top of page

2 Contos: “TIRANDO ONDA, HEIN SEVERINO?” e “Uma vida para aprender”

Conto “TIRANDO ONDA, HEIN SEVERINO?”

Rio de Janeiro, Ipanema, Praia do Diabo, década de 1980. Alguém chamou:

- Severino José!

O pessoal surfista olhou um pra cara do outro. Não era nome de ninguém da turma. Não era nome de ninguém dali. Simplesmente aquele nome não pertencia, era out. De repente apareceu um garoto meio baixinho, forte, com o cabelo encaracolado e parafinado, um sorriso muito fofo. Pois é. O Severino José era um gatinho.

Fazia ginastica olímpica, por isso era forte. Especialidade, barras paralelas e cavalo com alças.

Do Arpoador até a Montenegro, a gente chegava bem cedo ou ficava chocando a passagem do tempo para entrar no mar depois das 2 horas – em Ipanema o salva-vidas só deixava a gente entrar com hora marcada!

Nos aproximamos. Ele morava pertinho da minha casa. Eu fazendo o ainda chamado “Científico” e ele, o “Clássico” – queria ser professor de educação física. Estivemos lado a lado com o “menino do Rio”, o Pety. Vimos o Rico – shapper das pranchas de surf em ação, ouvimos em primeiro lugar as aventuras de Pipeline, na época em que tudo era falado porque não tinha internet e não passava campeonato de surf na TV. Namoramos. Vimos o Rio mudar, menos uma coisa: O nome Severino José era tão destoante que coloquei o apelido “SEVÊ”. Parecia que Ipanema estava esperando esse detalhe pra sair de seu encolhimento preconceituoso – daí em diante,  Sevê chegava com sua prancha, a cravava na areia e já olhava para o posto de salvamento, em busca da aprovação ou não pra entrar no mar. Aquilo era um relógio.

Hoje me lembrei do Severino, a dificuldade que a praia sentia com o nome – nada explicito, mas existente – e resolvi contar a história do preconceito de Ipanema, que recebia e aceitava muito bem Caetano, Gal e Betânia, mas tinha essa dificuldade com Severinos – no tempo onde os baianos jogavam buraco na areia da Montenegro, eu passava lá na hora do almoço, aguardando dar as benditas 14 horas para ir para o mar, no Arpoador, com a prancha do Sevê – emprestada um milhão de vezes.

Aceito e abraçado ele foi apenas quando um francês começou a chama-lo de Sever – havia o Fraçoise Sever, das corridas e ele se confundiu os sotaques. Gente, ninguém mais nem via que ele era baixinho, que o pai era pernambucano e atarracado, que ele tinha o nome do pai, que se chamava Severino. Sever tinha o charme da classe média chatérrima, que vive tirando onda no Rio, para afinal ser apenas um tipo diferente de gente preconceituosa – hoje, certamente, com algum outro preconceito diferente, mas existente porque preconceito é ignorância declarada.

Namoramos por anos. Até que veio ele – o preconceito – e acabamos tudo. Eu estava mergulhada em estudos acadêmicos e o Sevê queria que eu largasse a Universidade pra casar, veja você. Terminamos de uma maneira dura e implacável, com palavras das quais nunca esqueci. Mas naquele momento, naquela praia mágica, onde a gente ousava todos os tipos de ousadia que agora ninguém mais ousa – como ir para a praia de calcinha preta, de lycra, cocotas – além de ver e conviver com o Pety, o Rico, de balançar o cabelo na saída da água, na Praia do Diabo, chacoalhando a cabeça com força, eu namorei um Severino José que era meio alienígena, que virou Sevê e foi aceito sem entusiasmo e que acabou aceitíssmo como Sever, apelido-nome francês que colou nele completamente.

Ipanema e seus núcleos, suas órbitas. Era um tempo diferente, onde todos se falavam, mesmo com estranhamento. Hoje, Deus me benza... Nem consigo imaginar essa história combinando com cancelamento e marginália online e você?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Uma vida para aprender”

Hoje vou contar uma história que me contaram uma vez. Vai ser provavelmente uma espécie de plágio histórico enviesado porque eu não sei bem a história e vou ter de lhe dar uma versão romanceada. Então é isso, vou contar algo que me contaram e que eu vou “utilizar” para escrever um conto. Não posso dar “créditos” a ninguém porque já nem sei quem me contou isto ou se eu li.

Aqui vai.

Um dia ouvi ou li uma história que nunca mais esqueci, que de vez em quando me volta e volta, talvez me tente ensinar algum “tino” nesta cabeça de vento. Dizem que existia um homem que vivia num local com muitas árvores de fruto, muitas verduras e legumes, com animais, perto de um rio e próximo do mar. Esse homem nem utilizava o dinheiro. Não precisava. Tinha tudo o que necessitava para viver, para comer, ao seu redor. Um dia um amigo tentou explicar-lhe que o mundo tinha mudado e que pessoas como ele podiam fazer um bom dinheiro já que podiam comercializar vários produtos: a areia e os peixes do rio, alugar barcos para passeio ou para pesca, os peixes do mar, o leite das vacas, os ovos das galinhas, as verduras e legumes e as frutas. Ele ouviu aquilo tudo e sem dizer uma única palavra, continuou a fazer o que estava a fazer. O amigo não queria acreditar na sua teimosia em recusar o desenvolvimento e deu uma enorme gargalhada soltando um “é mesmo um zé ninguém”, no momento em que foi embora.

Ele nunca entendeu porque o amigo e todos os vizinhos fizeram o mesmo. Passavam em frente ao seu sítio e ficavam falando e rindo. Ele sentia-se feliz, sentia-se fazendo a coisa certa, mas era tanta gente contra o que ele fazia que isso o deixou triste e pensativo. “Poderia estar enganado?" Era apenas ele, alguém simples pensando de uma forma que parecia ser a melhor, mas o mundo inteiro tinha outra opinião. Aos poucos foi se sentindo errado, se sentindo uma pessoa incapaz de perceber o mundo e as suas mudanças. Aos poucos foi ficando triste, inseguro, desanimado, se sentindo alguém antiquado, desvalorizado. Pelos 80 anos aceitou finalmente fazer as mudanças e autorizou a exploração do seu encantado lugar. Pediu a uma neta para comandar todas as operações. Mas a neta não quis fazer nada disso. Ele insistiu, insistiu e insistiu. Ela não quis fazer nada disso e lhe falou que ele não o devia fazer, que aquele lugar tinha sido um lugar mágico para ele, para ela, para toda a família, que era o único lugar saudável no país. Que as pessoas lhe falavam todos os dias que seu avô era o responsável por todos serem saudáveis, impedindo o turismo de encher tudo de lixo, impedindo a degradação do cultivo, das águas do mar e do rio. Disse-lhe que as pessoas estavam muito agradecidas a ele por tudo. A percentagem de gente com câncer era muito baixa, e aquele era um dos lugares do mundo com pessoas que viviam mais anos e com uma saúde boa e uma qualidade de vida sensacional. Quando terminou percebeu que o avô estava chorando, ele que nunca chorou a sua vida... Abraçou-o e tentou reconfortá-lo. Tentou lhe explicar que ele resistiu o que mais ninguém no país e poucos no mundo conseguiram resistir. O avô aumentou ainda mais o seu choro. Chorou, chorou, chorou...até conseguir ter a capacidade de falar umas palavras:

- Vivi quase uma vida inteira tentando fazer certo e achando que estava errado apenas porque acreditei mais nas palavras de um homem a quem eu considerava meu amigo do que na minhas ações e no meu coração.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


@buglatino

A Plataforma que te ajuda a Falar, Pensar, Ser Melhor.


 
 
 

Comentários


ESPERAMOS SEU CONTATO

+55 71 99960-2226

+55 71 99163-2226

portalbuglatino@gmail.com

  • Facebook - White Circle
  • YouTube - White Circle
  • Instagram - White Circle
  • TikTok

Seus detalhes foram enviados com sucesso!

bottom of page