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“CADA UM É CADA UM" e“Amadurecer” Bug Sociedade

“CADA UM É CADA UM Bug Sociedade

 

Há uma comunidade no Rio De Janeiro que se chama Vila do João. É bem antiga, creio que ela nasceu em homenagem ao vil general João Batista de Oliveira Figueiredo – último verme ditador do Brasil. Um que, diante da pergunta sobre se gostava do cheiro do nosso povo, apenas respondeu: Prefiro o cheiro dos cavalos. Bem, foi nessa comunidade que uns bandidinhos do tempo antigo “separaram” pra me dar um par de bancos Recaro. Um presente.

Na hora me veio o frio na espinha. Como vou dizer que não trabalho no eixo “produto de furto ou roubo é cabrito e não presente”?

Resolvi dizer a verdade. Falei que a deficiência – a honestidade – era minha e não deles. Pedi desculpas, disse que me sentiria muito mal, se aceitasse algo sem saber de onde vinha, mas que a nossa amizade continuava.

- É, doutora... tudo bem... cada um é cada um e a amizade continua...

Os anos mostraram que cada vez menos homens pedem desculpas por não aceitarem “cabrito”. Aceitar suborno, propina virou lugar comum. Ouvir “aqui é assim”, “a senhora precisa se ‘comunicar’ comigo” apontam que o antigo banco Recaro – banco de carro alemão - evoluiu para Banco Vorcaro – produto brasileiro – mineiro – de primeira linha, capaz de envolver autoridades de norte a sul do Brasil.

Eu olho na direção do tempo e a linha mestra continua exatamente igual – linha da minha mãe, claro: Eu gosto de deitar a minha cabeça no travesseiro e não ter vergonha de dormir.

Cruzamos todas as fronteiras criminosas com autoridades que deveriam ter orgulho de nos representarem e que trocaram o orgulho, a brasilidade, por jatinhos, paraísos fiscais, benesses, chantagem. Teriam tido mãe? Pai?

A mãe de um traficante, vendo o adolescente algemado, sentado no camburão, bate nele, chorando: “foi isso que eu te ensinei”? “Tantas noites em claro pra isso”?

Eu olho o Vorcaro preso, as camisas perfeitas, os bilhões, noites de whiskies privê, a falta de valores tão enorme que ele precisou ter, comprar coisas e pessoas cada vez mais caras para compensar o vazio da sua existência ardilosa, vil, bandida. Imundo por dentro, com senadores, deputados, diretores.

Cadeia para os vis. A solidão da consciência, se é que existe nele algo assim. Cada um é cada um. Fim de linha. Isso porque os homens e seus brinquedos abjetos de poder não se perguntaram o que sua mãe lhes ensinou – ou pior – eram sem princípios de pai e mãe. Filhos morais de chocadeira.

Cadeia. Apenas cadeia. Ninguém pode votar em ninguém assim.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Amadurecer” Bug Sociedade

A vida é o que é.

Ou é o que tem de ser.

Ou é feita para nos ensinar.

Ou não existem palavras para os caminhos que ela fecha ou abre. Ela te dá tudo, ela tira-te tudo.

Mas, é ela?

E se você estiver uma vida inteira insistindo que é necessário mudar, ou algo de ruim pode acontecer, e ninguém te ouve, até essa coisa ruim acontecer? Foi a vida que foi a causa do problema? Ou você passa os dias dizendo que precisa mudar algum comportamento, mas não muda nada, ou não pretende mudar nunca e se queixa de que o mundo é que está errado e um dia chega a “conta”? É a vida a causa?

Conheci uma menina, bem pequenina, que amava ser chamada de doutora. Fumava mais tempo do que respirava. Não admitia nenhuma restrição – não se pode fumar aqui, se não se importa não fume neste local, etc. Não obedecia a nenhum desses pedidos e ainda considerava que as pessoas estavam sendo muito “desagradáveis” com a “doutora”. Um dia para impressionar “alguém”, parou de fumar e passou a correr mais do que qualquer pessoa. Virou uma “atleta”. Legal, que bom. No entanto, ambos os momentos – em que fumava e em que deixou – são carregados de sentimentos de rancor, de despeito até, com olhares de superioridade. Quando fumava, ria de quem caminhava, de quem corria. Agora ri de quem fuma de quem engorda. É a vida a culpada?

Um excelente profissional, o professor e engenheiro norte-americano Robert William Kearns, que trabalhava na Fiat, em 1964 inventou a pausa do limpador de para-brisa – baseado no olho humano que pisca e descansa. A fábrica afirmou que a descoberta era deles, já que ele era seu funcionário. Durante décadas esse cara processou, insistiu, perdeu o emprego, a mulher se separou dele por não aguentar mais sua teimosia. Seus filhos foram se afastando, daquele pai tão teimoso, que destruiu sua vida e de toda a sua família. Era o maluco teimoso. Após décadas de processos, venceu a disputa legal contra as gigantes dos automóveis e ganhou indenizações milionárias. Aí todos os que o criticaram, voltaram se fazendo de amigos, incluindo sua ex-mulher.

Temos tendência para achar que tudo o que fazemos é mais certo e que o que os outros fazem é sempre menor. A vida vai seguindo e nos mostrando que não é bem isso, mas não queremos ver. Por que não queremos ver?

Temos um vizinho que gosta muito de festa e é mais gordinho do que gostaria. Fica chateado quando alguém emagrece e ele não consegue. Tenho muita vontade de lhe dizer que se deixar de beber o que bebe, emagrece na hora, mas ele não quer ouvir isso. Temos um outro vizinho, bem velhinho com problemas de equilíbrio e de coordenação, que diz que o seu cardiologista autoriza que ele beba whiskey todos os dias antes do almoço. Eu me pergunto se o médico disser para ele tomar arsénico se ele toma. Enfim. O vizinho que mais me preocupa não é nenhum destes, nem a que fumava e agora é a “mais atleta”. E adoro saber como terminou a história do cara da Fiat.

O que me preocupa é o vizinho a quem pedimos há anos para podar a árvore que pode cair em cima da nossa casa ou em cima de crianças que passam para a escola. O mesmo vizinho a quem pedimos para tratar do esgoto a céu aberto que seu prédio luxuoso tem. As pessoas que vivem e circulam em volta desse prédio estão tendo dengue, dengue hemorrágico, mas mesmo assim, não adianta nada.

O que faz mudar um ser humano? O que faz melhorar um ser humano?

O que é amadurecer?

Por que se amadurecer é ser surdo, mudo e cego para as preocupações de saúde e bem-estar suas e dos vizinhos e familiares, não quero amadurecer.

Se amadurecer é enganar por décadas as pessoas que dizemos gostar, não quero amadurecer.

Se amadurecer é dizer que amamos, gostamos, respeitamos, mas nas costas das pessoas, tratamos mal, exploramos, nos aproveitamos, não quero amadurecer.

Se amadurecer é não tomar vacinas e ainda olhar para as pessoas que tomam vacinas com cara de “coitadas destas pessoas”, não quero amadurecer.

Não quero! Ponto.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


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