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2 Contos sobre quem somos


Conto “MEDO DE SER NORMAL”

Parada na porta do INSTITUTO PHILIPPE PINEL, Botafogo, Rio de Janeiro, em plena ditadura militar. 1975, talvez 76 – era Médici – o torturador-mor. Com a sua aquiescência aconteceram atrocidades no Brasil.

Ela – ainda uma menina – 15, 16 anos e seu trabalho de escola – ir ao PINEL, ao famoso PINEL, ao hospício, entrevistar loucos, malucos, gente que tomou eletrochoque, abobados – seus preconceitos eram alimentados por seus medos e aos 15 anos, vivendo numa ditadura brutal como a do Brasil, eles eram muitos.

Sol de meio dia. Ela e as muitas palmeiras que existiam na entrada esperavam por seus colegas de classe – mania de chegar na hora. No Brasil, quem cumpre promessas, espera, é deixado de lado, fica ali meio alijado da festa apenas porque percebe a regra, a entende e tenta ser fiel a ela.

De repente uma pessoa estranha – um homem – aparece com roupa de interno e lhe fala: - Você corre o risco de um coco cair na sua cabeça!

- Ahn? – e já começou a olhar as palmeiras com desconfiança.

- Olha o coco aí! – E rápido a puxou pela mão pra tirá-la de debaixo das palmeiras. Logo em seguida veio um enfermeiro e ela continuou à espera dos colegas. Ao meio dia. No Rio de Janeiro. Fora da sombra das palmeiras. Depois de poucos minutos:

- Cara, que idiota cair na lábia do maluco!

E o caso foi o primeiro da tarde. Risos. Amigos, histórias. Vida. Entrou no ambulatório para entrevistar um psiquiatra e sua primeira pergunta foi a esperada: - O que é ser louco?

- Louco é o cara que perde tudo, menos a razão. Toda família quando se desequilibra elege alguém para ser o desequilibrado, o “etiquetado” – louco. E é irresistível impedir a onda.

Aquilo lhe ficou na cabeça como uma definição estranha, como tanta coisa que acontecia no filme “O Estranho no Ninho”/”Voando Sobre um Ninho de Cucos”. O louco perde tudo, menos a razão... estranho isso. Até que depois, perambulando com enfermeiros por alas de trabalho em grupo, ela conheceu Cecília.

Cecília. Sentada, entre enfadada e aterrorizada, olhava a movimentação dos doentes. Tinha a nossa idade – talvez uns dois anos além de nós – e quando nos viu, foi se aproximando.

- Meus pais me prenderam aqui. Ele me viu fumando maconha com meu namorado e me internou aqui. Eu não sou doida, cara. Nem sou doidona... fumar um baseado não tem anda a ver com ser maluca – eu achava isso. Mas meu pai usou as influências que ele tem e me colocou aqui. Eu não sou doida, cara. Vocês precisam me ajudar a sair daqui.

Choque.

- Tem mais gente como você, aqui? Normal, sem doença nenhuma?

- Cara, não sei. Dizem que tem preso político, pessoal da universidade, mas eu não vi. Também não quero saber. Quero apenas que vocês me ajudem a sair daqui.

E nós tentamos. Fomos falar com o psiquiatra e ele nos informou que o pai era o responsável pela filha. Que ela era menor de idade.

- E os pais podem inventar uma doença mental e castigar um filho assim?

1975, 1976, era Médici – o estuprador de mentes. Podia. Quantas pessoas esse poder prendeu, deu choques na cabeça, torturou ao roubar-lhes a vida normal? No Brasil? Naquela época maldita? Como saber? Como afirmar?

Fez uma redação que acabava: loucos amados, loucos varridos! Tirou 10, tentou voltar, rondou as palmeiras, mas teve aquele medo que precisa de um adulto, de um guia, de uma palavra. E não entrou. Ficou rondando a portaria. Debaixo das palmeiras que “dão cocos que caem na cabeça da gente”.

Hoje uma das formas de distinguir “idiotas juramentados, fundamentados” é ouvir loucuras maiores do que “o coco da palmeira vai cair na sua cabeça”: O Brasil vai virar Cuba! Quem não é conservador é comunista – e saber que muitas Cecílias foram presas porque “papai pode interferir pedindo ao seu amigo coronel, delegado, polícia ou autoridade” qualquer absurdo, se a lei não precisa mais ser cumprida.

Como antigamente, se se entende a lei e tudo faz sentido, devemos cumpri-la pensou. - E coco na palmeira e igual a urna eletrônica perigosa, idiotas.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Palavras para quê?”

Ela nunca soube porque fazia aquilo. Hoje, adulta, continua sem saber. Gostava muito de descobrir porque fazia algo tão errado, sendo tão pequena, não entendendo nada da vida. É que tinha a certeza desse sentimento, dessa escolha e lutava por todos os meios para lidar assim, para fazer isso.

Ele vinha muitas vezes a casa dela. A mãe amava aquele homem, tinha por ele um respeito enorme, uma admiração, um carinho brutais. Era um dos seus melhores amigos de infância. Seus olhos brilhavam sempre que falava no ISA. Ana, de cada vez que percebia que ISA vinha a sua casa, ficava em pânico, com medo, tremia por fora, por dentro, sentia um terror absurdo. Tem recordações de gritar, de chorar, de fechar as janelas da casa, as portadas das janelas, de colocar todos em alvoroço, de deixar todas as pessoas constrangidas com aqueles comportamentos. Para ela, ISA era um terror, para todos, um senhor. Nem o olhava direito, nem se aproximava. Tenta lembrar alguns pormenores mas já passou muito tempo e a enorme vergonha ajudou a esquecer. Sabe que o som que ISA fazia a tentar falar a assustava. ISA era mudo e Ana não sabe onde nem como aprendeu a reagir tão mal à sua presença, mas a sua forma de falar, de ser, de olhar, a assustava.

Os anos passaram, Ana foi crescendo. O medo foi passando, a estranheza e o desconforto também, sempre que estava junto dele. Sabe que nunca lhe disseram nada nesse sentido, nunca a estimularam a tratá-lo assim, a sentir esse medo ou desconforto, muito pelo contrário, ele era muito amado, querido e respeitado na sua casa e na sua família.

Foi para a faculdade para outra cidade e quando voltava, nos finais de semana, ouvia de vez em quando falar dele. Mas a sua vida estava tão ocupada, tão cheia que nem se lembrava mais do medo, das cenas bizarras que fazia nem da estranheza na sua presença. Sabia que ele perguntava por ela e isso a começou a deixar feliz.

Ana teve experiências boas na vida, teve sorte, teve oportunidades. Teve algum sucesso, suficiente para aparecer na televisão, nos jornais, para ser reconhecida na rua. A vida foi avançando, ela, adulta, voltou para trabalhar uns anos na terra onde nasceu. E era frequente ver ISA passando em frente a casa dos pais, quando chegava do trabalho. Ficavam na conversa horas. Era divertido e gostoso fazê-lo. A mãe, que a aguardava, espreitava pela janela e quando via os dois na conversa, descia para a rua para se juntar ao papo. E ali ficavam horas os 3. Era mágico assistir aos dois a conversarem porque se comunicavam de forma perfeita com poucas palavras mas muitos gestos e muitas expressões faciais, sons. Até piadas contavam. Incrível. Ana, ficava ali, apreciando e pensando como pôde ser possível ela ter medo daquele ser humano tão incrível, tão doce, tão sensacional, tão melhor do que ela...

No final de uma dessas conversas, a mãe contou-lhe que durante as viagens, o sucesso, a ribalta dela, ISA aparecia lá em casa com os recortes das notícias, feliz, orgulhoso, contente, contente!!! Caramba!!! Como ela queria recuar ao tempo de menina e lhe dar um daqueles abraços de colar as almas, em vez de lhe fechar todas as janelas e portas. Não podia, mas felizmente pôde lhe dar alguns abraços em vida, pôde usufruir da sua presença, pôde aprender com ele muitas coisas. ISA era um ser que não ia com a manada, um ser que não tinha receio de ser excluído, que não tinha vergonha de ser como era, nem medo de ser apontado. Foi quem quis ser e foi muito amado.

Ana Santos, professora, jornalista

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