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2 Contos Surpresa


Conto “MUDANÇA OBRIGATÓRIA”

Ela via o caminhão de mudanças em atividade, mas seu pai não a deixara descer e brincar naquele dia. De qualquer maneira, ela não gostava mais de brincar com os meninos, no prédio, quando seu Jorge estava por lá. A mudança, aliás, era a dele.

Houve uma coisa que ela não entendia bem. Ficou como um mistério sem solução até que ela crescesse um pouco mais para entender tudo. Seu Jorge a havia fechado com ele no mesmo lugar onde eram guardadas as latas de lixo do prédio. Ela odiou. Aquele cheiro de lixo era enjoativo. Ruim. Mas ele insistia que era legal. Lhe deu umas lambidas e ela falou claramente que queria sair dali, começou a se mexer, a mexer na porta. Ufa! Saiu.

Que espécie de brincadeira era aquela? Aquilo não tinha graça nenhuma. Não era pra ela desobedecer aos adultos, mas... Resolveu perguntar pra mãe.

Perguntou-lhe na cozinha. O olhar da mãe escureceu. Fez muitas perguntas. Disse pra eu não obedecer mais ao Seu Jorge. Quando seu pai chegou, ficaram cochichando. Muito.

Dia seguinte, sábado, sol. Diante do frio que fazia em São Paulo, era o dia especial aquele, ela iria brincar e...

Sem brincadeira naquele dia, até o caminhão de mudanças sair. Que droga!

Ficou ali acompanhando tudo pela janela de casa. O caminhão só saiu na hora do almoço. Seu pai, lá embaixo, as mãos no bolso, acompanhou tudo de perto. Seu Jorge entrou no caminhão e sumiu pra sempre. Ainda bem! Ele e aquelas brincadeiras nojentas dele.

Isso foi há muitos anos. Nada mudou entre os homens. Eles continuam com brincadeiras nojentas e atitudes mais nojentas ainda. Continuam vendo as meninas como se elas não sentissem, não soubessem e fossem mudas.

Ah, mas as mulheres mudaram muito. Os homens não entenderam ainda, mas as mulheres mudaram muito. E nada disso mais é suportável.

A pergunta que nenhuma mulher cala é: Ver uma criança de 5, 6 anos e deseja-la não causa repulsa nos homens? Então por que somos sempre nós a reagir, sem a ajuda deles? Na polícia? Na delegacia? No fórum? Na rua? No prédio? Essa covardia omissa é tão repulsiva quanto o desejo.

Os homens ainda não cansaram de verem o horror, o nojo estampado nos olhos das mulheres? Ainda não cansaram de estuprá-las e depois fazerem de conta que a culpa do ataque é delas? A culpa do ladrão lhe roubar é sua? De lhe matar? Então o gênero feminino tem culpa por existir?

- Hipócritas esses caras. Que nojo. Hipócritas.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “A casa dos meus sonhos”

Lá vem o sonho de novo. Ana se vê brincando com os irmãos e primos numa casa abandonada, grande, espaçosa, cheia de sobe e desce, de pedras, de esconderijos, com vegetação misturada com o concreto/cimento. Se vê e se sente alegre e entretida, e todos também parecem sentir o mesmo. Aquele sonho a faz sentir bem, em paz, serena. Durante o sonho e quando acorda. Claro que quando começa o dia, ela rapidamente esquece totalmente porque tem sempre mil coisas para fazer e nunca pára para sentir ou para avaliar nada. Parece uma gazela correndo na pradaria – sempre veloz, sempre sem tempo. Mas quando o sonho volta, ela volta para esse lugar estranhamente bom de “um tempo” muito mais lento.

Por vezes os amigos falam sobre sonhos e sobre pesadelos, mas quando lhe perguntam nunca se lembra do que sonhou. Isso é engraçado, não é? Ela realmente nunca se lembra daquele sonho, quando está acordada naquela vida “veloz”.

Fez os anos todos da escola numa cidade perto, fez a faculdade noutra cidade – mais longe – e começou a trabalhar nessa mesma cidade. Acabou por ficar por ali, as ofertas de emprego lhe agradavam, aprendeu a viver daquela forma e começou a sentir-se em casa. Ainda lembrava dos primeiros tempos na cidade, em que nem sabia as ruas, não sabia andar de ônibus ou autocarro ou camioneta, nem sabia como as coisas funcionavam. Fazia quilómetros a pé para voltar para casa das aulas. Não sabia viver com dinheiro, comprar coisas, gerir seus dias, naquele mundo tão diferente. As pessoas se comunicavam rápido, com astúcia e percebia um ambiente mais perigoso – ter cuidado para não ser roubada, enganada, não era habitual para si. Na sua anterior vida, estava habituada a gerir tudo muito bem, mas nessa época vivia na casa dos pais, andando no trem/comboio para a cidade onde estudava. Era tudo mais fácil, muito familiar, muito confortável. Sabia tudo de cor, como ir, como comprar, as ruas da aldeia onde vivia, as ruas da cidade onde estudava. Foram tempos difíceis, até se adaptar. Quando começou a andar de carro, enganava-se tantas vezes no caminho, que acabou por aprender caminhos novos dessa forma. Mas agora, agora amava o lugar, amava circular pela cidade e amava ainda mais, quando voltava do trabalho, ou de visitar as irmãs e os amigos, ou de vir do médico ou outra atividade qualquer, voltar para casa por ruas que ainda não conhecia. Passou a adorar descobrir lugares novos, caminhos novos, apreciar a cidade. Os lugares prediletos eram as ruas junto do rio, junto da foz do rio, junto do mar. O pessoal já sabia. Muitas vezes se aborreciam porque ela demorava mais, por vezes até chegava atrasada, mas que o passeio era espetacular, até era. Um dia a Ana foi para um trabalho no carro de um colega e comentou muitas coisas na viagem.

- Caramba, nunca tinha reparado que aqui tem esta casa tão antiga e tão linda. E estas árvores? E a cor do rio neste momento do dia. Que incrível!

- Mas Ana, tu passas aqui quase todas as semanas...

- Pois é... Mas nunca tinha reparado em muitas destas coisas. Como é estranho isso não é?

- Talvez, mas realmente quando dirigimos não conseguimos ver tudo isso porque precisamos ter a nossa atenção na segurança e condução do carro. Fico feliz por hoje te dar a possibilidade de veres a cidade de outra forma.

- Eu que agradeço.

E Ana foi saboreando cada momento, cada descoberta. De repente, vê algo que a deixa espantada, assustada, impressionada. Como isso é possível? Não pode ser verdade... Mas é igual, totalmente igual... Sua cabeça voa para os momentos em que brinca naquelas pedras, para os lugares onde vê os amigos olharem para ela e sorrirem. Ali estão as pedras, ali estão os arbustos, as paredes degradadas. Ali está aquela pedra enorme e inclinada onde ela sempre gosta de subir e de admirar o mundo com os braços abertos, um sorriso enorme e o gritinho: “uhu”.

- Pára....pára, pára por favor – grita Ana subitamente.

O amigo trava bruscamente, encosta o carro e fica super assustado com o pedido e mais ainda com a cara da Ana.

- Ana? O que foi que te aconteceu? Deixaste-me assustado...

- É que...

- Fala alguma coisa por favor...

- É que...

- Ana...por favor...

- É que acabei de ver a casa dos meus sonhos...

Ana Santos, professora, jornalista



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