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2 (desen)Contos com a TransSalvador


Conto “DESINDIVIDUAÇÃO”

“Haveria um propósito em ter o Estado como algo que lá está para punir, ao invés de estimular, premiar os cidadãos que o sustentam contra vontade? Seria a nossa má vontade o que lhe alimenta a agressividade ou seria o inverso?" – ela pensava nisso, de short velho porque tinha saído apenas para comprar pão, verduras, queijo – a Ômicron estava a mil e ela permaneceu saindo apenas para o essencial. 61 anos, comorbidades...


Com sacos e sacos de compras esparramados pelo asfalto da Vasco da Gama e com pessoas hostis, de uma Transalvador hostil, que lhe havia mandado sair do carro com hostilidade para levá-lo embora num reboque.


- Pode me mostrar sua CNH? Ele disse. E daí em diante ligou o botão control + V: O sistema acabou de lhe bloquear porque está devendo o IPVA.


- Mas eu o recebi ainda ontem e vence em março, ela respondeu.


- Esse é de 22. A dívida é de 21.


- Ahn? Mas ninguém me mandou nenhum boleto, estávamos no meio da pior parte da pandemia, o carro nem saía da garagem. Como mandaram a 22, sem nem mencionar a 21?


- A senhora quer incorrer em desacato de autoridade? – (Que situação idiota era aquela? Então falar era desacatar uma autoridade surda, mouca, incapaz?) – ela pensava.


Lá se foi o carro. Ela ficou sem dinheiro, no meio da rua, de roupa velha, sem sutiã, rodeada por sacos de compras, com 61 anos, suas comorbidades como fieis escudeiras, na Vasco da Gama, Salvador, Bahia.


Poderia ter recebido uma advertência, até uma multa, se fosse um País normal, onde a prioridade não fosse punir exemplarmente aO OUTRO. Mas tinham que arrancar a motorista do carro, sua companheira de viagem e as compras – tudo pelo chão da Vasco da Gama. A autoridade estava, se sentia protegida pelo autoritarismo que ela exerce sempre que pode. Quase como uma prova que Deus coloca na frente dela, pra ver se a reencarnação está sendo útil ou inútil, sabe? Ela olhava aquele desenrolar absurdo. Quem não tinha enviado o boleto foi o Estado – e veja – o Estado brasileiro deve muita coisa aos seus filhos. E também teve aquele um ano inteiro pra lhe lembrar de sua dívida. Nada. Apenas alguém, naquele dia, acordou com a disposição do Rasputim ou como o Octópus. Sangue, humilhação, terrorismo urbano, alfaces e ovos pelo chão.


Muito trabalho, burocracia e problemas para pagar o IPVA. “A SEFAZ” só abre segunda, quarta e sexta – mentira. Você liga e lá está um serviço bom e funcional. Uma corrida de dificuldades a transpor e com o tempo a passar. Pagou. Mas chegando no depósito da Transalvador – tendo antes que passar por um ladrão de motos que tinha atrás de si umas dúzias de pessoas no meio da rua para linchá-lo – “pega, pega”! - foi surpreendida de novo:


– ...É, senhora... Mesmo pagando em dinheiro, precisa esperar 24 horas para o sistema dar baixa... – outra fala copiada, teleguiada. Quantos funcionários robôs-humanos a Transalvador congrega?


- Por quê não falaram isso quando levaram o carro? Estamos aqui nesse lugar sozinhas, em perigo, passando por um quase linchamento à toa?


- Amanhã a senhora paga uma taxa antes de vir pra cá. – Não importava o que fosse dito, argumentado – que era um lugar perigoso, que aquilo não se podia fazer com duas mulheres sozinhas, que eu podia ser mãe dele. - Amanhã a senhora paga uma taxa antes de vir pra cá, - Amanhã a senhora paga uma taxa antes de vir pra cá, - Amanhã a senhora paga uma taxa antes de vir pra cá. Bip, bip. Ponto final.


No dia seguinte, tudo de novo. O rapaz do depósito filosofou: - É a mão pesada do Estado, me desculpe. Eu preciso obedecer às ordens. Não estou aqui para discutir nada, senão perco meu emprego.


Num dado momento, ela cansou de argumentar. Gostaria de poder conhecer um político importante e sustentar que o Estado brasileiro nos deve um tratamento de confiança - nunca mais de desconfiança e força - e se alguém teria coragem para iniciar o processo, o alguém era ele.


Como por exemplo, o Governador. Ela o admirava. Um homem que tinha coragem de chorar, de dizer não. É preciso ser muito corajoso pra mostrar sua sensibilidade, num lugar onde quanto mais insensível melhor – a política. Ele tinha essa coragem que valia ouro.


Olhou o portão destruído do depósito da Transalvador. “Um motorista jogou o carro e destruiu tudo, de raiva”, disse o funcionário.


- Eu entendo o motorista. Acredite que diante dessa indiferença, eu quis fazer a mesma coisa, mil vezes – ela disse olhando fixamente para ele, que baixou a vista. De vergonha.


Saiu de lá e depois assistiu a uma aula de filosofia da escola espanhola, que apontou o erro do tal diretor da Transalvador - que ela nem sabia o nome – mas já odiava profundamente:


“Quem pensa no mais profundo, ama o mais vivo”. Os dois principais verbos humanos, juntos: pensar e amar. Principais porque nos tiram da indiferença e nos colocam na condição de humanos que veem humanos. Na condição de atentos a eles.


- Fique com a importância rasa da noção de poder que lhe paga o salário, mas saiba que isso nunca chegará a lhe recompensar, Sr Coisa Alguma.


É. Pensar e amar faziam toda a diferença mesmo...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Um Pesadelo chamado TransSalvador”

Ana relembra um dos muitos ensinamentos de sua mãe. “Dói muito mais quando somos magoados pelos que amamos”. Como ela tem razão! Total razão. Mas mãe, e quando é a cidade onde vives? O que se faz com esses ferimentos? O que se aprende com eles? Permanecemos no lugar, aceitando e sofrendo as consequências do assédio moral, das informações manipuladas, de acordo com o interesse de quem domina? Com total falta de diálogo? Infestados de ironia? Inundados de autoridade?


Ana precisa se apoiar, sentar. Sente náuseas só de pensar nessa palavra – autoridade. Justo acontecer isto a ela que estuda, investiga e trabalha, há 37 anos, ensino e aprendizagem, comportamentos assertivos, recompensa e punição nas relações humanas, o erro na sociedade moderna, a justiça em sociedade, num grupo, num time, numa família. Ter vivido o que viveu esta semana, lhe deixa imensas preocupações, perguntas, inquietações, medo. Para ela, a primeira vez, mas para muitas pessoas é diário este tipo de absurdo. Nunca na vida tinha sido tratada como marginal, ameaça, perigosa, criminosa, sabe lá o que mais, em 55 anos de vida. Que pesadelo!


Ana está com o seu pensamento a mil. O que adianta saber, aprender, ensinar as pessoas, a sociedade e depois cair nas garras de uma empresa administradora de trânsito que trata o cidadão como se fosse organização criminosa? Uma organização que não quer aprender o que deve ser, como deve ser. Apenas quer ter razão e ganhar dinheiro com as pessoas. Imagina que com a pandemia tenham arrecadado muito menos dinheiro em multas. Algo que deveria ser uma alegria, para eles deve ser um problema porque a forma como andam à caça de pessoas, carros, irregularidades é animalesca!!! Ana está espantada, sem argumentos, impressionada com a forma como o mundo abana nossa paz de vez em quando.


Está tentando encontrar uma saída para esta desilusão "amorosa". O que sentirá uma excelente cozinheira quando não a deixam cozinhar e a obrigam a comer comida estragada, podre, fora de prazo? As pessoas em volta assistem e vêm os que servem a comida, bem vestidos, muito organizados, com ar competente, dando um prato a essa cozinheira, junto com sorrisos, movimentos adequados. Só que ninguém, dos que assistem, sente o cheiro da comida. E estranham ela insistir que não está correto, em recusar a comida e ela é avisada que não pode recusar, ou será acusada de desacato, ou multada, ou presa. Ninguém imagina que aquela cozinheira sabe todos os erros que estão naquele prato de comida. Todos. Uma comida horrorosa, que, se fosse cozinhada de outra forma poderia virar uma iguaria. Seu coração está aos pulos. Se tem de pagar alguma coisa, tudo bem. Mas precisa ser maltratada?


Lembra aqueles olhares cruzados da autoridade conspirando e os olhares mudando quando a miravam e percebeu. Como ela pode saber mais? Como ela pode saber a solução? Ela, uma mulher? A verdade é dos homens machos de farda, das mulheres “machas” de farda que cumprem o trabalho, roboticamente – Ana lê noticias todos os dias da forma como estas pessoas libertam as frustrações profissionais pela casa e pela rua. Pessoas que nem sabem o que pregam. Pregam o que aprenderam para ter direito aquele trabalho. Obedientes, repetidores, tornam-se gente sem escrúpulos. Repetem a aprendizagem antiquada, empedernida, robotizada, de uma autoridade que não pensa, nem admite que outros pensem. Autoridade que não admite diálogo, justiça e o bem estar das pessoas. Ana está mesmo magoada e apenas sentiu uma nesga do que os pobres, negros, habitantes das comunidades da cidade, sentem todos os dias. Que loucura!


Pensa repetidamente, século 21, século 21, século 21. E seu coração dispara de novo. Como é possível algo tremendamente desajustado, injusto, patético – num momento de pandemia, de dificuldades para sobreviver, em vez de proteger, educam seus servidores para sugar, explorar, enriquecer, mudam as regras do jogo quando e como entendem, e não asseguram que o cidadão as saiba. Colocam as regras no seu site confuso, atolado de informações. “Você devia consultar”. “Você é responsável pelo seu carro.” Frases decoradas, em humanos mais automatizados do que robôs. “Nós temos razão”. Ponto! “Saia do carro com suas compras." "Nesta rua perto de uma comunidade, 11h30, sensação térmica de 35 graus? Jura? "E tenha cuidado.” Ana bebe água, respira. Lembrar faz voltar tudo de novo. Está tudo muito em ferida. Ela ama Salvador, mas Salvador está de cabeça perdida. No meio disto tudo, uma enorme felicidade por não estar no carro a sua mãe, seu pai, ou qualquer uma das pessoas com incapacidades de quem é amiga. Pensa que correria o risco de perder a cabeça...


Ana foi traída por um dos amores da sua vida – Salvador. Seu coração secou. Uma cidade que ama, desde menina, e onde é tão feliz, gerida por pessoas que não sabem nada de relações humanas, que comandam na base do medo, da desconfiança e da repressão, em pleno século 21? “Não tem ninguém “amigo” para quem ligar?” Pergunta o motorista do Uber que acaba de a conhecer. “Bem vinda a Salvador minha Senhora. Eles só querem ganhar dinheiro, não interessa como. Andam loucos atrás de nós.” O amor fica mais pequenino um pouco.


“Dói muito mais quando somos magoados pela cidade que amamos”. Essa frase da mãe não lhe sai da cabeça. O pesadelo não lhe sai da cabeça, porque nunca parecia ter fim. Aqui está bloqueado, mas no banco ou no sefaz parece que não. Vai e volta e vai e volta. Sol a pino. Zero sombra. Paga isto, paga aquilo, ainda falta pagar o licenciamento e parece que ainda tem mais um documento. E tem de esperar que o sistema confirme em 24 horas. Acalma-te Ana! E precisa do documento A e B e C e D e... Na hora de ir buscar o carro, num fim do mundo de insegurança, mais um pagamento que tem mais uma taxa. Pesadelo sem fim. Chega? Não...”vai ter de tirar a película do vidro da frente.” Onde está a regra que mudou e ninguém sabe? Deve estar no célebre site, atolado de informações. "A senhora tem obrigação de saber." Quer uma passagem para a Lua...socorro...tirem-me daqui... Ana, acalma-te!


Vê as pessoas à sua volta atoladas na lama das burocracias, incluindo ela. Atoladas na comunicação vazia, agressiva, desconfiada. Na dúvida, retira. Na dúvida, prende. Atoladas na comunicação robotizada – “A senhora precisa agendar neste número que só aceita agendamentos 2ª, 4ª e 6ª”. Na falta de nexo. Jura que fariam a mesma coisa se fosse Ivete Sangalo? ACM Neto? Leo Prates? Etc? Etc? Ahahahah... Pagava para ver isso. O queijo fatiado a derreter no asfalto. Parece que está a ver o senhor fardado a dizer. "Isto tem de ser, seja com quer for." Ahahahah...Sim, sim...


Como ela avisa o quanto tudo está errado? O quanto TransSalvador e seus gestores precisam aprender um dia que entre a corrupção absurda e a extrema rigidez na obediência de regras de funcionamento, existe o mundo belo e agradável do bom senso, da generosidade, da tolerância e da assertividade? Que toda essa forma é da Idade Média?


Acorda com dor de cabeça. Desta vez o pesadelo foi louco demais. Precisa escrever, guardar para contar aos netos. Eles sempre ficam espantados com seu pesadelos. Depois precisa procurar no Google os significados deste pesadelo bizarro. E olha o calendário para confirmar em que ano e século vive, para confirmar o que é sonho ou realidade. Pelo sim, pelo não, vai a pé para o trabalho nesse dia.

Ana Santos, professora, jornalista

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