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“ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM MUNDIAL” Bug Sociedade


Catherine Leroy

“ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM MUNDIAL” Bug Sociedade

Algumas músicas são como profecias. Como a maldição de Cassandra que adivinhava o futuro com precisão, mas em quem ninguém acreditava.

Quantas vezes ouvimos que o planeta estava vivendo uma pré-emergência climática e que, em data próxima, nada adiantaria? Ouvimos e isso virou para a direita algo como “mimimi” e para a esquerda encontros, simpósios e fóruns, mas nenhuma proibição, nenhuma ambição ambiental surgiu.

O que aconteceu no Sul do Brasil, certamente seria uma hecatombe se acontecesse em São Paulo, Rio ou no Centro-oeste, Norte/Nordeste porque as condições do Sul são muito melhores. Eu morei na Serra Gaúcha e passava na Ponte do Rio das Antas – esse mesmo que inundou os outros rios. Não existem casas precárias porque o frio não as permite. Os costumes são muito europeus, há porões onde se guardam ferramentas e vinho, muitas vezes. As casas são altas.

Isso me leva a uma palavra que também está nas coisas fora da ordem: exponencial. Risco exponencial é quando aquilo que já tínhamos visto sobre uma coisa, se multiplica descontroladamente, ao ponto de perdermos a capacidade de avaliar o quanto pior pode ficar. Nenhum governador pode nos dizer que não foi capaz de imaginar um desastre ambiental porque eles precisam planejar o que fazer para evita-lo e como nos salvar, nos escoar, nos abrigar e alimentar. Dizer que “Deus não quis ou se Deus quiser” é inútil, depois da destruição que empreendemos ao planeta por décadas consecutivas. De outra forma: Deus sempre quer o nosso bem, mas muitas vezes ele depende de nós para ser construído.

Aqui mesmo, em Salvador da Bahia, não separamos o lixo – ainda. Nem as latinhas. Nem o lixo orgânico, do inorgânico. Nada. Como não fazemos rigorosamente nada, jogamos pra cima de Deus – Ele que se vire. Na hora de votar, ninguém pensa em qual político planta as árvores salvadoras, quem replanta as matas ciliares, quem tem um plano para a Amazônia e Pantanal. Não. O que vemos é a troca sistemática de mulheres dedicadas por homenzinhos como o “Fufuca” – que poderia ser o vizinho engraçadinho, se não tivesse tomado o lugar de Ana Mozer. Marina Silva, Sonia Guajajara tiveram que assimilar o jeito de agir do gênero masculino – inigualavelmente interesseiro, já que afinal, a eleição de prefeito precisa de verba, bufunfa, grana – ideal é coisa de “mulherzinha”.

Pois é. Eu também faço parte dessa “coisa de mulherzinha” e muitas outras de nós também. Nós do gênero feminino, reunindo cis, trans e todas. Não quero ver a cara lavada de nenhum homem dizendo que foi surpreendido pela natureza porque não houve surpresa nenhuma. A única surpresa é que ninguém mais está disposto a aceitar Deus como o culpado disso. E nós, que pensamos como “mulherzinhas” estamos mesmo exaustas de aguentar destruição e desculpas. O governo passado destruiu a natureza o mais que pôde. Ainda no fim de semana, o ex ministro de meio ambiente, que nos deu veneno em cápsulas de agrotóxico, comprava alimentos orgânicos para si – e se bobear do MST!

Então, como Cassandra, eu sei que o Brasil inteiro, por causa dessa desculpa esfarrapada de “meu Deus me ajude, que eu não faço nada”, não está preparado para clima extremo e vai ter que improvisar - e muita gente vai morrer porque os políticos ainda estão cimentando as pracinhas ao invés de plantar árvores, estão criando viadutos e BRTs onde antes havia bosque, e ainda não têm respostas satisfatórias sobre o que fazer com o lixo, enquanto nós, aqui em Salvador, nem separamos as latinhas ainda! É como um delírio, um pesadelo. Alguma coisa está muito fora da ordem mundial, com árabes dando presentes que deveriam ficar “escondidinhos”, quando sabemos que a Arábia quer empurrar combustível fóssil pela goela do mundo, mesmo que ele acabe! Mesmo que a morte seja terrível, inimaginável, exponencialmente destrutiva, há diamantes! Que estão comprando o quê?

Mas os executivos – homens – seguem falando que pagar imposto sobre grandes fortunas é colocar ricos contra pobres, quando sabemos que nessa conta, os pobres pagam muito mais, enquanto os ricos podem fazer lobby – de preferência com os políticos. Todos homens, todos brancos.

Alguma coisa está fora da ordem, senhores – seriam vocês?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Helicópteros rondando” Bug Sociedade

Marraquexe, um paraíso exótico e mágico da culinária, da música, da arquitetura, de arte e cultura, que estimula a nossa mente a fantasiar histórias das mil e uma noites, desta vez marcará tristemente e para sempre quem viveu e sobreviveu a este brutal terremoto/ terramoto. Quase todos os sobreviventes portugueses referem a assustadora sensação de pequenez perante a natureza. É horrível quando percebemos essa grandeza da natureza pelas piores razões.

Rio Grande do Sul. A assustadora insistência de ciclones extra-tropicais. Ventos de 100 quilômetros por hora. Rio Taquari subiu dezenas de metros, um rio que tem 13 metros de profundidade habituais. Tudo muito: muito rápido, muita água, muita destruição. Os pedidos para as pessoas subirem aos telhados se tornaram insuficientes devido à altura que a água chegou. É realmente assustadora a nossa pequenez perante a grandeza da natureza. Somos pequenos. Poeira.

Há várias semanas que o local onde vivemos tem helicópteros sobrevoando, de manhã, de tarde, de noite, com policiais de metralhadora em punho, observando e controlando quem anda na rua. Rajadas de metralhadora de traficantes a meio da tarde. O perigo não está só na televisão. Está pelas ruas onde se caminha, colocando em risco sua vida e a vida de muitas pessoas que conhece, gosta e é amiga. Mortos, sequestrados. Tudo nos faz sentir muito pequenos. Tudo muda num instante.

No mesmo momento em que Coco Gauff, tenista vencedora do US Open deste ano é venerada e bem, Tiba al-Ali, youtuber iraquiana que vivia na Turquia, foi assassinada pelo pai por ele não tolerar sua independência. Vai visitar a família, depois de ter saído do país com 17 anos e a prenda (presente) que recebe do pai é essa. O que é isso? 5 mil mulheres são assassinadas por ano, pelos chamados “crimes de honra”. Honra... A intocável honra dos homens, independentemente do que façam. Que cansaço...

Domingo, Novak Djokovic venceu o US Open, vencendo o seu 24º Grand Slam e eu continuo a ter muita dificuldade em sentir um pouco da admiração que senti por Roger Federer, Rafael Nadal, Björn Borg, Ivan Lendl, Pete Sampras, Martina Navratilova, Andre Agassi, Steffi Graf. Tem algo muito errado na forma como trata em público o seu time, como encena um vitimismo infantil ou uma fadiga ou lesão sempre que está perdendo, como busca o sucesso. Uma raiva ou rancor dissimulados de gentileza balofa, sorrisos amarelos. Não me conquista. É um péssimo exemplo para estimular crianças e jovens nessas questões. Lutador, persistente, trabalhador, as palavras perder e desistir, não existem no seu vocabulário. Isso tem muito valor, mas também não existe para ele a palavra generosidade. Nunca existiu. E hoje quis conquistar o povo americano com um discurso de vitimismo de novo e com uma homenagem a Kobe Bryant, e à sua Mamba Mentality. Respeito Kobe e seu Mamba, mas também não é um exemplo muito saudável. Ambos, Djokovic e Kobe, são pessoas que poderiam ter dado muito errado se não fosse o esporte. Parabéns ao esporte e a seus pais e treinadores. Foram e são heróis de muita gente, porque em determinado momento das suas carreiras perceberam o jogo dos recordes, dos rituais, da fama, do sucesso, do "brand" e mergulharam nessa busca. Mas todas as mulheres recordam a acusação de estupro que poderia ter dado prisão perpétua – a Kobe Bryant – a estranha desistência de acusação da funcionária do hotel e a patética figura que Kobe fez na conferência de imprensa sendo obrigado a pedir desculpas à mulher e fazendo a declaração de amor mais bizarra e conveniente que já ouvi alguma vez na vida. Era bom ensinar Djokovic e ter ensinado Kobe as 55 regras essenciais de Ron Clark. Mas como ouvi um dia um homem justo falar, os homens que querem fazer coisas erradas, primeiro as fazem a “céu aberto” mas depois de entenderem que nem todas as pessoas acham isso bom, fazem no “escurinho do cinema”. Nunca deixam de as fazer. Não mudam, mudam a forma como as fazem.

O que nos aconteceu? Dará para fazer um “ponto de restauro”, nos humanos, nas sociedades, na natureza, como no computador? Dava um jeito...

Lá vem o helicóptero de novo. Hora de recolher.

Ana Santos, professora, jornalista

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