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+ 2 Desen(Contos) por uma fotografia


Conto “DUAS ANAS SÃO PIORES DO QUE UMA”

Adoramos passear de carro – pelo menos adorávamos... Porque, depois da humilhação com a Transalvador, nos lembramos de um outro episódio, digamos... visto pelo guarda como “picante” – sabe lá onde os guardas têm a cabeça pra imaginarem certas cenas como picantes...


Salvador, Bahia, praia, verão, entardecer, acarajé pré-covid – nada é melhor do que isso! O carro esbanjava a nossa animação. Rádio ligado, FM de músicas do “nosso tempo” e a luz do entardecer de Salvador, que é um luxo de nascença. Celular na mão e fotos, fotos, fotos.


Na ida, muita alegria. Piatã, Boca do Rio, a música de Gil na cabeça: “O rei da brincadeira, eh José” ...


Na volta, pegamos aqueles congestionamentos misteriosos da cidade, que ninguém sabe como surgem... ah, mas esse tinha motivo – blitz. Trânsito lento. Parado. Levamos na esportiva. Afinal, fim de semana, rádio ligado, verão, calor - mas lá fora. Dentro do carro tínhamos o ar e pronto.


Carros parados. Nada andava.


- Abre o vidro pra gente tirar umas fotos!


Pista de volta, rumo ao Rio Vermelho. Toda a beleza estava do lado de lá, à esquerda, do lado do motorista. Mas tudo estava parado, não tinha problema.


Andou um pouquinho. A Ana motorista viu o guarda e abriu logo o vidro do lado do passageiro; a outra Ana, porém, focada na foto e meio debruçada na janela da motorista, fechou o vidro, acionando o botão da porta dela porque afinal só precisava abrir o vidro do lado do motorista – senão o ar escapava todo. Abre, fecha, abre, fecha. Duas, três vezes. Gente, nem te conto... o guarda achou que a gente estava fazendo sexo oral? Olhou pra nossa cara como se fôssemos bandidas velhas, taradas e sem-vergonhas! Gente... mandou parar!


Com a educação característica da autoridade – lembram da Transalvador – sacou a pistola e ficou com ela na mão.


Lembrete: Ana 1 - 61 anos; Ana 2 – 55. As duas com cara de terror! - Os homens acham que vivem e são vizinhos do espírito de Bin Laden pilotando o avião, não é possível! Que grossura solene, que pessoa perigosa era o guarda!


Quando entregamos os documentos – gagas de medo – o guarda começou a perceber que aquela cena era totalmente over, exagerada e superlativa. Arma na mão... Gente, mesmo que eu soubesse como e estivesse fazendo sexo oral com uma mulher, dentro do carro, ambas vestidas e abrindo e fechando os vidros, o guarda deveria nos mandar parar empunhando uma pistola?


A Ana, depois que saímos da blitz, começou a chorar de trauma – coitada, nunca vai acostumar com essa grossura intrínseca e entranhada do machismo estrutural brasileiro. Mas eu, esbravejei bastante - e feliz por estar cada vez mais longe daquele Brutus – até tu, até o guarda... quem escapa dessa grossura persecutória? Quem é afinal a autoridade desse país que nos preveja e proteja? Que nos estimula a sermos melhores?


- É, “seu guarda” ... Descompreendido total, sem noção, perdido mental, seja o que for! Mas, por favor, entenda: Não existem muitas mulheres, nesse Brasil de meu Deus, que adotem esse papo de arminha por causa dessa grossura absurda, desse abuso de poder inaceitável e dessa absoluta falta de educação! Vocês têm mãe? Quando olharem para uma mulher - qualquer mulher – pensem nelas. Porque mexeu com uma, mexeu com todas!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Apenas uma foto”

AnaS é portuguesa. AnaR é brasileira. De vez em quando vão dar uma volta de carro, para tirar fotos para o seu trabalho. Desta vez, final de tarde, resolveram tirar fotos da marginal de Salvador, entre Pituba e Itapuã. Tiraram algumas fotos na direção de Itapuã e fizeram o retorno para tirar algumas fotos na direção da Pituba. AnaS dirige enquanto AnaR tira fotos.


De repente, muitos carros na estrada, andando bem devagar. Cada vez mais devagar. E ficaram ali, naquele trânsito de pára e arranca que até dava jeito para tirar fotos. Era fim de tarde de um sábado. Devia ser o povo a voltar das praias. O mar e o sol estavam do lado de AnaS que estava ao volante, não podia tirar fotos. AnaS disse que se encostava bem na cadeira, abria o vidro lateral e AnaR debruçava-se sobre ela, um pouco. O suficiente para tirar uma ou duas fotos sem aparecer o espelho retrovisor, nem o vidro dianteiro do carro. Tinha de ser rápido, abrir e fechar o vidro, porque nestes momentos, filas com carros parados, os assaltos acontecem facilmente.


AnaS está olhando em frente, duas mãos no volante, movimentando o carro lentamente, nessa fila lenta, controlando as redondezas para não serem surpreendidas por algum ladrão. AnaR está debruçada sobre si, braços esticados, celular na ponta dos dedos, tirando as fotos. A paisagem estava linda e a situação era engraçada. A fila estava mais tempo parada do que em movimento lento e dava para tirar fotos tranquilamente num lugar onde sempre se passa acima de 40 km/h. Em determinado momento, AnaS vê um policial na calçada e percebe que afinal talvez seja uma Blitz. Quando se passa numa Blitz, é obrigatório abrir os vidros. Abre o vidro lateral do lado da AnaR. AnaR pensou que tinha sido distração de AnaS, finaliza as fotos, sai da posição esquisita onde estava a fazer as fotos e carrega no botão para fechar o vidro. “Não pode abrir o vidro aqui!” Quando AnaS lhe tenta dizer que abriu o vidro porque viu um policial e que afinal aquela loucura de carros era uma Blitz, já era tarde. O policial vendo uma pessoa saindo “de cima” da pessoa que estava no volante e abrindo e fechando o vidro lateral, pega na pistola com a mão direita, aponta para o carro e prepara-se para atirar. Quando as duas se deram conta da confusão, abriram o vidro com as mãos no ar e disseram que estavam tirando fotos apenas. O policial estava cego. Talvez ele tenha “visto” duas pessoas, uma em cima da outra, abrindo e fechando o vidro, talvez para esconder algo e tenha pensado várias coisas incorretas e/ou proibidas para fazer dentro de um carro. Ou pensou que as pessoas do carro iam tirar alguma pistola. Ou que estavam apenas fazendo algo escondido. Algo errado. Nunca saberão.


Tentaram que o policial entendesse que tudo tinha sido um mal entendido. Que elas estavam na fila e decidiram tirar fotos, mas que a que dirigia estava com as mãos no volante e a outra teve de se “esticar” por cima da que estava no volante, para tirar as fotos pela janela lateral esquerda. O policial estava agressivo, acusando-as de irresponsabilidade, de estarem a colocar em perigo o trânsito, as pessoas, descuidar a responsabilidade de dirigir um carro, movimentando-se de forma perigosa dentro do carro, etc. Elas pedindo desculpa e tentando explicar que apenas estavam tirando fotos. Mas ele mesmo assim, disse para dirigirem o carro para a esquerda. Para a zona onde orientam os carros e pessoas que consideram ilegais ou suspeitas.


“Nossa, acho que vamos ser presas por ele achar que estávamos a namorar ou a fumar, a drogar ou sei lá o que mais.” Diz AnaS.


O policial indica o lugar para estacionar e aproxima-se do vidro. AnaS pede imensas desculpas e tenta explicar de novo. Ele manda-a calar e faz um sermão terrível. Que poderiam ter provocado coisas graves, que quem dirige um carro não pode fazer outras coisas, que podia ter atirado contra elas pelos vultos estranhos que viu dentro do carro, que eram duas irresponsáveis, etc. Um sermão como nem os pais lhes deram em meninas. No final do sermão, quando achavam que iam ser presas, mandou-as ir embora. AnaS tinha as pernas a tremer e os ouvidos tapados. Nem entendeu bem. O policial impaciente com sua anestesia auditiva, gritou para desaparecerem rápido, antes que se arrependesse. AnaS tirou o carro dali com todo o cuidado, para não bater em nenhum dos vários carros que estavam sendo enviados para o mesmo lugar. Parecia que estava a dirigir pela primeira vez. O ambiente era pesado, confuso, já noite e muitos faróis se cruzando.


Voltou à estrada, limpa, sem carros. Dirige para casa. As pernas tremem. Ainda não entenderam bem como de repente aconteceu aquela loucura e como se safaram. Ambas felizes e aliviadas, mas muito confusas. Silêncio. De repente, AnaS começa a chorar. Chorando e dirigindo. AnaR, pergunta porque chora se afinal não aconteceu nada. Tudo correu bem. Mas AnaS não consegue parar de chorar. AnaR insiste em saber porque ela tanto chora. AnaS responde: “No mundo onde vivia não existiam estas coisas.” AnaR “Mas é só por isso? Pronto, já passou.” Silêncio. AnaS continua chorando e responde: “ Não, não é só isso. Tenho a certeza de que se fossemos negras ou negros, estávamos presos/as, apenas por tirar umas fotos de forma desajeitada.”

Ana Santos, professora, jornalista

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