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Dias de Poesia

“Nada tão silencioso como o tempo”

 

“Nada tão silencioso como o tempo

no interior do corpo. Porque ele passa

com um rumor nas pedras que nos cobrem,

e pelo sonoro desalinho de algumas árvores

que são os nossos cabelos imaginários.

Até nas íris dos olhos o tempo

faz estalar faíscas de luz breve.

 

Só no interior sem nome do nosso corpo

ou esfera húmida de algum astro

ignoto, numa órbita apartada,

o tempo caladamente persegue

o sangue que se esvai sem som.

Entre o princípio e o fim vem corroer

as vísceras, que ocultamos como a Terra.

 

Trilam os lábios nossos, à semelhança

das musicais manhãs dos pássaros.

Mesmo os ouvidos cantam até à noite

ouvindo o amor de cada dia.

A pele escorre pelo corpo, com o seu correr

de água, e as lágrimas da angústia

são estridentes quando buscam o eco.

 

Mas não sentimos dentro do coração que somos

filhos diletos do tempo e que, se hoje amamos,

foi depois de termos amado ontem.

O tempo é silencioso e enigmático

imerso no denso calor do ventre.

Guardado no silêncio mais espesso,

o tempo faz e desfaz a vida.”

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa (1938-2007)

 

 

“Sumário Lírico”

 

“Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,

começo devagar a reescrever o mundo quedo

que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.

Ninguém me deu outras formas que não minhas

mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.

Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.

E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos

mas autores cada um no seu frasear, generosos

quando me reconheciam em muitos anos de vida.

Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes

caladas para sempre nos livros em que as lera.

Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos

de cada olhar de imagens próprias de cada um.

Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,

os barcos na Barra, que também em vidros estavam.

Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,

que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,

quando o dorso de prata e o gume passavam

nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,

de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.

Imagens que sempre ficais nestas vidraças,

emprestai vosso vidro e revérbero à luz

do farol extinto, em outras vidas que antes

narravam que eu era já nascida,

quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.

A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas

com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.

É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,

diariamente somando anos, minutos indivisos.

Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.”

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa (1938-2007)


Imagem: Picasso


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