“APEGOS NÃO MUDAM PERDAS” e “Melhor versão” Bug Sociedade
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“APEGOS NÃO MUDAM PERDAS” Bug Sociedade
Ali estavam todos velando, cada um, a sua perda. Dani havia perdido o emprego e se achava injustiçada porque havia cumprido com folga a todas as metas da sua empresa. Saiu, pulou de um trabalho pra dois, virou uma Diva da internet, sinônimo de notícia bem dada. Sua empresa, toda multi, toda pop, caiu ladeira abaixo. Mas na hora da demissão vem o apego, o medo porque a gente não vê o futuro.
Alguém perdeu o namorado, alguém sofreu um golpe na internet, alguém foi assaltado. Nada disso pode ser devolvido com a sensação de perda. Alguém assinou o divórcio – não é uma idiotice absurda alguns homens ensinarem na internet que o ex deve matar, esfaquear, ofender, ameaçar? Ele deixa de ser o ex, esperando provar que é homem – mas vira assassino mesmo. Aquela coisa baixa que vai passar anos e anos nas masmorras que os deputados nunca melhoram; aquela coisa fétida, cheia, superlotada do sistema prisional. Deixou de ser ex, pra virar presidiário – que fraco gosto, hein?
Se apegar a uma coisa, não muda a perda. Não sei como existem tantos homens, tantas pessoas que não encaram essa realidade de vida. Podemos recomeçar, mas isso não é obrigar o tempo a parar, nem o dominar.
Bater no carro da frente, avançar o sinal e ser multada, ter a carteira furtada no Metrô cheio, perder o celular. Tudo isso acontece, as pessoas sofrem, mas o fato se impõe. Não podemos nos impor diante de fatos assim, é impossível. A gente se reconstrói enquanto economiza para comprar de novo, ter de novo. Viver é isso. Aprender a viver significa que há provas onde a gente se dá bem e outras chumba. Afunda.
Por que os homens não entendem que a Dani também sofreu, que a Maria chorou o celular perdido, que a Sara teve que pagar o conserto carro e que ele, o homem, chora pela namorada que terminou, mas segue a vida, arruma outra? Ou não – vira padre, monge budista, crente? Apenas a vida lhe mostra que há sempre como aprender a ganhar e perder, mas que o importante é aprender que a vida segue com ou sem o emprego, a namorada, o carro, o celular, a carteira, o IBOPE.
A vida segue. Quem tenta aprisionar a vida, acaba presidiário, se vendo no momento em que matou, feriu, deformou, olhando na cadeia para tantos homens que se sentem maiores, mas estando todos no meio das baratas e dos ratos, amontoados, sem poderem fugir, como insetos, pragas.
Mais uma vez: A VIDA SEGUE. Deixem ela passar.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Melhor versão” Bug Sociedade
Sempre me questiono como vive e sobrevive quem não tem um trabalho que lucre com estes eventos e datas. É uma loucura tudo isto - festas juninas, Rock in Rio em Lisboa ou Rio de Janeiro e todos os festivais intermináveis e, para culminar, a Copa do Mundo.
Sempre me questiono como as pessoas escolhem pagar ingressos caríssimos para estar de pé por horas para ouvir uma pessoa cantar por duas horas, ou várias pessoas a cantar durante umas 6h.
Sempre me questiono por que as pessoas querem estar no meio da multidão para se sentirem integradas, num mundo cada vez mais frio e calculista. Estão no meio da multidão com a sensação de que fazem parte de algo – com fotos para ter a certeza - mas sem conhecer ninguém, sem falar com ninguém, sem ser ninguém. Apenas aparecer, fazer parte, pedir para fazer parte. Suspeito que tudo isso aumenta o vazio interior e os bolsos. Suspeito que estamos seguindo caminhos em direção ao vazio interior, com uma cega admiração aos ídolos/deuses da era moderna – cantores, futebolistas, etc. Fazer parte não é isso, não é ficar parado assistindo os outros agindo. Fazer parte é contribuir com ação, com intenção, com construção, com evolução. Assistir jogos, assistir shows, assistir concertos, assistir palestras, assistir eventos, não é fazer parte – é ser um assistente profissional, alguém que pensa que viver é assistir a vida dos outros.
Também se estranha quem não vai a nada disto, quem se recusa entrar nessa hipnose e obrigação e norma e vazio – por que cada pessoa não pode ter sua forma de decidir sua vida? Por que temos de fazer tudo como os outros fazem? Quer tenha dinheiro ou não, eu preciso escolher se quero ou não fazer as coisas, decidir a minha vida do meu jeito – decisão cada vez mais difícil já que socialmente estamos considerando que os que sabem viver são os que aceitam cumprir o que a sociedade indica – tirar fotos nas festas juninas, nos Rock in Rio’s e jogos da Copa do Mundo. O chamado network, que te leva a ter de fazer coisas que você não quer mas que dizem que vão ser úteis para o seu trabalho, para o seu futuro e para o futuro dos seus filhos. Você não se dá conta mas sua vida começa a ficar sem chama e sem caminho próprio, vida de seguidor, vida de admirador, vida de fã.
Por que será que demasiadas pessoas acham bem tudo o que Neymar faz? Porque foram mordidas pelo mosquito fã/seguidor e aí meu amigo, lascou. Você fica cego, surdo e mudo e, me desculpe, também fica abestalhado. Falei Neymar, mas poderia falar Cristiano Ronaldo, poderia falar Ivete Sangalo. Escolha um nome de uma pessoa famosa. Qualquer nome serve. Se cuide. Não se torne obcecado por pessoas e pelo que elas fazem. Você tem muito que fazer por você e pela sua vida. Seja capaz de olhar esses grandes jogadores ou cantores ou personalidades de forma real – são muito bons no que fazem, ponto. Mas você precisa ocupar seu tempo tentando ser o melhor profissional possível na sua profissão. Cada segundo conta. Kobe Briant dizia que tinha de treinar mais do que todos para ser o melhor. Como se consegue isso se o tempo é gasto, olhando abobalhado para cantores e cantores, jogadores e jogadores, personalidades e personalidades. Se desenvolva, evolua, se desafie. Seja sua melhor versão.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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