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“2 Contos sobre pequenos e Grandes”


Foto retirada do Facebook

Conto “L&B”

Ela viu espantada que seu boneco Super B, que lhe foi vendido numa loja que se dizia oficial e que garantia que ele era original, indescascável, inquebrável, inenarrável era apenas propaganda enganosa. A tinta do boneco ficou “fubenta” e de repente, seus pedaços começaram a cair pela casa. Daquele super herói anti-tudo não sobrou nada.

- Não quero nem saber! Vou meter essa coisa num envelope e mandar de volta! Onde é a fábrica? É China, é? Paraguai? Não me diz que é da Coreia! Esse negócio é falsificado!

- Deixa eu ver aqui... vira pra gente ler “made in” algum lugar.

- Made in USA. Made in USA? Made in USA!

Do outro lado da rua, uma outra menina tirou do armário seu boneco, o L. tinha ficado numa caixa que todos tinham jogado de um lado para o outro por um tempão. Levantou a tampa, espiou lá dentro e:

- Será que não quebrou?

Direitinho. Tinha saído um pouco a tinta do cabelo, mas de resto...

- Será que quebrou por dentro? Porque por fora tá bonzinho...

Tirou da caixa, colocou o bonequinho em pé... Tudo funcionando.

- Ei, L, você ainda sabe andar por aí? Bora botar uma pilha em você?

Que tarde ela passou com ele... Mas do outro lado da rua vinham tantos gritos e reclamações que eles entraram na sua brincadeira. Ela parou e ficou ouvindo a vizinha. Ficou com pena dela, coitada. Acreditar que comprava um brinquedo importado caríssimo e quando se olha bem...

- Mãe, acho que o brinquedo da Patricinha ali de frente é “butiquefe”.

- Que negócio é esse, menina?

- Butique de feira, mãe.

- Será? A mãe dela passa aqui falando que é toda certinha...

- Acho que passaram a perna nela...

Viram, de repente, passar um boneco voando pela janela:

- Eheheheh... Vai ver esse aí já pegou o avião!

- Pára, menina! Se eles ouvirem, ainda são bem capazes de tocarem aqui na porta aos gritos!

- Amanhã você deixa então eu brincar com ela com meu boneco L? Eu mostro ele com calma e tenho certeza que ela vai se lembrar porque esse brinquedo aqui tá praticamente novo! A gente ainda vai brincar muito com o L, mainha!

- Deus benza, filha... Deus benza...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Pelé. Foto retirada do site transfermakt

“Pelé, o Grande”

- Mãe?

- Oi?

- Eu quero jogar futebol, quero ser uma grande jogadora, assim, como aquele senhor brasileiro, o Pelé.

- Ai filha, não me diga isso não. Essas coisas não são para meninas.

- Como assim mãe? Coisas fenomenais, grandiosas, movimentos nunca vistos, dançar com uma bola no pé, não podem ser para meninas? Porquê?

- Não é nada disso. O futebol é bruto, perigoso, só tem homem e não tem nada que ver com meninas como deve ser.

- Xiii mãe que linguagem estranha a da senhora. Como a senhora vê isso no futebol? Será que falamos o mesmo assunto? Futebol para mim não é nada disso não. Acho que a senhora nunca viu jogar o Pelé. Se a senhora um dia assistir ao Pelé jogando futebol a senhora vai me entender. Mãe, veja bem, o Pelé no futebol é como Bach, Beethoven, Chopin, na música clássica, é como Salvador Dali, Picasso, Van Gogh, na pintura, como Rodin na escultura, como Gaudi, como Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Shakespeare, Dostoiésvski, como Einstein, Galileu, Darwin, Curie, na ciência, como Aristóteles.

- Filha, você está endoidecendo...De onde você tirou essas ideias? Preciso te levar num médico...

- Por favor mãe, acredite no que lhe estou dizendo...Todos estes nomes e muitos mais me fazem melhor pessoa e o Pelé também. Ele me ensinou a olhar o Futebol como algo extra-sensorial, algo proprioceptivo, como algo espiritual. Tem alguma coisa que me modifica por dentro quando corro com uma bola no pé, existe uma sensação de liberdade muito forte e de determinação quando fujo a todas as adversárias e resolvo todos os problemas que encontro no campo e, finalmente, quando estou prestes a conseguir o que desejo, o gol, me preparo e concretizo com todo o cuidado e respeito porque é também o desejo de todas do time, de toda a equipe técnica, de todos os diretores, de toda a torcida. É muita gente que levo no meu pé e eu gosto disso e sou capaz de o fazer. Mãe não me impeça de sonhar, não me impeça de tentar ser alguém que acha que consegue fazer o que poucas conseguiram. Me deixe tentar pelo menos. E mãe...

- Sim?

- No dia do meu aniversário, que é um domingo, a senhora vem comigo ver o Pelé jogar... Sua vida mudará, a senhora vai ver...

Ana Santos, professora, jornalista

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