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“Fatalidades” Bug Sociedade


As mãos do destino trançam sem parar. Parece mesmo que a história é o resultado de coisas que muitas vezes acontecem de uma maneira tão caprichosa e absurda, que a gente vê, mas não realiza dentro da cabeça e da emoção.


Capitólio. Cada um pode falar o que quiser, culpabilizar, acusar. Mas exatamente por quê aquelas 10 pessoas, exatamente aquelas 10, em meio a tantas outras, não conseguiram escapar? Quantas pessoas passaram por ali, passearam, nadaram, tiraram fotos, sem que um pedaço de montanha caísse sobre suas cabeças? Por quê algumas pessoas vivem e outras parecem vaticinadas, escolhidas pelo destino?


Klay Thompson. Jogador da NBA, famoso, maravilhoso, vitorioso. Em um encontrão, dos milhões que se leva no basquete, rompeu o ligamento do joelho. Passa fora mais de um ano e num treino antes da volta, rompe o tendão de Aquiles. Mais de 900 dias – quase 3 anos! – ele responde à fatalidade e volta ao esporte. Ela lhe sopra duas vezes, lhe testa a força – e a reposta em resiliência foi dada, finalmente.


Novak Djokovic. Jogador de tênis. Um dos melhores. Amigo do presidente da Sérvia, que lhe deu de presente uma câmara hiperbárica. Algo tão dispendioso e complexo que no Brasil inteiro devem existir apenas umas 10 ou 15. Pois ele tem uma. Particular. Isso mesmo: uma só para seu uso. Como muitos milhões compram muitos e muito bons advogados, quer descumprir a lei da Austrália, entrar no país e jogar, fazer e acontecer, mesmo sem tomar vacina, que é uma regra por lá. Mas, quando nós olhamos para 5 milhões de mortos de COVID, não vemos fatalidade nenhuma. Vemos descaso e egoísmo. E aí percebemos que uma pessoa rica, muito rica, pode comprar até “fatalidades”, como por exemplo uma segunda COVID, que ele contraiu pertinho de viajar para o Austrália Open. Um tipo de COVID conveniente. Também conveniente a pessoa ver tão pouco ao seu redor que abraça “as criancinhas” – que poderiam pegar o vírus dele mesmo. “ESPARTACUS”! Será?


Aqui na Bahia costuma-se dizer: “Deus tá vendo”. Pois que veja e veja muito bem. Porque, acreditando em reencarnação – já que alguma lógica precisa haver na bondade e só a busca da evolução e bondade justificam enfrentar uma fatalidade. Tem gente que não liga a mínima e tenta envenenar a opinião das pessoas, mas Deus tá vendo. Tem gente que deu permissão ou pelo menos não proibiu aquele pessoal de ir pra Capitólio com a chuvarada que cai em Minas, mas Deus tá vendo. Tem gente que não vê o gigantismo de uma pessoa ao enfrentar 900 dias de dor e trabalho, medo e sacrifício, tanto quanto não vê o apequenamento de outro grande atleta que aprendeu a ser “dono” da vontade de quantos ele quiser. Basta dizer o preço e não interessa a regra, a cultura, o sacrifício anterior de um país inteiro diante de uma doença, mas Deus tá vendo.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Uma embarcação de nome Jesus, com 10 passageiros, familiares, amigos e o piloto, foi atingida por uma enorme rocha que se desprendeu, em Capitólio, Minas Gerais, no sábado, 8 de janeiro. Um local paradisíaco, um dos pontos turísticos mais impressionantes do Estado de Minas Gerais e do Brasil. Os 10 morreram. É aterrador assistir às imagens que circulam nas redes sociais. Quantas pessoas estavam naquele local e apanharam um enorme susto mas se salvaram intactas? Mais de 30 se feriram. 9 hospitalizadas. Quantas pessoas já foram visitar o lugar e vieram felizes? O que decide o nosso destino? Como estas coisas acontecem? Porquê? Elas tentam nos deixar mensagens? Avisos? O que precisamos aprender? A vida tem aprendizagens inusitadas, surpreendentes, assustadoras. Muito duras. Recordar que tudo isto é um sopro, tudo isto é para aproveitar enquanto aqui estamos, para dar muito valor e não dar nada por certo. Quem somos nós senão poeira do universo? Não se dê tanta importância nem se considere superior com seus diplomas, suas propriedades, sua função profissional, sua linhagem. No dia que o universo quiser te levar, levará. Sem pestanejar.


Cheias, inundações. Bahia com mais de 90 cidades atingidas. Minas Gerais com mais de 130 cidades atingidas e com perigo em relação às barragens. Sabemos que a escolha, as decisões de vida, o lugar onde nascemos e a capacidade financeira determinam o lugar onde vivemos e onde moramos. É só isso que determina a diferença entre perder a casa, inundar a casa, perder o que se tem? Não sei a resposta. Você sabe? Como podemos ajudar, prevenir, impedir? Porque tudo isto acontece?


Cada país tem as suas regras e quem os visita ou os habita precisa obedecer. Não tem jeito. Desculpem, não é isso. Não deveria ter jeito. Austrália, particularmente, tem um jeito muito particular de se proteger. Há muitos anos que o faz. Em 2000, por exemplo, uma mulher quis entrar com um tipo de maçãs que só existem em Portugal – maçãs porta-da-loja. Dizia que lhe davam muita sorte e levava para todas as suas competições. Pois na Austrália, suas maçãs foram destruídas bem na sua frente, no aeroporto. A razão? Apenas não entrarem no país outras pragas, outros problemas. Ano 2000. Ela chorou, esperneou, puxou dos seus galões de atleta famosa. Nada adiantou. Um lugar que te ensina duramente que as suas regras são para obedecer. Existem muitas mais situações, bem mais duras do que maçãs. E muitos mais países difíceis de “enganar” ou “convencer”. As regras são criadas para todos, pensamos quando somos crianças. Mas as regras, infelizmente, não são para todos. Isso cria um mal estar social, um cheiro a injustiça e a manipulação, que rompe, corrompe, quebra as relações humanas. Ou então é tudo apenas uma “enorme coincidência”. Segundo notícias, Djokovic apanhou de novo Covid19, em dezembro de 2021. Pela segunda vez. E não é que isso, aparentemente, lhe permite justificar a entrada na Austrália e manter a sua decisão de não tomar nenhuma vacina? Que estranha coincidência! Jogadores como Nadal ou Federer sempre foram confiáveis. Nadal, particularmente, tem uma formação educacional e esportiva invejável. Djokovic percebeu há muitos anos que também tinha de ser, ou de parecer. Mais ou menos na mesma altura que o seu país lhe comprou uma câmara hiperbárica – quando em Portugal, por exemplo, nem existia nenhuma e no mundo havia muito poucas. Emagreceu, mudou a alimentação e mudou radicalmente o comportamento. Antes disso, fazia coisas erradas aos olhos de toda a gente, era inconveniente, indelicado, insuportável – acredito que o YouTube ainda tem algumas dessas situações. Num clique, se tornou outra pessoa. Alguém que faz qualquer coisa, qualquer coisa, para conseguir os seus objetivos. Com um sorriso nos lábios, com gentileza. É o mesmo, não esqueçam. Agora sabe mais. Muito mais. E sabe como fazê-lo. Se um dia se tornar presidente do seu país, não estranhem. Alguns seres humanos parecem achar que controlam as suas “fatalidades”. Enquanto ninguém for capaz de os enfrentar...


Klay Thompson, 32 anos, jogador de basquetebol dos Warriors, na NBA. Rotura de ligamento cruzado anterior, em 2019, rotura do tendão de Aquiles quando já estava voltando da primeira lesão, em 2020. 941 dias sem competir. Recuperação, passeios de barco, pesca, foco. Segunda, 10 de janeiro, 22h30, horário do Brasil, volta, volta bem, física e mentalmente sedento. Como uma criança que finalmente tem direito a brincar o que tanto ama, depois de um longo castigo. Já era um dos jogadores de basquetebol mais impressionantes da atualidade, pela sua velocidade, impulsão, agilidade e uma diversidade de recordes absurdos de triplos, “afundanços”/”enterrada”, recuperações de bola, etc. Neste dia, nos relembra, que não interessa o que aconteça, enquanto estamos vivos é tempo de tentar, sem pensar muito no que representa, na dificuldade que é, no impossível que parece. É o que você deseja? Lute enquanto vive. Lute muito. Com cuidado, com parcimônia, com sabedoria e sem pressa. O que é seu tem o seu tempo. Um momento muito emocionante assistir ao seu retorno, ver a sua felicidade, sua entrega e ver seus colegas e treinadores felizes ao mesmo tempo que o cuidavam, protegiam. Lindo e inspirador!

Ana Santos, professora, jornalista

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