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“As abelhas e a natureza” Bug Sociedade


Foto de Vera M. L. Souza

“AS ABELHAS E A NATUREZA – HUMANA”

Durante a semana, lá estão os dias da natureza e das abelhas – ambos em frangalhos e moribundos por nossa causa. Não que nós tenhamos destruído ambos para gerar ciclos de riqueza pra nossa própria raça; basta ver as pessoas num caminhão do bairro da Glória, no Rio, “pescando ossos com as melhores pelancas, nervos e gorduras” – um espetáculo dantesco, abusivo e inaceitável.


Os inseticidas estão matando as abelhas. Não algumas, mas as abelhas – sim, as abelhas do mundo podem acabar por causa do nosso uso indiscriminado de defensivos agrícolas – aos quais quero explicar, definir.


Defensivos são os “nomes estepes” que os agricultores brasileiros colocaram nos venenos. Aqueles das caveirinhas na capa, que também sumiram. Isso mesmo: para nos enganar, trocaram a palavra veneno – que todo mundo conhece e sabe bem o que quer dizer – por “defensivo”. Parece que defendem a planta da praga - mas é mentira. Matam tudo ao redor da planta – até você, que coloca o defensivo - menos ela.


Claro que a natureza, no dia dela, mostra o resultado do “embelezamento” das palavras que usamos: assistimos em choque à aceleração do calor no mundo, a falta de chuva, a morte pelo calor e pelo frio, os tornados e terremotos e enxurradas e vulcões e ursos morrendo afogados porque o gelo da Antártida está derretendo, as onças morrendo queimadas no Pantanal, a Amazônia em chamas e a Greta, coitada, tentando feito doida colocar meio juízo que seja na cabeça dos adultos. Todos falamos menos uns com os outros, com exceção da enorme quantidade de abobrinhas que trocamos nas redes sociais, coabitamos espaços que não queremos compartilhar, expulsamos os retirantes e também os negros, as mulheres, os gays, os trans, os velhos e, principalmente, os pobres – estes podem ser de qualquer lugar do mundo, qualquer crença ou credo. Apenas o mundo parece não querer conviver com eles, ao mesmo tempo em que lhes tira toda e qualquer possibilidade de sair do estado de miserabilidade.


Ah, as abelhas. O que elas fizeram ao mundo para serem dizimadas? Trabalharam, são organizadas e possuem um sistema de linguagem muito sofisticado. Claro que não como o nosso, que ocupa as áreas mais nobres do nosso “nobre cérebro”. Elas nos atrapalharam no momento em que estavam polinizando as plantas, flores e frutos que comemos? Bem, deve ser porque elas trabalham para nós e são perfeitas – assim como aqueles besourões pesados – ah – que também morrem com os venenos – oops, não, venenos – “defensivos”.


A linguagem sofisticada das abelhas continua privilegiando a comunicação; não nós. Mal nos falamos. Quando muito, reclamamos. Há uma engenharia estranha que nos fez mestres em passar a perna uns nos outros com palavras bonitas, desmerecendo o trabalho de quem não queremos que “ascenda, num ambiente econômico onde novas vertentes na discussão do direito do trabalho são necessárias porque o mercado se ressente” – ou, traduzindo: tem que se estabelecer novas regras pra explorar mais o trabalho, sobretudo dos pobres. Aliás: pra quê eles aparecem sempre pra desorganizar as equações, hein?


... E assim como as abelhas e a natureza, lá estão os pobres e a nova palavra – aporofobia: fobia a eles – os pobres – englobando os turcos, afegãos, brasileiros, peruanos, russos, indianos, chineses, cubanos e todos mais do mundo dos sem grana - odiados pelo mercado ou economia ou qualquer novo termo, já que o povo rico adora consumir palavrinhas e termos idiotamente incompreensíveis em essência como “globalização comunista” – termo usado pelo multimilionário de pensamentos medíocres que vimos na CPI, esta semana.


Na semana das abelhas e da natureza, deixo uma pergunta que me angustia: Será que os novos bobos que ainda acreditam em ideologia, sendo da classe média, vão sobreviver ao apetite dos ricos, milionários, bilionários que não têm escrúpulo em pagar robôs pra inventar Fake News que seus seguidores obtusos consomem loucamente? Cegamente? Se a contrainformação passar a ser sobre quem conseguiu fazer mestrado e doutorado, por exemplo, mas ainda é classe média, como será? Ou alguém tem mesmo a ilusão de que estamos protegidos contra os gabinetes trevosos?


Bzzz, Bzzz. Somos todos abelhas...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“As abelhas e a natureza” Bug Sociedade

Dia 3, dia nacional da abelha, dia 4, dia da natureza. Eu queria ser criança e acreditar que o mundo é perfeito, lindo e justo, que as abelhas são felizes e a natureza está equilibrada. Mas sou adulta e como todos os adultos, já percebi que isso não está a acontecer. Dói quando percebemos que nós, adultos, somos os principais culpados. As abelhas não são a causa do ambiente estar mudando radicalmente, nem são a causa do mundo delas, e elas, estarem em vias de extinção.


Somos tão inteligentes, tão talentosos, criativos, mas atrapalhamos e destruímos o que construímos porque perdemos o foco coletivo, o interesse em ser junto, em partilhar, colaborar. Engraçado isso. Quanto mais inovamos, mais estragamos e mais sofremos. Existe aqui uma falta de modéstia? Um egoísmo patético? Uma falta de cuidado? Uma gula que não nos permite fazer apenas o correto e o adequado?


Uma das abelhas operárias que decida começar a roubar um pouquinho de mel para ganhar mais dinheiro, vai quebrar o sistema. De onde viria essa vontade de tentar ser mais do que é, do que tem, do que está a fazer? E porquê? Sente-se menor como está e como é? Alguém a inferioriza e ela fica afetada e acha que essa roubada vai valorizar a sua vida de abelha e aumentar o respeito dos outros? Onde ela aprendeu que isso é certo? Porque ela decide que quebrar o que é equilibrado e deixar de pensar em comunidade é a resposta?


Começando a viver fora da colmeia, numa casa com piscina, sauna, lagos, lagosta, champanhe, festas,...ter um Mercedes para ir para a colmeia todos os dias trabalhar, faz dela melhor? Mais respeitada? O que faz um ser humano ou uma abelha querer mudar o que é bom pra todos em busca de satisfação material e individual? Sem se preocupar no quanto vai danificar a vida dos outros, o lugar onde vivem, a natureza, o planeta terra? E depois chorar porque o seu mundo está acabando? Ou culpar os outros? Ou se puder, começando a procurar outro planeta para estragar e fugir do que já estragou?


Greta Thunberg aponta demasiado blá, blá, blá, nos que têm a “chave na mão”, nos que podem reverter este caos. Esta menina é como a luz vermelha que pisca, avisando do caos.


Vulcões acordando enraivecidos, tempestades surgindo do nada, placas tectónicas se movimentando com mais regularidade ao ponto de provocarem tremendos danos, os raios de sol virando perigo grave na nossa pele, vírus com ambientes propícios para se desenvolverem, o ar cada vez mais poluído, doenças de pele, doenças respiratórias, doenças autoimunes, déficit de vitamina D generalizado, problemas de tiroide em quase todas as mulheres do mundo. Cada vez o calor está mais quente, cada vez o frio está mais frio. Quando chove é desproporcional e trágico. Quando não chove também.


Onde está o mar que tinha peixes e agora tem plásticos? A areia da praia que tinha conchinhas e agora tem dejetos, preservativos, seringas? Onde está a terra pura e cheirosa que agora tem mais lixo do que nutrientes? Lixo no espaço, nos Himalaias.


O que dizemos a uma criança ou adolescente quando termina de brincar e deixa o seu quarto todo desarrumado, todo sujo, todo degradado? Essa talvez seja uma das portas.


Muita gente tem tentado ajudar, é gente que pensa na gente, mas não chega alguns fazerem. É bom, mas não resolve. E estamos neste impasse. Os pequenos, bem pequenos, fazendo enormes esforços para contribuir e os poderosos falando que vão fazer. Blá, blá, blá. Não vão fazer. Não estão fazendo. Estão dizendo que estão fazendo.


Um terço do que é produzido termina no lixo. Bem do lado pessoas que não sabem o que vão comer daqui a uma hora. Como é possível? Quem tem muito ou até demasiado não sente ímpetos de colaborar, partilhar, dividir?


Quanto tempo por dia cada pessoa utiliza para pensar no que pode fazer de bem pela humanidade? Me pergunto se as gerações mais jovens não estão a ser formatadas para apenas pensarem no seu sucesso individual, em prêmios, na riqueza. Objetivos discutíveis mas mais do que isso, individuais. Somos um coletivo. O que adianta uma cidade, com shoppings e hotéis de luxo que têm caixotes do lixo com separação de vidro, plástico, papel e lixo comum, se no resto da cidade, vai tudo junto e nada acontece? Em 2021 cidades onde o vidro vai junto da casca de banana, junto da lata de atum, do lixo dos banheiros, de garrafas de plástico.


Será que as abelhas dão cursos online? Gratuitos? Dava jeito. Às vezes dá muita vontade de ser abelha e de poder falar com elas e pedir ajuda.

Ana Santos, professora, jornalista

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