“O INDIVIDUALISMO DOENTIO QUE NOS ADOECE” e "Ponto de vista" Bug Sociedade
- portalbuglatino
- 4 de ago.
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“O INDIVIDUALISMO DOENTIO QUE NOS ADOECE” Bug Sociedade
O marketing feito nas redes – sempre com as mesmas palavras, mesmos gatilhos, mesmos 7 dígitos e vendas, muitas vendas – nos colocou diante de uma bifurcação do caminho. Nascemos para viver em grupos, mas nos “venderam” a ideia de que temos que disputar espaço com todos porque a vitória é vencer sozinho e ter, em curto espaço de tempo, carro, casa, casa de praia, viagens, roupas, roupas, roupas (o deserto do Atacama está tão lotado de roupas, que elas já aparecem pelo satélite). Mas sem ninguém com quem conversar, sem assunto – ou usando a comunicação para reclamar do que não funciona para si mesmo, culpando o outro pelo que não funciona para si.
O momento de perguntar por que cada pessoa está fazendo tal coisa, de tal maneira, de se interessar em saber – não tem. E estamos ficando sozinhos, cada vez mais sozinhos com as perguntas que não temos a quem fazer, com os medos que não temos com quem dividir. Com as nossas ansiedades tremendas...
Haja cursos prontos... ganhe, mande, oriente, seja coach, lidere... mas... se todos pagam para serem líderes – assim, no singular – onde estão os cursos para liderados – o conjunto de pessoas que ajudam o líder a funcionar? Esse curso, importantíssimo – também não tem.
Assim, há gerações de pessoas que infartam ao redor dos 30 anos, outros que sofrem, se prendem em casa, mandam a comida vir de moto, os remédios, os produtos... uma geração que não sabe escolher uma batata no mercado, não sabe dar um bom dia, por favor... não sabe o que as crianças pequenas sabiam. Não é nada parecido com “essa geração é pior” – não pode ser vista como pior, se nem prova a experiência pra saber se gosta ou não.
Ah, mas eles são mais felizes! Não. São cada vez mais isolados e infelizes por mais que comprem, por mais que tenham, por mais que ganhem dos pais. É isolamento demais, improdutividade demais na escola, no emprego, na vida. No Japão, já existe até a palavra que designa esse isolamento social, quando é total – hikikomori. Nos Estados Unidos a pessoa “aluga” um amigo para ir ao cinema, Portugal é o país onde mais se toma remédio na Europa. E aqui, bullying virou um problemão entre alunos e entre alunos e professores. Não é mais espantoso ver um menino sendo assediado nas redes, mas os pais não parecem ver o que todos veem. O tão propalado empobrecimento de vocabulário feito pelas mesmas palavras, mesmos gatilhos, mesmas vendas de 7 dígitos do marketing, virou um meio de enganar pessoas pela política: me siga, seja meu seguidor e aceite tudo o que eu faço – diz o esportista que faz lobby de poker nas Bets, o senador que também faz lobby do jogo nas bets, os canais de internet que também fazem lobby das bets... e as pessoas – cada vez menos capazes de julgar a gravidade de tudo porque estão pobres de vocabulário, de capacidade de julgamento – jogam...
Temos eleições este ano e querem que não pensemos no Brasil, mas em quem seguimos – o Brasil pode ser dividido, pode entrar em guerra civil, pode ser invadido, a Baía de Guanabara pode receber bombas pra todo lado – mas se meu seguidor der um like...
O Brasil é um coletivo, somos um coletivo, as famílias são coletivos. O resto é apenas isolamento social provocado, numa pandemia de desinformação assustadora.
Acordem.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
"Ponto de vista" Bug Sociedade
Há mais de 15 anos, Fernanda Torres foi ao Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica - FITEI, no Porto, Portugal. Apresentou a peça "A Casa dos Budas Ditosos", baseada na obra de João Ubaldo Ribeiro. Este final de semana, inaugurou o TCA - Teatro Castro Alves, em Salvador, com a presença da Primeira-Dama do Brasil, Janja e com a mesma peça. Se a peça era sensacional, bem como o desempenho da atriz na primeira vez que assisti, agora, mais experiente, e com um Óscar super merecido, está ainda melhor. Incrível dramaturgia sentada numa cadeira por duas horas, cativando tudo e todos, com pequenos gestos, mas com uma maestria inigualáveis.
O Bug Latino, como sempre, desde 2017, tentou obter ingressos para as duas jornalistas, para fazer uma matéria sobre o espetáculo, mas, como sempre, não conseguiu. As produtoras e salas de espetáculo locais, sempre que o espetáculo é mais importante e mais caro, parecem nos ver sempre como novatas, estrangeiras, “outsider” ou “underdog” e a resposta é sempre que não existe mais cota para essa situação. Para nossa imensa surpresa e felicidade, foi mesmo a produtora de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, a Trigonos Produção, que nos concedeu dois ingressos cortesia para podermos assistir e fazer uma matéria. Nunca nos viram, mas bastou olharem para o site, o Instagram e o canal de youtube para entenderem o Bug latino e lhe concederem ingressos – algo tão simples que quem nos conhece desde 2017 não consegue ver ou entender.
No início eu pensava que era por sermos novas na cidade, depois talvez porque somos um meio jornalístico alternativo, depois porque naquele momento pedimos tarde ou não escolhemos a pessoa indicada. Mas, depois de quase dez anos, entendemos. Entendemos esta cidade e seus funcionamentos, suas aberturas para uns, suas impossibilidades para outros. Costumo pensar com alívio que existe a internet e com ela um espaço que nos permite desenvolver o Bug Latino sem necessitar de ajudas, sem sermos abafadas, nem esmagadas pelas chuvas e ventos habituais e sazonais. Ser de fora, será sempre ser de fora, aqui, na cultura e na arte – infelizmente a educação e o esporte também sofrem da mesma maleita. O mesmo meio que se queixa por não ser aceite e por não ser tratado como devia, é afinal, o mesmo meio que não dá espaço aos que chegam - chegar não significa tirar o lugar de ninguém, mas sim, acrescentar, somar, mas acho que eles não sabem disso. Mas as pessoas que fazem isso, também o fazem na vida pessoal - queixam-se de não serem aceites como são, mas não aceitam as outras como elas são e ainda fecham suas portas. Assuntos sensíveis que estão entranhados na sociedade e que custará a desfazer. Principalmente quando não existe vontade de todos de mudar.
As regras são complexas e difíceis para quem não nasceu aqui, para quem não faz parte. Mas quem chega não quer fazer parte dessa forma. Nossa energia é sempre voltada para contribuir, de forma democrática, adequada, com bom senso. Recebemos “Não” demasiadas vezes - olha que o Bug tem um enorme recorde de "nãos", seguidos de “apesar de acharmos que vocês são incríveis” – e a gente continua feliz, calma e seguindo a vida. E no próximo espetáculo desejado, voltaremos a pedir, a pedir e a pedir, porque é assim que se deve fazer – não desistir do que se acredita. No meio desses "nãos", encontramos alguns "sim" que são muito valiosos. Como desta vez, normalmente esses “sim” são de quem não é daqui. Já aconteceu, pontualmente de conseguirmos apoio de um local, de ir fazendo história e caminho, mas basta trocarem as pessoas para voltarmos ao zero. Exemplo: anos a pedir através de e-mails, cortesias para espetáculos, começar a ter aqui e ali cortesias. Muda a direção do espaço e não só deixamos de ter as pequenas cortesias como somos avisadas que “aquelas pessoas já não fazem parte”, como se a gente estivesse a fazer algo errado. E voltamos ao lugar de quem chega, de quem tem de construir a ladeira de novo, mas mais difícil porque agora juntou-se a má vontade. Chega a ser engraçado.
O caminho de cada um, de cada profissional, de cada plataforma, de cada projeto, de cada sonho, é para ser feito, com ou sem apoios ou ajudas. Penso que as pessoas que trabalham em lugares com o dever de apoiar, precisam entender que cada pessoa e cada projeto, tem seu jeito e seu rumo. Não se pode tentar formatar todos para depois escolher os que cumpriram as regras pedidas. Não é possível que se decida dar ingressos, apoios, o que seja, a quem obedeça, a quem se controla ou a quem é conhecido. Não sei se é assim, mas parece. A arte, a cultura e a educação precisam de pessoas que inovam, que não se adequam a essas formatações - mas que tragam experiência, experiência e experiência, senão estamos sempre na fase embrionária e fazendo sempre o mesmo aparente esforço em melhorar. Melhorar o quê, se não existe tempo, nem espaço, nem caminho, nem visão? Se as pessoas são trocadas e as que chegam mudam tudo de novo?
Salvador, cidade que aprendi a amar com todas as minhas forças, à qual dedico todo o meu trabalho e vida, precisas escutar, escutar-te, rever-te. Tem algo de muito profundo que não permite que se avance e que impede as asas desta cidade de voarem com todas as forças.
Salvador, tentas encaixar as pessoas em categorias, em caixas, em ruas. Acabas por deitar fora uns tênis novos só porque estavam numa caixa velha e depois queixas-te que nunca tens tênis novos. Trocas de pessoas ciclicamente, mas não percebes que se não existe algo para continuar, quando trocas as pessoas, é como se iniciasses de novo. Estás sempre a iniciar e nunca completas nada.
Quem vive aqui, ou noutro lugar, é quem decide o que vê, o que fala, o que faz. Nenhuma cidade pode achar que manda nas pessoas e no que elas podem ou não fazer. Não é assim que funciona a vida e quando se insiste nisso, se desperta a agressividade nas pessoas que são abafadas e isso não é bom para ninguém. Tu sabes disso.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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