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“As Idosas” Bug Sociedade


VELHA SIM

“Tá ficando velha!”. Essa palavra – velha – persegue a mulher desde criança. De ouvir “tá ficando uma mocinha” com 5, 6 anos, passamos ao pânico dos pés de galinha, da gordura localizada – rapidamente, “isso” é o início de ser velha.


Eu tenho poucos pés de galinha e rugas ainda mais rarefeitas – benefício de ser fonoaudióloga e viver fazendo mil exercícios de músculos faciais – mas não escondo meus 60 anos; tenho plaquinha que coloco no estacionamento do mercado e tudo.


O que significa envelhecer para uma mulher? Não ser mais desejável? Mas ocorre a mesma coisa com os homens... Os homens continuam buscando as gostosas mulheres-objeto? Uma pessoa que só quer mulher-objeto de 20 anos me interessa quando abre a boca ou precisa virar um ser objetal – em outras palavras - mudo?


Minhas maiores vaidades são mesmo cerebrais, penso eu... principalmente meu senso de humor, que amadureceu tanto que não sou mais capaz de aguentar piada grosseira, sem me aborrecer com a estupidez.


Começar a me ver como velha é criticar com mais mordacidade, sair do fundo das filas, chorar, brigar, exigir, mas fazer tudo isso com extremo respeito humano. Ao contrário do que diziam as “peruas e patricinhas” mulher velha é uma coisa ótima. Libertadora. Barriga meio balofa e cérebro de “tanquinho” é ótimo pra mim. Me satisfaz totalmente.


O que a sociedade inventou sobre ficar velha é mentira, meninas. Ruim é esticar a cara e continuar com a cabeça oca. Portanto, aproveitem a idade adulta para se lotarem de conhecimento e de cultura.


Um belo dia, a menopausa fica pra trás, você foge dos calores horríveis e finalmente encontra – talvez – a verdadeira liberdade. Olha na cara do mundo e consegue afirmar: “Não existem heróis, idiota! O herói – a heroína – é você mesma!”


Ponha valorosamente a sua máscara e despreze publicamente ao idiota que “desmascara” a sua própria estupidez. Não envelheci com a COVID. Não deixei de pintar o cabelo, não deixei de fazer a unhas por causa dela. Apenas minha prioridade sempre foi olhar o mundo nos olhos ao invés de fazê-lo de “espelho, espelho meu”. Sou velha por dentro há muito tempo. Bem, agora as linhas se encontraram. Contra as caixinhas sociais – sou velha sim, e daí?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


As idosas do século XXI são surpreendentes. Não vivem olhando a data de nascimento. Os anos de vida são anos de experiência. Não estabeleceram desânimos, nem despedidas. Libertaram-se de medos. Estão bem presentes no mundo, bem ativas, bem conscientes do que são capazes e do que é bom para si. Talvez seja esse o seu grande passo – saber quem são, o que querem e sentirem-se independentes da opinião alheia.


São mais discretas nas casas onde vivem, nos carros que compram, usam roupas mais calmas e mais confortáveis - vestem-se para si. Mas tudo isto é tratado com muito carinho e cuidado. A decoração da casa tem significado pessoal, não é copiada da foto de uma revista. Vivem para si. Têm um olhar que carrega experiência, dor e sofrimento, mas também uma luz e um brilho de juventude infindáveis.


Seu corpo é seu santuário, como sua casa, como seus amigos - poucos. Não são de muitas conversas, são de observar e admirar, de agradecer, de aceitar. São donas de si. Os outros são os outros e estão em segundo lugar. Sem culpa, sem dor, sem descuido por ninguém. Porque cuidam muito bem dos outros, sempre cuidaram.


Preocupadas com a natureza, com a sustentabilidade, amantes da cozinha enquanto lugar de amor e de conversa.


Para elas um livro “sabe melhor” que um bom vinho. Uma conversa “sabe melhor” do que um prêmio. Flor de laranjeira perfumando os campos na primavera vale mais do que jantares de gala. Um pôr-do-sol em solidão e silêncio é saboreado como uma prenda do Universo.


Não olham para o que perderam, mas para o que ainda podem fazer. Não interessa a quantidade mas a intensidade. A futilidade é vazia e elas buscam pequenas coisas, mas muito intensas. Na verdade, tudo o que não é visível é onde elas prendem o olhar e a dedicação.


São seguras, estáveis, charmosas, tranquilas, admiráveis. E têm encantos delicados como as rugas das mãos e da cara. Afinal tatuagens entregues pela vida.


Muitas já perderam filhos, maridos. Passaram o “cabo das tormentas”. Parecem exagerar no sofrimento, para quem não sabe o que é sofrer. Mas acreditem, elas mostram muito pouco do que sofrem. E quando conseguem sair da escuridão, vemos a própria vida e o seu significado e nos agarramos à sua luz e seguimos. Porque elas ensinam sem falar, elas abraçam sem tocar, elas movem o mundo com o amor que entregam nas suas ações. E elas andam por aí, perfumando e salvando o mundo, sem as vermos.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagino duas mulheres. Imagino que são irmãs e que tiveram, elas próprias, outros irmãos. Rapazes, os outros. Para que o cenário seja menos abstrato, acrescento que eles eram três. Por esta ordem: uma rapariga, um rapaz, uma rapariga, dois rapazes. A mais velha das irmãs tem atualmente 78 anos. A outra tem 74. Os irmãos andarão entre os 61 (houve um que já nasceu fora de tempo) e os 76.


Toda a vida destas mulheres foi moldada para que se dedicassem a cuidar de outrem. Começaram de pequenas, ainda na casa materna, a cuidar dos irmãos mais novos. Na escola primária, aprenderam a bordar, a coser, a cerzir. Na cozinha da família, aprenderam refogados, compotas, como fazer render os ingredientes quando o sustento era pouco. Aprenderam a vincar calças, a engomar camisas, a corar a roupa branca. Aprenderam como se senta uma senhora. O que pode e não pode dizer. Como deve receber as visitas. Da escola, para além dos lavores, souberam somar e dividir, escrever com caligrafia floreada e algumas outras coisas que, de nunca usadas, mais tarde esqueceram. Não cultivaram o gosto pela descoberta, não leram sobre aventuras, não se maravilharam com artes abstratas nem com maravilhas científicas. Ninguém lhes disse que deviam ter opiniões. Nem questionar. Nem sequer votar, para quê entender as políticas. Mas fizeram-se donas de casa exemplares.


A mais velha casou. Cuidou desse marido, que foi preparada para servir. Depois, dos filhos e os netos. Os irmãos também casaram. Convidaram a mais nova para madrinha, enquanto, ela própria, aguardava o marido que não chegou. Solteira, ficou com os pais, acompanhou o alzheimer da mãe e as tromboses do pai. Embalou e aturou birras aos sobrinhos.


Durante anos e anos, abdicaram de si próprias. Não tiveram outras aspirações que não aquelas que lhes disseram que deviam ter.


Fizeram papas, emplastros, açordas. Foram cozinheiras, enfermeiras, professoras, tantas vezes ilusionistas. E, outras tantas, fecharam os olhos, calaram a boca, fizeram-se cegas.


A mais velha ficou viúva. Os pais partiram, na velhice adoecida que os tolheu. As irmãs, permanecem. Ainda têm bons anos pela frente, dizem as estatísticas. São saudáveis. Uma ou outra artrose, ligeira arritmia, não abusar nos açucares. Estão bem. Não há porque preocupar.


E agora?


Agora, procuram nos cantos da casa afazeres com que encher os dias. Agora, as horas que nunca tiveram para si, sobram de todos os relógios e elas pegam no telemóvel que os filhos ou sobrinhos insistem que elas precisam (para se acontecer alguma coisa, mãe), mas sabem lá eles o que elas precisam, e não chegam a ligar-lhes porque sabem que, para eles, as horas são sempre poucas. Agora, que têm tanto tempo, podiam cuidar um pouco de si próprias. Mas, curiosamente, isso ninguém lhes ensinou. Entre as exigências dos pais, do marido, dos filhos, nunca ligaram a uma amiga, para um chá e dois dedos de conversa. E agora, a lista de contactos no telemóvel resume-se a números úteis, contactos de emergência, onde o filhos, sobrinhos e netos se incluem. Só que elas, não tendo uma emergência, pousam o telemóvel. Ou ligam para a mercearia, a fazer uma encomenda (que disparate, tia, para que foi pedir mais legumes? Ainda tinha tantos), mas se a merceeira estiver bem disposta ficam cinco minutos à conversa e às vezes é a única voz que ela ouve durante o dia. Põem o televisor demasiado alto, para fingir companhia. Não lhes ocorre, sequer, que têm uma irmã, igualmente desamparada. De tanto se habituarem que não precisavam que as cuidassem, não lhes ocorre, sequer, cuidarem uma da outra.

Cláudia Quaresma, convidada

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