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3 Contos sobre Idosas


Conto “3 Histórias sutis”


Meu resumo já foi furor. Também já foi calor. Hoje é dor. Entrar naquilo que se chama terceira idade – pelo menos no meu caso – é manter em alta a capacidade de ver através da alma. E a alma anda em falta do que ver. Mas vê, eventualmente, que o mundo está mais solitário. Se fica “velho” aos 40, para o mercado de trabalho. 40 anos e a sociedade e o mercado, querem que você acredite que já virou estepe, imagine.


E eu olhei bem o mundo e virei a mesa quando o mundo esperava que estivesse em busca de um lugar definitivo para ser estepe... A rebelde. A antissocial. A estranha mulher que não suporta o amarelo do ouro.


Eu.


As mulheres ainda tentam disfarçar o vulcão da menopausa – como se isso fosse uma coisa possível! Meu maior sofrimento era como beijar as pessoas, se não parava de derreter hormônios – como um sorvete ao sol, em Salvador da Bahia. Que se danassem as excelências, seu ar condicionado gélido, frente aos meus hormônios – mas por algum capricho da vida, as mulheres continuam pensando em coisas absolutamente dispensáveis...


Dentro de mim, somos o furor inigualável dos 20, 30 anos, o calor da menopausa muda dos 50 e agora a dor de saber o mundo mentalmente, que estão marcando os 60. Homens inconsequentes continuam galinhando por aí, assim como as mulheres miseravonas – o resultado? Gente morta por todos os lados. O que deveria ser somente uma leve perda das penas das escolhas individuais, agora está colocado pelo destino como a consequência de um destino mal escolhido, um erro momentâneo, um impulso, uma falta de juízo. Um novo tipo de pena de morte.


Uma falta de juízo que não deu certo ou... um egoísmo extremo, uma falta de capacidade de considerar, levar em conta, perceber que o mundo tem mais do que a si mesmo como habitante. Os 60 anos nos dão a visão além do alcance, o olhar do Thunder Cat. A dor.


O sol nasce e se põe e nisso ainda tenho confiança – em pouca coisa em que os homens meteram as suas colheres tortas, sujas e promíscuas eu ainda tenho confiança. Mas mesmo destruindo o meio ambiente todo, ainda tenho confiança que o sol nasça. Ainda.


Furor, calor, dor. Falta ainda uma coisa, um ingrediente – talvez o principal - amor. Amo melhor sendo consciente dos defeitos que quem eu amo vai manter; dos erros dos quais não vou conseguir me livrar em uma vida. Mas também do olhar cúmplice de uma pessoa diferente – admirada por ver a minha forma “alienígena de pensar”, do sorriso perolado que me sorri, quando sorri pra mim. Eu percebo a dor do mundo e essa dor me dói inteira.


Estou viva, aos 60, olhando e percebendo tudo – ou quase tudo. Me esperem aos 70..


Ai, essa dor que dói sem doer...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Eternamente jovem”


Meu corpo já não me acompanha nem me obedece. Tenho uma idade que dão o nome de idosa, idade sênior, idade melhor, etc. Na minha cabeça sinto que tenho 40 anos. Estou viva, cheia de energia e sonhos. Mais sábia. Mas o meu corpo está a desligar. Ficou mais pesado, mais preguiçoso, mais limitado. Começo a perceber que a minha cabeça quer uma coisa que meu corpo já não consegue seguir. Isso me obriga a travar sonhos. A sonhar menos, mais pequeno, mais devagar. O fim visita os meus dias.


Há 50 anos que desejo fazer uma sala na minha casa, para que todos possam estar juntos. A família quando se junta acaba por se agrupar em vários espaços da casa porque nenhum dos espaços comporta todos de uma vez. Nunca gostei disso porque sinto que divide a família de alguma forma e eu não quero que isso aconteça. Quero um dia poder ter um lugar onde todos estão juntos, mesmo que cada grupo esteja a fazer uma coisa diferente. Apesar de ter essa ideia há muitos anos só falei com os meus filhos duas vezes nesse sonho. Na primeira vez, riram e não conseguiram imaginar. Me olharam como se eu tivesse dito alguma loucura. Eram adolescentes. Não conseguiram ver o que eu via. A segunda vez, eles já eram adultos mas não entenderam nada, muito menos o sonho. Fiquei a pensar se eles sabem o que isso é. Se sabem o que é desejar alguma coisa com tanta vontade que não interessa o que as pessoas dizem, nem interessa a idade que se tem, nem o tempo que se tem no mundo. Será que sabem o que é aguardar uma vida inteira a oportunidade e nunca desistir? Mesmo que seja algo patético para os outros?


Depois de 50 anos a oportunidade de realizar o meu sonho chegou. Com 80 anos de idade, com meu corpo querendo me desobedecer, a ficar doente, lá fui eu tratar de empacotar o conteúdo dos armários, em pacotes mais pequenos, a um ritmo bem lento, esvaziando os lugares que iriam sofrer alterações junto com a criação da sala. Muito feliz, voltando a sentir-me com “40 anos”. O sonho virou realidade. Transformei uma janela em porta, transformei um jardim numa sala imensa e agora é o lugar onde todos desejam estar. Onde eu gosto de estar. O resto da casa quase ficou esquecido socialmente.


Nesta sala está fresco no verão, está quente no inverno, vemos o quintal, ouvimos os passarinhos, vemos o nascer do sol, o pôr-do-sol. E sinto uma energia de sonho realizado, de união com o universo por me dar esta benção. Por me confirmar que vale a pena sonhar, sempre, até ao último segundo. Esta sala é o lugar onde pertenço, o lugar que construí, o lugar que desejei uma vida inteira. O lugar que me fará sentir viva sempre. Mesmo idosa, mesmo doente, mesmo incapaz.


Vejo agora nos olhos dos meus filhos que perceberam o que é um sonho. Que finalmente vão aguardar o que for preciso para ter os seus.

Ana Santos, professora, jornalista


Conto “Ela, a idosa”


Lá vai ela, manhã cedo, passo rápido e seguro, sapatilhas cor-de-rosa. Lá vai ela com os fones nos ouvidos, a música alta, óculos escuros, abanando os ombros ao ritmo da canção. Se lhe apetece, canta, não importa quem ouve ou vê.


Lá vai ela, cabelo curto, prateado, luminoso. Não tem mise de cabeleireiro. Não gosta, nunca gostou. E, se não gosta, não tem de fazer.


Lá vai ela, com braços e ombros de fora. Gosta do sol. Gosta de senti-lo na pele. Tem rugas? Tem. Tem pregas? Tem. E tem tatuagens, um pouco gastas, junto aos pulsos e na clavícula direita.


Também tem uma anca que se queixa, quando caminha demais. E, ao longe, não sabe se o que ali está é uma pessoa ou uma papeleira. Esquece-se de algumas coisas. Já não é tão rápida como outrora foi. Desorganiza-se um pouco, quando quer fazer tudo ao mesmo tempo. Será que foi sempre assim? Não tem a certeza.


Está velha. Passaram muitos anos desde que corria por aqueles mesmos caminhos. Ou desde quando por lá passeou os filhos e o cão. Até já foi há certo tempo que por ali levou os netos, pela mão.


Durante décadas acordou cedo, para ver o mar antes de se fechar no escritório. Agora não tem horários. Nem crianças para tirar da cama. Nem cão para passear. Mas ficou-lhe o hábito. E ficou-lhe o mar.


E, então, lá vai ela.


Sabe que lhe comentam as sapatilhas coloridas e os óculos escuros grandes demais. Vê a criança que aponta a tatuagem e o olhar depreciativo da mãe. Acham que ela já chegou à idade do casaquinho de malha. Ela ri-se. Aperta melhor a sweatshirt que trás amarrada à cintura.


O telemóvel toca o living on a prayer e ela canta com vontade “oh, a half way there, oohoo”. É isso que sente: que vai a meio caminho. Toda a vida se sentiu assim. A meio caminho do destino. Nunca sentiu que estava perto do final. Teve sempre planos, vontades, ambições. E quando não os teve, inventou-os. Não deixou que lhe dissessem que estava tudo feito, que a vida era aquilo, que era tempo de parar. Enquanto conseguir, vai continuar a inventar e a reinventar-se. A impor-se desafios, a experimentar coisas novas. Não vai caminhar menos quilómetros, vai apenas fazê-lo mais devagar. Nem vai estar perto da meta, vai estar sempre a meio caminho, com outra metade de conquistas por alcançar.


É assim que ela quer. E agora, que está velha, é assim que tem certeza que está certo.


Lá vai ela, igual a si própria. Convicta, mas mais tolerante. Determinada, mas sabendo escutar. Mais ponderada, menos impulsiva. Aprendeu a controlar o que diz. Mas não aprendeu a calar-se. Nem tenta. É disparatada, ainda. Tantas vezes se sente uma menina. Cresceu, com a vida. Amadureceu, aprendeu. Deu-se e recebeu.


Goza agora o tempo que tantos dias lhe faltou e, com 73 anos, é feliz.


Talvez o caminho já tenha passado um pouco do meio, mas, para ela, haverá sempre muito mais por onde ir.


E, ao fim da tarde, vai sentar-se numa esplanada a beber um copo de vinho branco gelado, com uma amiga, porque ela não é uma velha de tomar chá.

Cláudia Quaresma, convidada

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