, sem nenhum tipo de alegria, nem de encanto? E as palavras nas suas bocas? Que encanto. Parece música. Constroem frases, pensamentos, mensagens claras, puras, de bondade, de amizade, de partilha e colaboração. Uma riqueza de vocabulário, uma dicção serena e clara, uma simplicidade na mensagem que impede qualquer dúvida. Muitos, sabemos, se tornam adultos corruptos. Mas muitos se tornam riquezas literárias impressionantes. Mia Couto, um deles. Paulina Chiziane, outra delas. Vencedora do Prêmio Camões 2021. Prêmio para poucos no mundo. Circula um vídeo pela internet onde a ouvimos falar e percebemos a sua tamanha riqueza interior. Talvez alguns olhem seus chinelos velhos, o local onde vive, a forma como vive. Mas, se prestar atenção ao que Paulina fala e escreve, talvez possa testemunhar um dos pensamentos mais ricos da atualidade, uma personalidade vincada e forte, pilares estruturados e protegidos. Uma mulher que sabe bem quem é, onde pisa e o que quer e deseja.


Não adianta justificar a fraca educação de um país, nem a pobreza da linguagem e do pensamento com a falta de dinheiro, de políticas, de projetos. Ter dinheiro não significa ter filhos educados, com boa linguagem, pensadores, íntegros. Não ter dinheiro não significa que não importa saber falar, pensar, ter um mundo seu interior enriquecido. O Brasil da educação parece não ter rumo, cria projetos monstruosos, aparentemente complexos e morosos de colocar em prática e, enquanto isso, as crianças vão falando pouco e mal, sem pensamentos elaborados, sem capacidade de reflexão, nem crítica, nem capacidade de emitir uma opinião, de pensar sobre o mundo. Vão ficando agressivas ou deprimidas, sem acordar sua riqueza interior. Transformando-se em adultos revoltados, agressivos, corruptos, machistas, e sem saída verbal, muito menos gramatical desse caos. Muitos tentam fazer licenciaturas, graduações, mestrados, doutorados, mas sem essa riqueza da linguagem, estarão sempre desfasados em busca do ritmo do mundo. E isso é muito triste de ver e de assistir, porque é tremendamente injusto e desnecessário. Com tão pouco tudo poderia ser tão melhor. Estou há 8 anos a assistir a uma educação insuficiente para pobres e luxuosa para ricos. Ambas erradas, perigosas, vazias.


Quando alguém, de qualquer país do mundo, não sabe explicar o que sente quando está doente, não sabe fazer as contas básicas do mercado, não sabe falar sem discutir para dizer que tem outra opinião, não sabe entender o que os outros dizem e interpreta, na dúvida, como algo ofensivo e parte para a agressão, não consegue escrever uma frase sem erros ortográficos, etc, etc, etc, todos que vivemos nesse país deveríamos ficar preocupados e fazer algo para mudar isso. Todos somos culpados e todos temos obrigação moral de fazer algo. Principalmente os que têm isso como função profissional e ganham muito bem para o fazer. E quando ainda se preocupam menos com este horror com pessoas mestiças, negras, indígenas, é inqualificável. Inqualificável. Ouçam Paulina Chiziane e percebam quantas Paulinas estão caladas, com sua semente sem ser estimulada. Não é certo. O Bug tudo sempre fará para que isso possa mudar. Portas fechadas dificultam, mas não impedem. Não impedem. Por muitas mais almas como Paulina Chiziane seguimos sempre. Um dia portas se abrirão. Um dia apoios acontecerão. Chinelos de praia velhos nunca mais serão apenas chinelos velhos, depois de ver os chinelos de Paulina Chiziane. Gratidão.

Ana Santos, professora, jornalista

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