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2 Contos sobre Omeletes/Omoletes


Conto “A ESPANTOSA VIZINHANÇA DE LUDMILLA”

Semana de debates na TV.

País: Brasil.

Estado: Bahia, a espantosa Bahia.

Não que Ludmilla fosse a favor de um dos candidatos - ela era muito mais contra um deles, que lhe parecia um ogro mal arranjado, com aquela forma de falar grosseira, indelicada e indesejada, aquelas piadas sexistas de porta de botequim, depois da esbórnia. Aquela espuminha permanente no canto da sua boca, aquela língua cruzando a fronteira da mandíbula, como a cobra que atormentava o Mogli.

Queria apenas competência e nomes novos e também nisso, “a cobra” já a tinha frustrado de novo porque por causa dela – só por causa dela – a disputa estava focada entre radicais e progressistas, entre liberdade e ditadura. “Que atraso” ... – pensou mais uma vez – antes de receber mais um Twitter.

No telefone, à noite, contava às amigas:

- Gente, ainda ontem uns aviõezinhos “gatos pingados” ficaram bem uma meia hora atrapalhando o meu telefonema mais importante do dia com um barulho infernal – ninguém merece! Aliás, eu nem sei como os homens insistem em nos chamar de descontroladas ao menor sinal de irritação nossa, quando eles jogam gasolina em cima dos próprios carros gritando histéricos que o caríssimo combustível do Brasil, baixou 10 centavos... Esses caras precisam se rever, viu?

O relógio marcou 20:30 e começou a entrevista do rival do candidato cobra. Ela estava fazendo omeletes na cozinha e congelou: não era bem um protesto, era um ataque histérico coletivo, com homens – apenas homens – gritando pelas janelas. Nada de bater panelas. Eram urros histéricos.

- Homens, tanta evolução pra morrerem na praia, que vergonha...

Pra piorar o estado emocional da vizinhança, o adversário estava indo bem. Bem não – ele estava perfeito nas respostas, ao contrário do outro. Mas o que esperar de um ogro, meu Deus?

O vizinho do fundo ligou um aparelho que imitava buzina de caminhão e ela aumentou o volume da TV porque o adversário da cobra falava de paz, de pacificação – tudo o que ela queria. Homens normais de novo, sem ataques de pelancas.

Algumas vozes lá longe ensaiaram a palavra “Mito”. Ela, mais uma vez pensou que os homens bateram tanto no peito clamando sua pseudo-evolução para morrerem na praia mesmo: quem sabe o é que mitologia, jamais acharia nada naquele cara que fosse parecido com um mito. E assim se passaram longos 40 minutos: homens berrando descontrolados enquanto ela fazia pão com omelete para o jantar.

Ao final, o jornal dava as novas discussões: a performance incrível do adversário, termos de votar sem celular e – seu queixo caiu – normatização pra votar sem armas.

- Gente, num dia onde nem beber se pode – o único dia brasileiro de lei seca - os caras querem questionar a ação de se levar armas pra sua zona eleitoral? Ai, ai, viu? Os homens estavam mesmo com muita dificuldade de pensar coisas que prestassem!

E assim engoliu o último bocado de seu sanduiche e foi lavar os pratos.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “A Caminhada”

Caminhar. Um passo a seguir ao outro. O equilíbrio do movimento cadenciado. Caminhar e ao mesmo tempo ser capaz de olhar as árvores, os pássaros, o céu azul sem sair do prumo. Seus olhos vêm suas pontas dos pés surgirem na sua frente, um a seguir ao outro, como uma máquina hidráulica do tempo: Tic-Tac pernil, Tic-Tac pernil. Olha as pernas e se impressiona como elas parecem se mexer sozinhas. Pensa com espanto como o corpo humano é incrível. Enquanto as pernas caminham, seu corpo está fazendo milhões de outras coisas. Tudo gostoso, tudo suave, tudo sem uma ponta de dor. Como isso é possível depois de tanto sofrimento? Afinal a vida quando desalinha ainda tem como alinhar. Sempre tem um jeito de alinhar.

Um ano atrás, nem respirar conseguia sem dor. E não era a dor que conheceu pela vida fora, era uma outra, diferente, com extrema personalidade, presente, contundente, excruciante, que lhe turvou a vida, seus movimentos, até seu pensamento. Duvidou da recuperação, assustada, mas tentou, muito assustada, tentou, aterrada, tentou, desesperada. Subdividiu a vida em pequenos gestos como um robô desengonçado que ainda não está aprimorado. E aos poucos, bem poucos mesmo, foi somando, construindo, animando. Por vezes, tinha dias, onde tudo escorregava de novo. O medo ria, sorria, gargalhava e ela ficava em silêncio, recuando na alegria e voltando aos pequenos gestos somados para beber um copo de água, coçar as costas, deitar, ler um livro, sentar, almoçar.

Passaram dias, semanas, meses, um ano. Já consegue ter dias sem dor, já consegue relaxar a caminhar. Consegue olhar o mundo, dar bom dia às pessoas, acelerar, travar, ajudar pessoas mais velhas a carregar as compras, durante a caminhada. Um milagre, um caminho, uma construção, uma benção. Seu corpo já é autônomo de novo.

Hoje a caminhada está quase no final e ao virar a esquina vê um senhor deitado em cima de um colchão velho no chão sujo. Chamou a sua atenção a sujidade, chamou a sua atenção que o senhor não tem grande parte das duas pernas. Mas chamou muito a sua atenção que ele estava tendo espasmos. Estava de costas mas ela podia perceber que ele se contorcia, movimentos súbitos e irregulares de contração. “Meu Deus o que será que tem este homem?” - pensou. O ano que passou a deixou mais preocupada ainda com as pessoas da rua. Se elas ficam no estado que ela ficou como se tratam? Como se recuperam? Está tentando perceber o que tem aquele homem de tão impactante ao nível de movimentos e tentando imaginar como o poderá ajudar e quando está mais próxima dele, percebe que afinal não é bem um problema o que ele tem. O homem, o senhor, o morador de rua, está se masturbando ali deitado no colchão velho, no chão imundo, na maior entrega e desenvoltura que um ser humano pode imaginar à luz do dia e não está nem aí para quem passa. E foi assim que nasceu a praça do masturbómetro.

Ana Santos, professora, jornalista

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