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"A Poesia Diz"


"A Poesia diz

O que explode

O que está mal

O que está errado

Até diz o que devemos fazer

Quem dera que a poesia fizesse..."


“EXPLOSÕES”


“A ode explode. O bode explode.

O Etna explode. O erre explode.

A minha explode. A mitra explode.

Tudo agora e amanhã explode.

Exceto a Bomba: o homem não pode.

O homem não pode. O homem não pode. O homem não pode.

*

O homem pode:

Soltar a vida. Fuzilar a Bomba. Reinventar a ode.”


Murilo Mendes



“Rio Negro”


“Na terra em que eu nasci, desliza um rio

ingente, caudaloso,

porém triste e sombrio;

como noite sem astros, tenebroso;

qual negra serpe, sonolento e frio.

Parece um mar de tinta, escuro e feio:

nunca um raio de sol, vitorioso

penetrou-lhe no seio;

no seio, em cuja profundeza enorme,

coberta de negror,

habitam monstros legendários, dorme

toda a legião fantástica do horror!


Mas, dum e doutro lado,

nas margens, como o Quadro é diferente!

Sob o dossel daquele céu ridente

dos climas do equador,

há tanta vida, tanta,

ó céus! e há tanto amor!

Desde que no horizonte o sol é nado

até que expira o dia,

é toda a voz da natureza um brado

imenso de alegria;

e voa aquele sussurrar de festas,

vibrante de ventura,

desde o seio profundo das florestas

até as praias que cegam de brancura!


Mas o rio letal,

como estagnado e morto,

arrasta entre o pomposo festival

lentamente, o seu manto perenal

de luto e desconforto!

Passa - e como que a morte tem no seio!

Passa - tão triste e escuro, que disséreis,

vendo-o, que ele das lágrimas estéreis

de Satanás proveio;

ou que ficou, do primitivo dia,

quando ao - "faça-se!" - a luz raiou no espaço,

esquecido, da terra no regaço,

um farrapo do caos que se extinguia!


Para acordá-lo, a onça dá rugidos

Que os bosques ouvem de terror transidos!

Para alegrá-lo, o pássaro levanta

voz com que a própria penha se quebranta!


Das flores o turíbulo suspenso

manda-lhe eflúvios de perene incenso!


Mas debalde rugis, brutos ferozes!

Mas debalde cantais, formosas aves!

Mas debalde incensais, mimosas flores!

Nem cânticos suaves,

nem mágicos olores,

nem temerosas vozes

o alegrarão jamais!...

Para a tristeza

atroz, profunda, imensa, que o devora,

nem todo o rir que alegra a natureza!

nem toda a luz com que se enfeita a aurora!


Ó meu rio natal!

Quanto, oh! Quanto eu pareço-me contigo!

eu que no fundo do meu ser abrigo

uma noite escuríssima e fatal!

Como tu, sob um céu puro e risonho,

entre o riso, o prazer, o gozo e a calma,

passo entregue aos fantasmas do meu sonho,

e às trevas de minha alma!”


Rogel Samuel

(1943)


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