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2 contos sobre festas




Conto “SÃO JOÃO É ESTRANHO”


A menina só parava quieta quando ouvia os fogos – tinha medo daquele cheiro, sua mãe tinha mais medo ainda e aquela alergia, aquela faringite não tinha medo de nada.


Quanto mais perto do São João mais bombinhas, mais pólvora e mais medo. Uma tosse acendia a luz vermelha absoluta! Seria a faringite chegando?


Festa junina? A menina nunca viu nenhuma. Viajar para o interior e pular fogueira ou fugir de morteiro era coisa inimaginável!


Todo cuidado era pouco!


Também, a coisa era tão estranha que houve festa junina onde a menina conversava com Papai Noel, enquanto sua mãe chorava e rezava para que a febre baixasse, houve festa junina onde ela se via pilotando avião – dependia da febre!


O mundo sem alergia pulava fogueira e tomava quentão – mas fosse lá o que fosse esse negócio, quem precisava de quentão quando podia voar e falar com pessoas encantadas/encantadoras? Quem precisava colocar aquelas roupas estranhas?


São João? São João era apenas uma data estranha...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Sumol”


Ana gosta da vida. Gosta de estudar, de ajudar em casa.


Gosta do Carnaval com cada um mascarado para os outros não adivinharem quem é quem. As bombas de cheiro pestilentas que algum colega coloca na sala de aula e depois dá sempre asneira e castigos. Os estalos que pregam sustos quando são atirados debaixo da mesa. O cheiro e o som das raspas, depois de as passar rápido contra a parede e conseguir manter dentro das mãos aos pulos.


Adora a Páscoa. Acordar muito cedo, casa cheia de familiares, todos se arranjando rápido porque a casa é a primeira da aldeia a beijar a cruz. É a loucura e a coisa mais engraçada, umas vinte pessoas gerindo 2 banheiros, pelas 5h30, 6h. Nunca se sabe a hora que a cruz passa e isso deixa uma tensão no ar que é incômoda mas também muito divertida. A cruz vem, todos a beijam e pronto. Terminou. É fofo porque ficam com um dia muito maior para viver. Tomar um café da manhã cheio de gostosuras e aí vem o ritual que ela ama de paixão – arranjar o fato de banho e ir para a praia jogar futebol. Os mais velhos cheios de provocações fofas contra os mais novos cheios de sangue novo. De tarde, beijar a cruz na casa dos avós maternos – outro convívio muito gostoso e outras delícias. Com sumol de laranja. Este, junto com o Natal, é um dos dias mais rentáveis da sua vida. Seus padrinhos, tios, tias e avós maternos, dão cada um uma notinha que ela guarda religiosamente no meio dos livros do seu quarto, para um dia gastar numa coisa importante. Ter uma família grande é sensacional.


Adora o S. João, sempre ansiosa em saber se nesse ano já pode saltar a fogueira. A sardinha assada é para ela uma coisa esquisita, mal cheirosa e cheia de espinhas. Inocência de criança. Lembra de ir com os pais e irmãos ao S. João do Porto, no ano anterior, onde seus pés pareciam querer rebentar de tanto andar. Que cidade grande que nunca mais acabava. Aquele martelo de brincar batendo na cabeça de desconhecidos que sorriam uns para os outros era mesmo diferente e engraçado. As cidades são lugares bem diferentes da sua aldeia.


Adora o Magusto, a delícia das delícias, sujar a sua cara e dos outros com a cinza que fica nas mãos por comer as castanhas assadas na brasa. As castanhas cozidas com erva doce são gostosas mas menos divertidas porque é uma dificuldade enorme para as comer por inteiro.


Adora o Natal, onde aprendeu que se pedir demais não tem, mas se pedir algo simples, o Pai Natal sempre dá um jeito.


Adora a passagem de Ano, mas é sempre tanta preparação dos adultos que fica à espera que algo no mundo mude, mas nada acontece. As pessoas ficam diferentes, mas o mundo parece ficar no mesmo lugar. Será que é uma daquelas mudanças que não se vê?


Ama os aniversários dos tios P e T. Momentos de festa, de união, de alegria. Aquilo é o céu... Poder beber sumol de Laranja, comer frango assado frio de restaurante, bicos de pato com fiambre, batata frita, rissóis, croquetes. Comidas e bebidas inexistentes na sua vida. Toda a família cheirosa, sorridentes, brincando, dançando, cantando, rindo muito, muito, muito.


Ana recorda tudo isto enquanto aguarda a sua vez de se confessar pela primeira vez. Precisa arranjar coragem para contar com quem se zangou, as asneiras que fez e as coisas erradas que pensou. Está morrendo de medo de perder tudo o que adora na vida por causa dessas coisas erradas que tem dentro de si. Se rezar tudo o que o Padre mandar, será que o mundo pode continuar assim, desse jeito, para sempre? Ai...é a sua vez...

Ana Santos, professora, jornalista

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