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3 Contos do Trabalhador


Conto “O DIA EM QUE NINGUÉM TRABALHA”

“Houve um tempo perdido no tempo onde se trabalhava para colher e você comia o seu trabalho, o compartilhava entre a família, trocava o que lhe sobrava pelo que lhe faltava. Há muito tempo. Aí alguém inventou o dinheiro”.


Eu ficava ouvindo aquilo, a professora falando e nunca imaginava nada. Era aula. Tão chata que não segurei o primeiro bocejo, o segundo... Lá estava a professora falando no seu idioma estranho e eu fechei os olhos por um instante, só porque eles pesavam. Dentro de mim lá estava o meu ponto imaginário. Aquele pra onde olho quando o pensar fica mais importante do que tudo. Pisc, pisc... Blá, blá, blá...

“Há profissões que vão acabar, que estão acabando. Pronto, acabaram”. “Nos países onde há mais investimentos em educação e qualidade, nem se usa mais frentista, cobrador de ônibus. No Brasil tem que ter. Onde vamos colocar os que não estudaram”?


Do meu ponto imaginário, com os olhos fechados, vinha o grito, uma coisa meio pesadelo. Onde vamos colocar significa que o Brasil pega uma quantidade de pessoas e as prepara para não servirem pra nada? Nós vimos isso? Não vimos? Vimos e não fizemos nada?


Hoje fui no posto de gasolina. Quase paramos de ir porque mal usamos o carro. “E aí, tudo bem? Você enche o tanque? Pera que eu abro. Posso tirar uma foto do pé de mamão que você tem ali”?


Hum, hum. Tudo isso que eu falei, seria filme mudo, já que não teria ninguém para me ouvir, me responder. Meu Deus! No meu lugar imaginário de aconchego infantil, frentista, cobrador, engraxate, verdureiro, relojoeiro, padeiro movimentavam a minha vida verbal. Se a gente deixa de falar com eles, na rua... Iríamos falar com quem? Quem sobraria?


Me mexi um pouco, olhei por um momento a tela do notebook e lá estava professora falando sobre robótica e nanotecnologia. De novo pensei no meu ponto imaginário e lá dentro dele me veio a percepção do horror - estamos morrendo de solidão, de depressão porque a cada dia perdemos a ideia de diálogo com pessoas com quem falávamos antigamente. Normalmente. O padeiro agora é um pacote pronto no mercado e não quero, não admito – prefiro saber do padeiro da padaria antiga meio longe de casa qual pão é o mais gostoso, qual está quentinho ainda, qual está mais branco.


Olho ao redor, fora de mim e não tem ninguém porque tudo está sendo substituído pela “alta tecnologia”. Quem são os trabalhadores dessa fábrica? Eles folgam? A moça do filme que a professora está passando online aparece com seu celular “super blaster plus” e reclama do seu filho adolescente que nunca responde ao que ela pergunta. Mas com quem ele aprenderia a propor e responder? Com o pacote de pão? Com a bomba automática, o banco 24 horas?


Houve um dia em que todos pararam de trabalhar para homenagearem o dia do trabalho. Uma mensagem metafórica, uma homenagem. Mas meu eu do futuro se perguntava do meu ponto imaginário: Sem treino, sem o “vai lá na padaria e pede ao seu Zé 10 reais de pão”, como saberemos usar a ideia da metáfora? Um sorriso amarelo e um bom dia não servem pra tudo. Ainda damos bom dia? Haverá um dia em que até o bom dia será dispensável?


Trriiim! - Alô, mãe? Nossa, você nem imagina como é bom ouvir sua voz!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Gente”

Ana está sentada no único espaço do muro que não tem musgo, olhando as pessoas passando. É muito cedo, está frio. O dia já começou para todos menos para o sol que ainda não acordou. O inverno onde ela mora é assim. O frio atravessa o corpo até aos ossos. Ana é uma menina, como muitas. Quer um dia ser gente. Ser uma pessoa como aquelas que passam na frente dela. Dizem-lhe que ser assim é que é. Ser uma pessoa que acorda cedo, que trabalha todo o dia, que sofre, que nunca se queixa, que passa dificuldades e que chega ao final do mês conseguindo cumprir todos os pagamentos, despesas, problemas. Que vai respirar fundo e de alívio por que foi capaz e começar de novo essa luta no mês seguinte e seguinte e seguinte.


Ana está sentada num banco de jardim, da praça que construíram, onde em menina, estava um muro com muito musgo. O mesmo frio, aguardando a chegada do sol. Observa as pessoas que passam apressadamente. Algumas já não conhece. Parecem caminhar mais depressa, mais caladas, menos sorridentes, mais tensas. Ana aprecia o momento com alguma tristeza. Já não mora ali. Foi trabalhar para a cidade para ter uma vida melhor. Já não olha para as pessoas com vontade de ser como elas. Ela se vê no meio dessas pessoas. Já sabe o que custa. Já sente na pele tudo o que não pode dizer, que nunca poderá dizer. O sofrimento, as horas de trabalho, o salário escasso, não conseguir chegar ao final do mês com a satisfação de cumprir mais um. Pelo dia 15 já está em sufoco para pagar as contas, para ter dinheiro para comer, para, para, para. Aprendeu a esconder da família as dificuldades, a fingir um sorriso de felicidade. Dizem que a vida está difícil. Deve ser isso.


Conseguiu. No dia dos seus oitenta anos, conseguiu convencer o neto a fazer um passeio de carro. Queria ver o viaduto novo que fizeram, no lugar onde em menina se sentava num muro de musgo. Sabia que era um pedido estranho. O neto nunca tem tempo para a visitar no Lar. Mas desta vez ela pediu tanto que ele não conseguiu dizer que não. Ela sabe que nunca foi capaz de lhe dar o que ele queria e que mesmo que ele não diga nada, se sente triste por ter uma avó “pior” do que as avós dos amigos. Nunca lhe deu prendas, brinquedos e o dinheiro que lhe dava sabia que era muito pouco para ele. O que ele não sabia é que ela, trabalhou a vida inteira, sempre com salários muito baixos, horários absurdamente longos, sem pausas, sem licença para ir ao médico, sem férias, mas se algum dia se queixasse seria demitida. O que ele não sabia é que ela não almoçava nos dias que lhe dava o “pouco” dinheiro. O que ele não sabia é que ela não viveu, apenas trabalhou. O que ele não sabia é que a única coisa que a fazia feliz era aquela sensação que ela guardava desde menina, sentada no muro de musgo, olhando as pessoas passarem e ela desejando um dia ser gente.

Ana Santos, professora, jornalista


Conto “Mulher da Vida”

Sai para a rua com a saia curta a descobrir as pernas demasiado magras. As botas cambadas deixam água entrar e meias, já nenhumas se safavam.

Os candeeiros no passeio deitam uma luz amarelada, fraca, que pouco ilumina o caminho. As folhas apodrecidas amontoam-se nos passeios, juntas com pacotes de sumo vazios, jornais velhos, sacos de plástico e outros lixos. Tudo é triste naquela rua.

Cruza os braços sobre o peito e encolhe-se, tentando enganar o frio, enquanto caminha até ao café da esquina onde a dona, diariamente, por piedade, lhe oferece um caldo quente. Porém, ao aproximar-se, surpreende-a a montra apagada. Está fechado. Nunca, nos meses que ali vive, viu o café fechado. Certamente, algo grave aconteceu. Aproxima-se da porta de vidro e vê então a folha A4, onde em letra incerta alguém escreveu: “FECHADO. DIA DO TRABALHADOR”.

Sim, tinha ouvido isso, em conversa com os clientes. É o único dia do ano que o café fecha, 1 de maio, para celebrar o Dia do Trabalhador. Ir às marchas, fazer uso dos direitos arduamente conquistados. Pois é, não se lembrou. Para ela não é dia de descanso nem de celebrações. É quinta-feira. E, à quinta-feira, sem ela saber a razão, há sempre mais procura.

Afinal de contas, ela nem tem um emprego, pois não? Essas coisas dos direitos, dos salários, do horário de trabalho, dos descontos, não são para ela, pois não?

A dona do café, quando recebe da sua mão a malga de sopa vazia, diz-lhe, em jeito de despedida “pronto menina, vai lá à tua vida”. E ela sorri, agradecendo, com o coração a gelar-lhe no peito. É isso, a vida? É assim que a definem? Uma “mulher da vida”? E doí-lhe.

Agora está parada em frente à montra, sem saber o que fazer. Tem o estômago apertado, da fome. As pernas arrepiadas, do frio. Repara que não passam carros, não há movimento na rua. É feriado, os homens estão em casa, com as famílias, gozando o seu descanso de trabalhadores.

E ela? Afinal de contas, não é trabalhadora, pois não? Essas coisas do comércio, das compras e das vendas, da prestação de serviços, não são para ela, pois não?

Afunda as mãos nos bolsos na esperança de encontrar uma moeda. Descobre uma ponta de cigarro que acende, tremendo. Tem os olhos cegos pelas lágrimas de desilusão. Pela morte dos sonhos que teve, da criança que foi. Tem 23 anos, três abortos, os braços marcados pelas cicatrizes e as pernas demasiado magras para sustentar o desespero.

Andou pela cidade, escorraçando-se de rua em rua, durante 7 anos, até chegar àquela esquina, onde uma alma piedosa lhe oferece, diariamente, uma malga de caldo quente. Em dias de sorte, um canto de broa para ensopar.

O Dia do Trabalhador não é para ela. Só lhe traz desalento.

Falta-lhe o caldo. Faltam-lhe os homens no semáforo, as notas no bolso. Falta-lhe a ilusão da dose da noite.

A regulação do horário, a justiça do salário, as condições de higiene e segurança, a saúde, os descontos, tudo isso é outro mundo, infinitamente distante do seu.

Ela não é funcionária. Ela não é nada, é da vida. Ela não precisa de dias que a lembrem de tudo o que não é e que não tem. Ela não quer saber de lutas pela dignidade. Ela só quer não ter de voltar para o quarto gelado com o estômago vazio.

Cláudia Quaresma, convidada

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