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2 Contos sobre Palavras


Conto “Conflito de Gerações”

90 anos bem vividos. Meio cansado da força da vida, é verdade - a COVID, a solidão, o fato de ainda se entender melhor com promessas feitas "no fio do bigode", num mundo sem bigode... Agora, as pessoas nem precisavam se ver porque 90% do mundo funcionava online.

Quando se podia imaginar que ir ao banco deixaria de ser uma necessidade... nada de terno para cumprimentar o gerente e fazer aquele "média", nada de passar na porta apenas para dar aquele olhar, procurando por "ela", nada de ligar o carro bem cedo até ele esquentar... Nada de seus netos o tratarem por senhor e pedirem sua benção também. Os netos bem novinhos ainda pulavam felizes em seu colo, mas os adultos mal disfarçavam a falta de atenção.

O que havia acontecido com o respeito, com só se sentar de camisa à mesa, em não dizer palavrão na frente dos mais velhos; qual era o problema em cumprimentar as pessoas, pelo menos?

Olhava aqueles adolescentes mudos, olhando fixamente o celular, todos de óculos, todos mudos, todos atentamente falando com seres imaginários, antes daqueles que estavam sentados bem ali na sua frente...

Se mexeu na cadeira, tentou levantar e perdeu o impulso. Mais desanimado ficou quando, mesmo com a sala cheia, ninguém viu.

Quem estava junto de quem? Quem via o que acontecia? Se ele fizesse xixi na calça ou pior - se morresse - quanto tempo levaria para que seus netos percebessem o que acontecera? Quem daria por sua falta?

Olhou longamente e, de repente, soltou um palavrão terrível, dos mais cabeludos que sabia. Todos levantaram os olhos, alguns filhos vieram correndo. Ele não perdeu tempo e mandou outro. E mais outro.

De repente todos falavam entre si, especulavam sobre o acontecido, justificavam, perguntavam aos adolescentes o que tinham feito - e claro, eles não faziam nada, eram mesmo como múmias - num frenesi que não se via há anos.

- Quer ir ao banheiro, sente alguma dor, quer ir ao médico, talvez um lanchinho, alguém falou alguma coisa e o senhor não gostou, releve meu pai - quanta coisa ele ouviu...

Será que só bancando o maluco boca suja se constrói a chance de todos falarem de novo entre si? Que geração estranha...

- Quer dar um rolê, se estressou com o quê, qual é a treta, ta vacilando meu velho, que tal um rango pra relaxar? - Que falar estranho, idioma estranho, espécimes estranhos...

Até que seu "cotoquinho" mais pequeno de todos se aproximou, escalou suas pernas, apertou suas bochechas e o puxou - tête à tête, olho no olho.

- Vovô quer pizza? Eu te dou um pedaço da minha!

Ele se deixou apertar, enquanto pensava que fosse o que fosse, o tal conflito de gerações tinha conserto, com certeza!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Discutir”

- Seu...seu reverendíssimo onagro...

- Como é? Você, um sevandija, vem com esses preparos, ao se dirigir à minha pessoa?

- Pessoa? Como um ser flibusteiro se pode considerar uma pessoa?

- Ahahahahah...essa é boa...seu mefistofélico...

- Sabe? Eu sou fleumático, por isso, não importa o que diga de mim. Fale à vontade se acha que vai a algum lugar.

- Ouvir seu discurso pérfido, me faz ficar com todo o corpo plissado.

- Incrível...decidi ruar e olha a minha sorte...dou de cara com sua gentileza ignóbil.

- Aí é demais, seu réprobo, seu soez, seu...

- Continue seu peralvilho...

- É mesmo um obnubilado...

-...

Ana chegou em casa sem falar uma palavra. A mãe achou estranho esse comportamento, afinal ela era uma faladora, uma máquina de palavras.

- Ana?

- Sim, mãe?

- Porque estás tão calada? Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu...

- ?

- Tenho saudades das discussões de antigamente. Queria ter vivido em tempos passados, onde as pessoas falavam, se enfrentavam pela linguagem. Agora, fala-se uma frase e já se parte para as agressões.

- De onde te veio essa ideia?

- Ao voltar para casa, ouvi uma discussão entre dois velhinhos e fiquei chocada. E também amei!

- Amar uma discussão?

- É verdade mãe, acredite. Amei mesmo!

- Tudo bem. Acredito... Olha aproveita e vai chamar o teu tio porque já está na hora do jantar.

- Ok.

Ana entra no escritório do tio.

- Tio?

- Sim?

- É com profundo arroubo que venho informá-lo que o jantar está pronto.

-Nossa, quanta gentileza e eloquência nas suas palavras minha sobrinha!

- É isso Tio e é assim que vai ser a partir de hoje. Mesmo quando estiver em situações belicosas ou no meio de um alarido, serei frugal e perene na minha linguagem...

- Nossa, nossa...estou estupefacto...mas também aliviado. Andavas numas companhias e com uma linguagem terrivelmente grosseira...Assim gosto... Vamos lá jantar. O que será que a tua mãe cozinhou hoje?

Ana Santos, professora, jornalista

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