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2 Contos sobre o Tempo


Conto “RESSIGNIFICAR A VIDA”

A morte se sente logo quando chega porque ela dá uma dor na alma. Uma dor de alma.

- Na alma e de alma acho que não são a mesma coisa... Mas, na verdade, a morte dói nas duas formas. Ela nos acerta, apenas. – pensou.

Morrer por acidente, num acidente é incalculavelmente doloroso para os que vão e os que ficam.

- Por isso o lugar da dor é a alma inteira.

Não sabemos mesmo lidar com perdas. Na vida, perdemos o tempo inteiro - e os “coachs” dão cursos de como ganhar sempre, de como liderar, de como sermos chefes!

- Balela. Mentira. Na vida real, teríamos que fazer cursos para aprendermos a perder e prosseguirmos acreditando nas nossas capacidades, de sermos liderados e ainda assim compartilharmos nossas melhores ideias, de sabermos conviver com harmonia, quando não chefiamos nada. De sabermos viver – e viver significa compartilhar momentos e não apenas “tirar fotinhos dessa falsa alegria permanentemente facebookiana” – pensou.

Bem, ali estava a morte. Sempre prematura pra quem está do lado da perda. Por mais que a razão aponte que há escolhas que não nos pertencem e que o destino, o karma e a vida se impõem a nós, a perda remete à falta e num mundo tão imediatista, nem dá tempo para termos a sabedoria para aceitar o que não entendemos.

- Antigamente a pessoa ia para os Himalaias meditar. Agora, a gente acessa o YouTube e lá estão os mestres... Mas queremos evoluir com eles ou “não temos todo esse tempo”? Há muitos anos eu ia nas reuniões da Sociedade Teosófica e nos retiros, passávamos dias corridos sem falar nada – apenas para valorizar e agradecer o dom da palavra humana. Agora, ninguém fala com ninguém, cada pessoa fica no seu celular e quando fala com quem está do seu lado, não é para exatamente contribuir com nada... Reclamar, reprimir, mandar nunca foram a parte principal da troca pela palavra falada... Como ficamos assim - tão sozinhos – até quando olhamos para a morte? Como então conseguiremos ver nela a libertação, se mal e mal conseguimos abstrair o momento da perda dentro de nós?

Seus olhos viam em sua imaginação tantos lances de mortes repentinas: Seu pai que teve uma dor de cabeça e morreu de AVC, acidentes de carro, assassinatos, quedas, síncopes. Sua vizinha foi pegar uma panela naquele armário (que toda casa tem) embaixo da pia, escorregou, caiu de costas, bateu de cabeça e lá ficou. Morta. Caprichosa, a morte nos ensina e reeduca para levarmos apenas nossos amores e desejos puros, mas milhares juntam bilhões e se agarram a eles, enquanto bilhões de pessoas sentem que nada têm para se agarrarem. Mas na hora da partida – seja ela como for – quem leva o quê além de si mesmo, sua consciência e o que fez nessa vida?

- A pergunta então é: “O que estou fazendo de útil para o mundo agora? E agora? E agora?”. E cada segundo conta.

- Tic tac, tic tac...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “para a Idalina”

Estava olhando o jardim. As folhas secas caem. Os pássaros veem e vão. Os beija-flor bebem a água das flores, cirandam sua cauda em frente aos nossos olhares e vão seguindo a sua vida noutros lugares. Ao longe o homem do carro do ovo falando naquele microfone bizarro, medieval, mas também familiar. Vende ovos, mas também inova, vendendo suco, queijo, ovos de galinha e ovos de codorna, etc, etc, etc. Meio da tarde. O silêncio do calor, o silêncio do tempo, o silêncio do cansaço, o silêncio do desconhecido. Ao longe uma máquina de pedreiro cortando, furando, reformando; um aspirador na casa do lado, limpando; carros circulando a caminho do trabalho, carros sendo o trabalho – uber, carros entregando encomendas – correio pela internet. A vida em movimento cíclico. O mundo seguindo. O tempo sendo o que é, móvel, implacável, presente. Não interessa se estamos contentes, alegres, felizes, tristes, preocupados, destroçados, feridos, sobrevivendo. Se caímos, se saltamos, se ganhamos, se perdemos. O tempo e a vida seguem seu curso. Eles não são nem amigos nem inimigos. Eles apenas são. Estão presentes, sempre, mesmo quando nós já não estamos.


Idalina, porque foi o teu momento de ir? Imagino que nem tu saibas. O tempo e a vida não falam, não explicam, não nos permitem entender. Lembro que na faculdade a gente se dava tão bem... O mais fofo era que nos dávamos muito bem sem nenhuma sufocar a outra. E eu gostava disso, ainda hoje gosto muito disso. Eu sempre tinha de ir para os treinos ou para os jogos, ou para a minha família e tu tinhas de ir para casa, ou para a família ou para estar com o teu namorado. E éramos tão amigas assim, éramos tão felizes assim. A vida seguiu, eu segui no meu mundo e tu seguiste no teu. Sempre que nos víamos ou falávamos éramos as mesmas, éramos a nossa amizade, o carinho, o desapego, o saber que a outra estava bem do seu jeito e estava tudo certo. Eu sempre achei que por aqui estarias e que sempre haveria tempo para um dia, um dia estarmos, falarmos tudo, sentirmos tudo, juntarmos o que vivemos e o que aprendemos e com isso florir a nossa amizade. Mas o tempo e a vida não são assim porque ou é agora ou pode nunca mais ser. Não era para ser dessa forma. Custa saber isso, custa sentir isso, custa saber como foste, custa não saber onde andas nem o que tiveste de passar, sentir, aprender. Eras um sorriso, aberto, cheio, intenso, junto com um olhar luminoso, rico, doce. Eras incrível, eras especial. Eu gostava demais de ti, relaxada, apreciava a tua vida e os teus ao longe e aplaudia de pé, essa vida linda, terna, serena que tinhas. Como tu. Na vida é agora ou não é mais. E o tempo segue, a vida segue, eu preciso seguir.

Ana Santos, professora, jornalista

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